O presidente russo Vladimir Putin declarou há pouco tempo que o fim da União Soviética foi a maior catástrofe geopolítica do século passado. E justamente por isto que ele está numa cruzada de tentar recuperar, pelo menos, parte dos territórios que compunham a União das Repúblicas Socialistas Soviética, da qual o segundo país em importância era a Ucrânia. Não se pode esquecer que antes de desfechar a “operação militar especial”, eufemismo que usa para a invasão da Ucrânia, Putin sufocou os rebeldes da Chechênia, uma província de população muçulmana que nada tem a ver os eslavos que compõem a maior parte da população russa. Em 2000, bombardeou a Chechênia até a submissão. Em 2008 foi a vez de atacar a Georgia. Não conseguiu subjugar aquele país, mas provocou o separatismo em duas repúblicas, Abkhasia e Ossétia do Sul, as quais mantém como protetorados. Assim como tem também um protetorado, a Transnístria, em outro país vítima de seus ataques, a Modova, antiga Moldávia. Tudo nos arredores da Rússia e dentro da área da antiga URSS.
Na Ucrânia, Putin passou a fomentar o separatismo nas províncias do leste, Donestk e Lugansk, região do Donbas, onde armou milícias pró-Rússia. Quando a Ucrânia resolveu agir militarmente para acabar com o separatismo, em 2014, Putin decidiu retomar a província da Crimeia, que fora presenteada à Ucrânia em 1954 por Nikita Kruschev, que era ucraniano, a fim de reforçar a “unidade entre russos e ucranianos” e a “grande e indissolúvel amizade” entre os dois povos. Como na ocasião não houve nenhuma resistência por parte da Ucrânia quanto à retomada da Crimeia, Putin deve ter deduzido que o mesmo ocorreria com a atual operação. Tomou o bonde errado.
Todavia, apesar do fracasso em tentar tomar Kiev e Kharkiv, as duas maiores cidades do país, Putin concentra agora sua ação mais uma vez nas províncias do leste onde existe movimento separatista. Desenvolve ali duas ações: de persuasão e militar. A primeira consiste em oferecer passaporte russo para a população local. Vai formando uma maioria de população não só de origem russa, mas, de cidadania russa. Ao mesmo tempo concentra ali sua força militar, que recebe o apoio dos separatistas. Com isto está conseguindo avanços territoriais que podem se tornar significativos. Bem diferente das outras regiões onde as forças russas não conseguiram dobrar a resistência ucraniana e tiveram que recuar.
A estratégia parece clara: tomar o Donbas e fazer a ligação até a Crimeia através de Mariupol, já tomada e totalmente destruída. Ficaria com o controle de uma área que se estende do leste ao sul da Ucrânia. Esta é a intenção número um e parece que seria menos prejudicial à Ucrânia aceitar esta situação em troca do fim da guerra. Isto porque, em tomando essa área e não havendo um cessar-fogo, Putin pode seguir com sua ação em direção ao oeste, para chegar até a Transnístria. Nesse caminho tomaria Odessa e acabaria com a saída da Ucrânia para o Mar Negro, por onde esta escoa toda sua produção de cereais e minerais. Daí o prejuízo ucraniano seria muito maior e de mais difícil recuperação. Mas, enfim, tudo é uma incógnita ainda. Agora, o que é certo é ambição de Putin em fazer Moscou voltar a comandar um território que se estenda além dos limites da Rússia.