A Bósnia lembrou nesta sexta-feira os 20 anos do início da guerra travada entre 1992 e 1995 e que resultou na sua independência. Foi uma sequência da guerra de desintegração da Iugoslávia, que veio a resultar hoje em sete países independentes. A própria Bósnia, mais Sérvia, Croácia, Eslovênia, Macedônia, Montenegro e Kosovo. Todo este processo, que se estendeu ao longo de cinco anos, foi um dos mais cruéis que se tem notícia em tempos modernos. Foi uma guerra travada em pleno final do século 20, mas que trouxe de volta duas situações que, se esperava, estivessem afastadas do calendário da humanidade: os campos de concentração e o genocídio.
Essa guerra teve componentes étnicos e religiosos muito fortes. Componentes esses que sempre existiram, mas que foram sufocados ao longo do tempo em que o marechal Tito governou com mão de ferro a Iugoslávia, desde o fim da Segunda Guerra, em 1945, até a sua morte, em 1980. Por dez anos mais o sistema ainda se sustentou, mas, com a queda do comunismo no Leste europeu rompeu-se a frágil aliança que reunia as seis repúblicas e duas províncias que formavam a Iugoslávia.
O velho ódio que cultivavam entre si sérvios e croatas e, no meio deles, muçulmanos, recrudesceu e virou guerra civil, em 1990. Logo foram surgindo novos países, Croácia, Eslovênia e Macedônia. A Sérvia tentava conservar consigo o que compunha a Iugoslávia. Assim conservou Montenegro e Kosovo, que hoje também são países independentes. Quis segurar também a Bósnia, mas esta se declarou independente em 1992. E ali é que foi o problema maior, pela mescla de povos daquela república. Havia ali bósnios de origem sérvia, bósnios de origem croata e bósnios muçulmanos. Os bósnios croatas e muçulmanos declararam a independência da Bósnia. Os seus parceiros sérvios não aceitaram, porque queriam a união com a Sérvia.
Na guerra da Bósnia morreram 92 mil pessoas e o cerco à capital, Sarajevo, foi o mais longo da história. Um total de 11.541 pessoas morreu, pela força das armas ou por inanição pela fome. E um dos episódios mais nefastos foi o massacre de 8 mil bósnios-muçulmanos pela forças sérvias, lideradas pelo general Radovan Karazdic, preso em julho de 2008 e levado à julgamento no Tribunal Penal de Haia para ex-Iugoslávia, acusado por crimes de guerra. Outro que responde ante o mesmo tribunal, pelos mesmos atos, é o general Ratko Mladic, que era o chefe das forças sérvias na Bósnia. Naquela ocasião, a Europa ficou calada e impotente diante dos massacres que se verificaram na ex-Iugoslávia. Foi graças à ação do então presidente americano Bill Clinton que a situação se resolveu. Ele colocou a Otan para atuar nos Bálcãs, o que foi favor decisivo para colocar um fim aos massacres. Diga-se de passagem, uma ação bem diferente da praticada pela organização na Líbia.
Hoje, tanto a Bósnia como os demais países do Bálcãs vivem em paz e buscando o seu desenvolvimento. O sonho de todos é ingressar na União Européia, o que já fizeram Croácia e Eslovênia, sendo que está última até já adotou o euro como moeda nacional. Administrada por duas entidades, de um lado pela Federação da Bósnia e Herzegovina e de outro pela República Sérvia, os croatas, sérvios e muçulmanos do país vivem uma situação política tensa e parecem estar de acordo apenas sobre o desejo de entrada na União Europeia. Mas é sempre importante, como fizeram nesta sexta-feira, lembrar aquilo que nunca mais deve ser repetido.