Enquanto aguardo o processo eleitoral deste domingo, aproveito para fazer algumas observações sobre Buenos Aires, sempre considerada a mais européia das cidades da América Latina. Ainda segue detendo este título, embora tenha se “abrasileirado” muito. Favelas e tráfico de drogas, inexistentes 30 anos atrás, passaram a fazer parte do quadro da cidade. Quando se vem do Aeroparque, o Aeroporto Jorge Newbery, para a avenida 9 de Julho, se cruza por uma favela que abriga cerca de 30 mil pessoas. É a Villa 31, composta, como as nossas favelas, de casas sem acabamento, com um, dois ou até três pisos. É uma das múltiplas “villas” – que é como eles chamam as favelas – que se espalham pela cidade.
Muitas delas, palco de reportagens televisivas, como ocorre no Brasil, mostrando as ações dos traficantes, assim como a mobilização policial na tentativa, quase sempre frustrada, de diminuir os delitos. A criminalidade aqui também é crescente e um caso emblemático envolve o assassinato, há um ano, do líder sindical ferroviário Mariano Ferreyra, integrante do Partido Operário. É um crime que envolve sindicalistas, empresários e até o chefe dos delegados de Roca, considerado, segundo noticiou o Clarín, como o organizador do grupo que atacou os militantes do PO. Nesta quinta-feira, para assinalar um ano do crime e pedir o julgamento dos responsáveis, houve uma grande manifestação, que foi do Congresso até a Casa Rosada.
A “Calle” Florida já não tem mais o charme de anos passados, embora siga com um comércio movimentado. Já a Lavalle e a Corrientes, que haviam sofrido as conseqüências da “quebra” da Argentina de Menem, conseguiram recuperar o brilho de antigamente. Os cinemas e os teatros dessas ruas voltaram a “bombar”, com os espetáculos de “trasnoche”. Assim, é possível se assistir uma peça teatral a uma da madrugada, por exemplo. Já as casas de tango se multiplicaram. Hoje são muitas as casas que oferecem espetáculos de alto nível, acompanhados de jantar, que fazem a delícia dos turistas. E por falar em turistas, é enorme a presença de brasileiros, atraídos pelas belezas da cidade e pelo câmbio favorável. Ressalto que as belezas da cidade continuam se sobrepondo aos problemas. E dentre essas belezas não poderia deixar de ressaltar Puerto Madero, para um bom jantar com um bom vinho, e San Telmo, para o passeio do domingo pela manhã, em busca de alguma antiguidade ou, simplesmente, para assintir alguma parelha dançar, em plena rua, um tango no seu mais tradicional estilo.