(Artigo publicado no Correio do Povo de domingo, 25/10/2009)
O esquerdista da Frente Ampla e ex-militante tupamaro José “Pepe” Mujica; o representante do Partido Nacional, blanco, e ex-presidente Luis Alberto Lacalle; e o colorado Pedro Bordaberry, filho do ex-ditador Juan Maria Bordaberry, além de mais dois candidatos considerados nanicos, estão concorrendo neste domingo à presidência do Uruguai. Estranhamente, o atual presidente Tabaré Vasquez, que tem 60% de aprovação dos uruguaios, manteve distância do candidato de seu partido. Mesmo assim Pepe Mujica aparece em primeiro lugar nas pesquisas. Embora a pouca identificação de Tabaré com Mujica, boa parte do apoio popular de que goza o candidato da Frente Ampla se dá por causa do desempenho do atual presidente do país.
O Uruguai já foi chamado de a “Suíça da América Latina”, por seu centro financeiro e pujança econômica baseada na agropecuária, no entanto, o país mergulhou, a partir dos anos 70, numa situação paupérrima. Até sua população estagnou nos 4 milhões de habitantes, sendo que um milhão vivendo fora do país. Essa situação só veio mudar recentemente.
Tabaré, o médico que foi prefeito de Montevidéu, foi o primeiro candidato da esquerda a romper a alternância dos tradicionais partidos blanco e colorado. Assumiu em março de 2005 e conseguiu fazer um governo moderado, que executou pontos de sua plataforma, como as reformas nas áreas tributária e trabalhista. Tambérm promoveu avanços substanciais na educação e aproveitou para fazer o seu proselitismo distribuindo computadores para os estudantes na semana que antecedeu as eleições. Além disto, orgulha-se de ter alcançado avanços na política de direitos humanos. A propósito, a eleição deste domingo marca também uma consulta plebiscitária sobre a lei de Anistia. Essa lei, estabele a prescrição da pretensão do Estado em punir os militares acusados de crimes contra a cidadania, praticados durante a ditadura militar, que se estendeu de 1973 a 1985. Os uruguaios vão se manifestar pelo “sim”, que significa a revogação da lei, ou pelo “não”, que seria a sua manutenção. O fato é que, enquanto se discute a lei, a Justiça uruguaia condenou nesta sexta-feira o ex-ditador Gregório Alvarez a 25 anos de prisão. Ele foi comandante do Exército de 1977 a 1979 e presdidiu o país de 1981 a 1983, quando deu-se o fim da ditadura. Foi acusado de crimes contra a humanidade e pelo “homicídio especialmente qualificado” de 37 rivais políticos. Também foi condenado, pela morte de 29 pessoas que haviam sido detidas pela ditadura, o ex-oficial da Marinha Juan Carlos Larcebeau. Levou 20 anos de prisão. Ou seja, Tabaré Vasquez conseguiu resgatar os julgamentos dos responsáveis por um dos períodos mais negros da história do país. E, ironicamente, quem pode suceder-lhe no poder, é um ex-guerrilheiro tupamaro, que lutou contra a ditadura.
Mas o grande impulso do Uruguai se deu na economia. O país apresenta nos últimos doze meses um crescimento de 8% do PIB. Esse número é impulsionado pela fábrica da Botnia. Tabaré comprou uma briga com a Argentina ao assegurar a implantação da planta de celulose na cidade de Fray Bentos, empreendimento de 1,5 bilhão de dólares, o maior da história do Uruguai. Esse somatório de aspectos dá o diferencial à sua adaministração. E esta é herança que Pepe Mujica tentará desfrutar.