de Los Angeles – j.soares@cpovo.net –
Ao longo desta semana circulei por Los Angeles e suas cidades satélites, como Pasadena, Irvine e Anaheim, onde, aliás, está situada a Disneylândia da Califórnia, que segue movimentada. E, por onde passo, tenho conversado com as pessoas sobre a situação econômica do país. Converso desde taxistas e garções, que são aqueles profissionais que têm o “pulsar” da economia, até empresários, professores universitários, etc. A constatação é a mesma: o país viveu uma grande e terrível crise, mas, lentamente, está se recuperando. O termo terrível da crise fica por conta do setor imobiliário, quando as pessoas perderam suas casas, por não poderem mais pagar o financiamento, que chegava até a 5 mil dólares mensais. Jesus Alvarez, um mexicano que trabalha de garçon num restaurante da rede Olive Gardens, contou que, por sorte, mora de aluguel, porque outros seus compatriotas que haviam comprado a casa em que moravam, tiveram que entregar. Casas cujos preços chegaram a 600 ou 700 mil dólares e que hoje não valem mais do que 200 mil.
Mas, o pior da crise passou e a economia volta a se movimentar, embora ainda muito lentamente, conforme ressaltou o presidente do Federal Reserve, o banco central dos EUA, Ben Bernake. Para ele, conforme nota emitida pelo banco nesta quarta-feira, a recuperação econômica dos Estados Unidos continua sendo “desesperadamente lenta”. E por isto o FED mantém intacta a política monetária de taxas reduzidas para apoiar a economia. Os juros são quase zero. Menos mal, que o número de empregos gerados está crescendo. E por falar em emprego, chama a atenção os ocupantes de determinados empregos por aqui. O atendimento de lojas, bares e restaurantes é feito basicamente por asiáticos – chineses e coreanos – e por mexicanos. E os serviços de rua e de hotéis, como limpeza, manutenção, etc, são exclusividade dos mexicanos. Alguns, como a camareira Isabel, vêm com a intenção de juntar dinheiro e um dia voltar. Outros, como o garçon Jesus, já tiveram filhos por aqui e, consequentemente, criaram raízes e não voltam mais. Simplesmente porque este país, apesar da crise, é o país das oportunidades.
Mesmo tendo perdido alguns pontos em sua popularidade nos últimos dias, devido ao aumento no preço da gasolina, que gerou uma pequena inflação, o presidente Barack Obama não vislumbra nos republicanos um adversário à altura para derrotá-lo em novembro. Aliás, as prévias republicanas estão se caracterizando por uma divisão no partido, tanto que com as vitórias obtidas no Alabama e no Mississipi, nas primárias realizadas nesta terça-feira, Rick Santorum ficou com 229 delegados, contra 477 de Mitt Romney. Em meio a esse racha, Obama fica assistindo, mas de olho nos números da economia, a espera de dados alentadores, como o divulgado nesta terça-feira, indicando que as vendas no varejo norte-americano exibiram em fevereiro a maior alta em cinco meses. Além disso, o Federal Reserve informou que certas tensões nos mercados financeiros estão diminuindo. Ou seja, a economia está se ajeitando. E se esta tendência seguir até novembro, Obama estará garantindo a sua reeleição.
E o que segue tendo profunda repercussão aqui nos EUA é o episódio do soldado norte-americano que matou16 civis em duas residências no Afeganistão. Não só na opinião pública, que está estupefata com o episódio, mas, principalmente, nas forças armadas, que passam a ser mais pressionadas para promover a imediata retirada do país. Não se pode esquecer que, pouco antes deste episódio, a queima do Corão por soldados americanos havia gerado uma série de protestos pelo país contra os EUA. Os planos militares estabeleciam a total retirada até dezembro de 2014, numa ação escalonada. No entanto, estes planos estão sendo revistos, para desgosto dos militares, os quais entendem que uma retirada em massa possa ser catastrófica.
Porém, a grande questão que está sendo posta é: o que os Estados Unidos ganharam nestes dez anos de guerra? E a resposta é praticamente pouca coisa significativa, a não ser, evidentemente, a eliminação de Bin Laden. Que, segundo acaba de ser revelado, tinha planos para matar Barack Obama.Também conseguiram tirar o Talibã do poder, mas este está quase voltando. Já se reestruturou a ponto de manter o controle da maior parte do interior do país e de estar atacando em Cabul, a capital. Os Estados Unidos eliminaram o mentor da Al Qaeda, Bin Laden, mas não eliminaram a organização. Esta, pelo contrário, ficou mais forte. E a ação do soldado americano não foi um fato isolado. Outros semelhantes como este aconteceram, o que demonstra uma certa desarticulação dos soldados americanos que atuam naquele país. Obama ficou constrangido em ter que explicar o fato. Assim é que cresce a pergunta por aqui: para que ficar mais tempo no Afeganistão?