(Artigo publicado no Correio do Povo de domingo, 20/03/2011) –
De 2004 a 2009 as exportações dos EUA para o Brasil cresceram 86%, o que corresponde à geração de um milhão de empregos no mercado americano. Nosso mercado já é o oitavo maior do mundo para os produtos “made in USA” e deve duplicar o volume de compras em cinco anos. Em 2010, segundo dados do nosso Ministério da Indústria e Comércio, exportamos para os EUA produtos no valor de US$ 19 bilhões e importamos no montante de US$ 27 bilhões. Portanto, com um saldo favorável aos norte-americanos da ordem de US$ 8 bilhões. Só estes dados já serviriam para justificar a vinda ao Brasil do presidente Barack Obama, que tem como grande objetivo gerar empregos em seu país. Mas, evidentemente, há outros interesses mais em jogo nesta visita, tanto de ordem econômica como de política.
Na parte econômica, conforme já comentei em outra ocasião, há o interesse pelo petróleo do Pré-Sal. Apesar de serem um dos maiores produtores de petróleo do mundo, os Estados Unidos são o maior consumidor. Como tal, precisam importar muito. O grande fornecedor é o mundo árabe. Pródigo em instabilidade política. Vide o momento atual pelo qual passam Arábia Saudita, Líbia e Bahrein, alguns dos maiores exportadores do produto. Então, é preciso procurar um fornecedor confiável. E o Brasil, com sua estabilidade política e crescimento econômico, se apresenta como tal. Somos um ator cada vez mais importante neste contexto internacional, tanto que já somos a sétima maior economia.
Na esteira do petróleo vem o etanol. Combustível limpo, que é apontado como uma das grandes alternativas para o petróleo. Os EUA têm sido reticentes à entrada de nosso etanol em seu mercado, porque eles também são produtores. Porém, com um grande diferencial. Produzem o etanol a partir do milho, que é um alimento e que recebe subsídios. O que encarece o combustível e também o alimento. Romper as barreiras e entrar no mercado americano é o grande objetivo dos produtores brasileiros. Hoje, no entanto, esbarram no forte lobby do Meio-Oeste, tendo em vista que o etanol deles, do milho, tem servido de alternativa para a geração de renda que a combalida indústria automobilística de Detroit deixou de gerar. Só para se ter uma idéia, para produzir uma mesma quantidade de etanol que os norte-americanos desenvolvem a partir do milho, nós ocupamos para a produção a partir da cana de açúcar apenas 1,5% da área territorial. O diferencial no custo de produção é o fato que irá pesar a favor do Brasil para romper as barreiras atuais. Como comércio é uma relação de compra e venda, o Brasil pode pressionar com o etanol para ocaso de compra dos jatos que necessita. Desde que a presidente Dilma Rousseff mandou suspender o negócio que estava quase fechado com a França, com os caças Rafale, outros fornecedores ficaram de olho nessa venda, onde se inclui a produtora dos F-15 americanos.
No aspecto político, a presidente Dilma Rousseff já deu a grande guinada no trato com o Irã, o que foi ao encontro dos objetivos de Washington. Vale lembrar que o ex-presidente Lula tinha uma relação muito próxima com o iraniano Mahmoud Ahmadinejad. Dilma, antes de assumir, condenou o voto do Brasil na ONU a favor do Irã. Disse que não podia compactuar com um regime que discrimina a mulher. E, para marcar a virada, no dia 7 deste mês, num gesto explícito contra as violações dos direitos humanos no Irã, o Brasil ofereceu uma homenagem, na sua missão junto à ONU em Genebra, à dissidente iraniana Shirin Ebadi, ganhadora do Nobel da Paz, perseguida pelo regime e refugiada na Europa.
Porém, para os EUA, o papel mais importante que o Brasil exerce é na América Latina, como um contra-ponto a Hugo Chávez e à sua política bolivariana. Embora tendo governos de esquerda nos últimos anos, e tendo tido algumas diferenças com os EUA, o Brasil tem mantido uma postura equilibrada nas questões regionais. É também um aliado político confiável, embora também seja cada vez mais um competidor na área comercial. Tanto que muitas empresas brasileiras já têm uma presença marcante no mercado americano. Mas, o mundo vive de conciliar a política e a economia.