A presidente da Argentina Cristina Fernandes de Kirchner resolveu incorporar o espírito dos militares de 1982 e enfrentar a Grã-Bretanha em defesa da soberania sobre as ilhas Malvinas. Claro que um enfrentamento bem diferente daquele que a 2 de abril próximo completa 30 anos, posto que não se dá no terreno militar, mas no político, diplomático e econômico. Mas a finalidade de Cristina é a mesma dos militares: usar um assunto que é unanimidade nacional, para fomentar o apoio popular em torno do governo. Um governo populista, que conquista a massa com programas assistencialistas, mas que bate de frente com o carro chefe da economia do país, o agronegócio.
A questão vem, gradativamente, aumentando a tensão entre os dois países. Começou a 10 de fevereiro, quando a Argentina apresentou perante as Nações Unidas uma reclamação, pelo que considera uma militarização da área do Atlântico Sul, numa referência às movimentações inglesas na região. É que o Reino Unido havia enviado para a área um poderoso navio de guerra, a bordo do qual estava o príncipe William, que fora para lá com a missão de realizar exercícios militares como piloto de helicóptero. A presença do herdeiro real causou repúdio no governo argentino, tanto que a chancelaria emitiu nota condenando o fato de William estar nas ilhas com uniforme militar e não como chefe de Estado. Para complicar mais um pouco, Londres mandou também um submarino para se somar às forças de defesa das ilhas, que eles chamam de Falkland e onde mantêm uma base militar com 2.000 soldados.
Nesta semana, Cristina conclamou as empresas argentinas a não importarem mais produtos britânicos. Que só comprem dos países que reconhecem a soberania argentina sobre as Malvinas. Pois aí ela começa a entrar num jogo perigoso. A Argentina recém está saindo de uma crise que levou o país à falência no início dos anos 2.000. Sua economia ainda é fraca. Como fracas são as instituições políticas e jurídicas, que mudam conforme a vontade governamental. E justamente a falta de uma maior segurança jurídica está fazendo com que um bom número de empresas esteja deixando o país. E vindo especialmente para o Brasil, onde o investidor estrangeiro encontra um mercado em expansão e com leis bem definidas.
Diante do boicote comercial imposto pela Argentina, o governo britânico recorreu aos parceiros da União Européia, levando o assunto para a análise em Bruxelas. O primeiro resultado que pode surgir daí é a União Européia acompanhar Londres num boicote à Argentina, o que complicaria múltiplas vezes a situação. Cristina já pediu a intervenção da Unasul, a União de Nações Sul-Americanas. Esta, muito pouco poderá fazer. Brasil, Uruguai e Chile já tomaram uma decisão de forte respaldo à Argentina, proibindo navios com bandeira das Malvinas de atracar em seus portos. Mas não poderão ir muito mais adiante. Especialmente, quando o assunto envolver comércio. Ninguém irá sustentar um apoio à Argentina se isto representar prejuízo para os seus negócios. Tampouco as próprias empresas argentinas darão apoio à Cristina se isto também lhes causar perdas.
A ação que os militares desenvolveram 30 anos atrás teve consequências catastróficas para a Argentina, espera-se que a ação de Cristina agora não leve, por outras vias, ao mesmo resultado.