O presidente argentino Néstor Kirchner creditou o assassinato de três policiais que custodiavam um dos prédios do Ministério de Segurança, em Buenos Aires, a uma reação ao avanço dos julgamentos dos acusados de crimes contra a humanidade. E é muito provável que tenha razão.
A ditadura argentina, de 1976 a 1983, foi uma das mais cruéis na região, tendo deixado um saldo de 30 mil mortos ou desaparecidos. Algumas das lideranças, como general Jorge Videla e o almirante Emilio Masera, chegaram a ser condenados à prisão pelos atos praticados. Os altos comandantes militares da época da ditadura já foram julgados e condenados. Estão todos, no mínimo, em prisão domiciliar. Quando a discussão sobre o tema avançava, Carlos Menem, que governou de 1989 a 1999, promulgou a chamada “Lei do Ponto Final”. Muito setores da sociedade argentina não concordaram com isto. Queriam a responsabilização dos autores das atrocidades.
A caminhada das Mães da Praça de Mayo, às quintas-feiras, pela praça situada defronte à Casa Rosada, se tornou um movimento símbolo dos protestos de familiares daqueles que tombaram diante da ditadura militar, que comandou a Argentina de 1976 a 1983. Pois, em outubro do ano passado, surgiu, a poucas quadras dali, na Praça San Martin, uma marcha em homenagem aos militares que tombaram na luta contra as organizações de esquerda. Foi organizada pela Comissão de Homenagem Permanente aos Mortos pela Subversão. Este o nome dado à organização, que provocou furor no governo Kirchner e em organizações de defesa dos direitos humanos.
O movimento surgiu justamente no momento em que o presidente Kirchner revogou a “Lei do Ponto Final”, do ex-presidente Menem, que procurava sepultar o nefasto passado vivido pela Argentina. Pedia o julgamento dos militantes de esquerda que mataram militares durante aquele período. E o movimento tem à frente três jovens mulheres, na faixa dos 30anos, filhas de militares que morreram no combate à guerrilha dos Montoneros e do ELN. Ou seja, de militares que estavam cumprindo sua missão.
O fato é que a Argentina viveu um momento negro de sua história. Houve tortura e violência por parte da ditadura militar, que levou à morte de muita gente. Mas não é menos verdade que a guerrilha também matava indiscriminadamente. Portanto, o julgamento da história não pode ser unilateral. Kircher trouxe de volta o tema do julgamento dos militares para a campanha eleitoral de sua mulher, Cristina Fernandez de Kirchner. A reação, como se vê, foi a pior possível.