O início da semana foi saudado com a declaração da Rússia de que estava retirando 10 mil soldados dentre os estacionados na fronteira junto à Ucrânia. Tivemos os encontros do presidente Vladimir Putin com o presidente francês Emmanuel Macron e com o premiê alemão Olof Sholz que resultaram em avanços do processo de negociação. Os Estados Unidos, no entanto, têm se mantido céticos com relação aos propósitos russos, insistindo em que Moscou segue preparando uma invasão para qualquer momento.
Para complicar, nesta quinta-feira tivemos mais uma confrontação na região do Donbass, onde situam-se as províncias de Lugansk e Donestk que estão sob o controle de separatistas pró-Rússia. Com o agravante de duas escolas infantis terem sido atingidos por bombardeios. Felizmente, sem mortos. E esses confrontos são vistos como uma possibilidade de serem usados pela Rússia como uma desculpa para a invasão. No entanto, o que se percebe é que Putin não quer invasão, mas, sim, fomentar o separatismo. Com isto estaria alcançando alguns objetivos. Um deles, seria o de atrair para o lado russo uma parte da população e do território ucranianos. Outro, fazer com que a Ucrânia, com problemas territoriais internos, não tenha condições legais de se incorporar à Otan, tendo em vista que a organização não aceita como membro país que tenha pendenga territorial. Não é sem razão que, em meio ao anúncio de retirada de tropas, se incrementam os conflitos no Leste ucraniano.
Evitar a entrada da Ucrânia na Otan é o objetivo imediato de Putin. E este, tudo indica, está sendo alcançado. Em decorrência disto, ele alcança o outro objetivo que é impedir a colocação de mísseis da Otan junto à fronteira russa. Porém, para o terceiro objetivo dele não vejo perspectiva nenhuma de ser alcançado. É a retirada das forças da Otan para além dos limites traçados em 1997. Esses limites eram os da antiga “cortina de ferro”, que separava do Ocidente os países que integravam a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Só que, grande parte desses países passou a fazer parte da Otan. É o caso das três repúblicas bálticas, Letônia, Estônia e Lituânia, assim como Polônia, Hungria, República Tcheca, Eslováquia, Bulgária e Romênia. Há que considerar ainda que alguns países que não compunham a URSS, mas que também se identificavam com o regime comunista, também passaram a integrar a Otan. São eles, a Albânia e os integrantes da ex-Iugoslávia, que são Croácia, Eslovênia, Montenegro e Macedônia do Norte.
O fato é que Putin, defensor de um estado forte e autoritário, quer resgatar aquilo que a Rússia foi, tanto ao tempo dos czares como dos soviéticos. Algo que foi perdido nos anos 1990, após a queda da União Soviética e quando Moscou foi comandada pelo cambaleante Boris Yeltsin. Só que agora há uma nova realidade com a passagem para o âmbito da Otan desses países que integravam a URSS. Assim é que o máximo que Putin pode conseguir hoje é evitar a passagem da Ucrânia. O que está praticamente assegurado, evitando agora a guerra. Resta ver até onde ele avançará no seu terceiro intento e se estará disposto a travar mais adiante a guerra que hoje está sendo evitada.