Os curdos do norte da Síria deram substancial apoio às tropas dos Estados Unidos na guerra de exterminação do Estado Islâmico. Com essa parceria, os curdos da Síria, assim como os do Iraque, ficaram protegidos dos ataques da Turquia. Nesta semana, cumprindo a determinação do presidente Trump de tirar os EUA dos “atoleiros” em que se meteram, as tropas americanas deixaram a Síria. Como consequência, deixaram os curdos sem proteção contra os ataques da Turquia, que já passaram a acontecer. O presidente turco Recep Tayyip Erdogan não deu a mínima importância para a advertência de Trump de impor pesadas sanções econômicas à Turquia em caso de ataque aos curdos.
Os curdos se constituem hoje numa nação sem pátria. As divisões do mundo, feitas pelas potências vencedoras após a Primeira Guerra, não os contemplaram. Enquanto múltiplos países foram surgindo, fruto da existência de uma nação naquele território, os curdos assistiram o contrário. A sua nação ficou dividida em cinco territórios. Territórios que pertencem a outros países. Assim, os curdos ficaram fazendo parte do Iraque, do Irã, da Síria, da Turquia e da Armênia. E o que eles querem hoje é criar nessas áreas um país chamado Curdistão. Mas, até agora não encontraram eco para os seus reclamos. Somente a reação forte dos governos que lhes impõe o domínio.
Não há números concretos, mas as estimativas são de que os curdos somem 35 milhões de pessoas. Destas, mais da metade está concentrada na Turquia, sobretudo no sudoeste do país, onde tem se dado as maiores ações pela independência. Os curdos são de origem nômade, tem cultura e língua próprias. Falam o curdo e o árabe e são, majoritariamente, de religião muçulmana sunita. Na Turquia, eles constituíram o PKK, Partido do Povo do Curdistão, que atua politicamente, mas, tem seu braço armado. Por isto têm sido duramente reprimidos. O governo de Ancara chegou a proibir o uso da língua curda em escolas e locais públicos, bem como em manifestações culturais da população.
No Iraque, onde gozam de maior autonomia, sendo inclusive grandes produtores de petróleo, os curdos aproveitaram a atual fraqueza do governo, realizaram um plebiscito e declararam sua independência. Foram reprimidos. Na Síria eles cresceram pelo respaldo recebido do Ocidente por sua ação contra o EI. Em função disto, passaram a dar apoio a seus irmãos da Turquia. E foi isto que levou o governo turco a, mais uma vez, atacar uma comunidade curda. Erdogan diz que quer estabelecer um cinturão separando os territórios turco e sírio e, como conseqüência, os curdos de ambos os lados. Só que isto implica em bombardeio a cidades fronteiriças e a morte de elevado número de civis.
A retirada americana decretada por Trump envolve um outro interesse. A Turquia é membro da Otan, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, e possui importantes bases militares desse grupo de defesa do Ocidente. Com o isolamento de Trump, Erdogan vinha negociando com o russo Vladimir Putin, de quem inclusive comprara baterias antiaéreas. E, para não perder para a Rússia esse importante aliado, Trump traiu os curdos. Como esses têm em suas prisões cerca de 10 mil integrantes do Estado Islâmico, é de se deduzir que o seu enfraquecimento militar possa ser determinante para a fuga desses terroristas e de sua conseqüente reorganização. Voltando a espalhar o terror pelo mundo.