O que inicialmente era uma guerra entre Israel e o grupo terrorista palestino Hamas, agora é um conflito que já envolve o Irã, o Líbano, o Iraque, a Síria e o Iêmen. E na extensão das confrontações entre as forças armadas de Israel e do Hamas, tem-se as ações de grupos fundamentalistas islâmicos, como Jihad Islâmico, Hezbollah, Estado Islâmico, Houthis e outros, além das ações do Mossad, o serviço secreto de Israel, coma a desenvolvida nesta quarta-feira no Líbano, matando o número dois do Hamas, Saleh Al-Arouri. O Irã, que tem sido uma espécie de “eminência parda” destes conflitos, agindo à margem, pelo suporte que dá aos grupos terroristas que lutam contra Israel, acabou sendo vítima do próprio veneno que produz, ou seja, o terrorismo.
Quando foi anunciado o duplo ataque terrorista desta quarta-feira, durante as homenagens pelo quarto ano de falecimento do general iraniano Quassin Suleimani, logo vieram as acusações de que Israel e Estados Unidos estavam por trás desses atos. No entanto, não é costume de nenhum desses dois países se valerem desse tipo de ação. Aliás, suas ações são costumeiramente bem pontuais. Assim como foram a da quarta-feira, em Beirute, por Israel, que matou Al-Arouri, como a da quinta-feira, pelos EUA, no Iraque, que vitimou dois membros do Hashid AL-Shaabi, uma facção muçulmana pró Irã. Para surpresa de muitos, os dois atentados ocorridos no Sul do Irã, praticados por dois homens-bomba, e que deixou 84 mortos, foi reivindicado pelo Estado Islâmico. E aí vem o questionamento: muçulmanos praticando atentado contra muçulmanos. Acontece que o islamismo, assim como outras correntes religiosas, tem as suas divisões. E, neste caso, tivemos uma ação de um grupo muçulmano xiita contra um país muçulmano sunita. Ou seja, uma confrontação entre as duas principais correntes do Islã. São dois ramos que existem no interior do islamismo e possuem diferenças religiosas, doutrinárias, de rituais, de entendimento das leis do islã, etc. Esses dois ramos surgiram logo após o falecimento, no ano 632 da era Cristã, de Muhammad, ou Maomé, o profeta do islamismo, responsável pelo surgimento do islamismo no século VII. Uma corrente entendia que o sucessor do profeta deveria ser o genro dele, Ali. São os xiitas. A outra, que viria a compor os sunitas, entendia que a sucessão deveria ser de um colegiado, mas, acabaram aceitando Abu Bakr, um respeitado contemporâneo do profeta, como líder do que então era um império internacional tanto político quanto espiritual. Mas, a divisão permaneceu. Hoje são grupos rivais o que explica os atentados desta semana no Irã. Acontece que o Estado Islâmico, que é sunita, tem sua base no Iraque, país que era governado pelos sunitas ao tempo de Saddam Hussein, mas, que agora é controlado pelo Irã xiita.
O Irã, sabidamente, é o sustentáculo dos grupos radicais que lutam contra Israel. Em função disto há um grande risco de uma confrontação direta entre os dois países. Este fato vem sendo evitado por ambos devido as conseqüências catastróficas que adviriam. No entanto, é cada vez mais provável uma confrontação de Israel com o Líbano. É naquele país que está estabelecido o Hezbollah, que tem realizado frequentes ataques contra o Norte de Israel. E é lá também que funcionava o escritório do Hamas, destruído pela ação israelense. Aliás, essa ação provocou um protesto do Líbano junto ao Conselho de Segurança das Nações Unidas. O governo libanês afirma que os atentados israelenses a seu país entraram em sua “fase mais perigosa”. Além de reportar o uso de seis mísseis no bombardeio que matou Arouri, reclama ainda que Tel Aviv vem utilizando o espaço aéreo libanês para bombardear a Síria. Ocorre que o Hezbollah é considerado um grupo melhor armado que o Hamas. Em discurso nesta sexta-feira, o líder do grupo fundamentalista libanês Hezbollah, xeque Hassan Nasrallah, afirmou que seus comandados lançaram 670 ações contra o norte de Israel desde o início da guerra entre o Estado judeu e a organização terrorista palestina Hamas, em 7 de outubro. E também conclamou por vingança contra Israel pelo atentado que matou Al-Arouri.
Como se não bastassem todos estes atores, ainda surgiu no cenário a figura dos Houthis, outro grupo financiado pelo Irã e estabelecido no Iêmen. Este grupo tem praticado atentados contra navios mercantes que navegam pelo canal de Suez. Segundo o governo norte-americano, desde novembro foram cerca de 20 ataques. No último fim de semana, helicópteros da Marinha dos EUA afundaram três barcos dos Touthis. Este é quadro estabelecido a partir do dia 7 de outubro passado, quando o Hamas praticou os atos de terror em Israel, matando cerca de 1200 pessoas e seqüestrando cerca de 300. Mas, a origem deste conflito remonta há muito mais tempo. E sua solução não se dará como se propôs Israel ao atacar o Hamas em Gaza, ou seja, acabar com a organização terrorista. Morrem os líderes de agora, porém, logo surgem outros. Sua solução só se dará quanto for constituído o estado da Palestina. E, para isto, por mais que possa causar revolta em muitas pessoas, pois é difícil aceitar o diálogo com terroristas, será preciso ter o Hamas na mesa de negociação.