Desde que se meteu no Iraque, o presidente George Bush praticamente esqueceu a América Latina. É certo que esteve por aqui, inclusive no Brasil, mas suas ações foram débeis, se comparadas à histórica atuação dos EUA no continente. Pois, agora, que sua popularidade caiu a 29% em função do atoleiro do Iraque, o presidente norte-americano resolveu voltar o foco diplomático para a América Latina. Uma ação que “envolve projetos de povo para povo”, conforme enfatizou Bush.
A largada foi dada nesta segunda-feira, em Arlington, no estado da Virginia, quando reuniu o primeiro escalão de seu governo com cerca de 250 representantes de organizações não-governamentais de 34 dos 35 países do continente. Ou seja, todos menos Cuba. São aqueles que originalmente deveriam fazer parte de algo que também era muito falado antes da guerra do Iraque e que depois foi esquecido: a ALCA, Aliança de Livre Comércio para as Américas.
A proposição atual nada tem a ver com a ALCA. Até porque, se assim fosse, teria rejeição. O que o governo Bush quer agora é divulgar na região as suas ações sociais e humanitárias no continente. De acordo com um estudo do Pew Research Center, fora do Oriente Médio, a América Latina é a região onde os EUA têm a maior rejeição. Aqui no Brasil, a guerra no Iraque fez a visão positiva que os brasileiros têm dos EUA baixar de 56% em 2000, para 44% este ano.
O governo Bush se deu conta de que está perdendo terreno na região para Hugo Chávez. E o líder bolivariano-venezuelano se expande não só com o seu proselitismo, mas também com o dinheiro do petróleo. São programas sociais em países de governos aliados, como Bolívia e Equador e negócios de energia com outros nem tão aliados, como Brasil e Argentina. Ações que deixam no chinelo a ajuda financeira americana para o continente, que, para o ano de 2008, não chega aos 2 bilhões de dólares.
O Brasil, no entanto, ganha um espaço diferenciado na agenda do presidente americano. O nosso país é visto como um parceiro importante para destravar a Rodada de Doha, que envolve as negociações no âmbito da Organização Mundial do Comércio. Tanto que Bush já enviou para cá esta semana o secretário do Tesouro, Henry Paulson, a vice-secretária do Comércio, Sandy Baruah, o número 3 do Departamento de Estado, Nicholas Burns, e o número 1 da chancelaria para assuntos da América Latina, Thomas Shannon.
Paulson já deu uma contribuição para melhorar a situação interna do Brasil, ao criticar a nossa carga tributária. Durante encontro nesta terça-feira com o governador Aécio Neves, em Minas Gerais, ele disse que a política tributária brasileira desestimula a economia formal do país e que a atual expansão da informalidade poderia ser revertida com a reforma tributária.
Enfim, o Brasil já tem uma boa perspectiva na parceria com os EUA no negócio do etanol e as novas perspectivam que se abrem prometem ser promissoras. Talvez esta necessidade de retomar o contato com a América Latina e, em especial, com o Brasil, venha a ser o lado bom da nefasta intervenção de Bush no Iraque.