(Artigo publicado no Correio do Povo de domingo 01/11/2009)
O bordão “quem foi rei sempre será majestade” acaba de se aplicar aos EUA em Honduras. Envolvidos com as guerras no Iraque e no Afeganistão, com as questões nucleares de Coréia do Norte e do Irã, além dos negócios com a China, seu maior comprador de títulos, os EUA haviam deixado de lado o seu antigo quintal, situado abaixo do Rio Grande. Esta semana voltaram a atuar, justamente num dos países em que sempre tiveram maior influência. Um dos integrantes das repúblicas bananeiras que, na realidade, eram administradas pela United Fruit. Mas a ação americana só se deu porque houve fracasso total da Organização dos Estados Americanos e do mediador, o presidente da Costa Rica e Prêmio Nobel da Paz Óscar Arias.
Detalhe importante: a ação do governo Obama se deu respeitando o posicionamento do governo brasileiro. Vamos aos fatos. O Brasil, assim como a maior parte da comunidade internacional, firmou pé, dizendo que as eleições programadas para 29 de novembro só poderiam ser realizadas com o retorno do presidente deposto Manuel Zelaya ao governo. A intenção do presidente interino de Honduras Roberto Micheletti era de ir levando a situação com a barriga, realizar a eleição e dar posse ao novo presidente, sem que Zelaya retornasse ao governo. Este posicionamento tinha o apoio dos republicanos nos EUA e estava ganhando força entre integrantes do governo Obama. Dizia-se que se os EUA assumissem essa decisão teriam ao apoio de países que são seus aliados fortes na região,como Colômbia, Peru e Panamá. Assim, na véspera da chegada a Tegucigalpa da comitiva americana liderada pelo secretário-assistente de Estado para o hemisfério Ocidental Thomas Shannon, o chanceler Celso Amorim fez um enfático pronunciamento. Disse que se isto acontecesse iria provocar um racha na região e previu um cenário tétrico, pois estaria criado o exemplo para outros golpes, numa região em que a democracia ainda é muito frágil. Amorim disse que, ao abrigar Zelaya em sua embaixada o Brasil deu oportunidade para uma saída negociada. E disse mais: “Eu não vou discutir a política de Zelaya, isto não interessa. Até porque essas coisas são usadas como pretexto”. No que estava absolutamente certo. Entendo que Zelaya fez tudo para ser deposto, mas isto deveria ser feito pela via legal, e não pegando-o a noite de pijamas e o largando em outro país.
Assim é que, depois de tantos impasses e de tanta resistência de Micheletti, os EUA resolveram usar da influência de serem o país que recebe dois terços das exportações hondurenhos e de onde um contingente enorme de hondurenhos manda dinheiro para o seu país. Resultado: Micheletti, que queria que a volta de Zelaya ao governo fosse decidida pela Corte de Justiça, aceitou a proposta de Zelaya, que queria a decisão pelo Congresso. Então, embora o Congresso tenha em ocasião anterior votado pela deposição de Zelaya, agora deverá votar pelo seu retorno para poder viabilizar a eleição de novembro e os cargos dos deputados. Zelaya será reconduzido ao governo, mas não ao poder. Realizará as eleições e governará até janeiro, data da posse do novo presidente. Não poderá concorrer, assim como também acontece com Micheletti. Com o que, graças aos EUA e ao Brasil a democracia será restabelecida.