Sete meses antes das eleições presidenciais de 7 de outubro a oposição venezuelana conseguiu se articular a apresentar um candidato único, para tentar desbancar Hugo Chávez, depois de 13 anos de governo. Já foi um avanço significativo com relação aos outros pleitos, quando cometeu erros estratégicos como boicotar o pleito ou apresentar-se dividida. Vai agora com o jovem governador do Estado de Miranda, Henrique Capriles, de 39 anos. Apresenta-se como uma renovação, sem os ranços dos decadentes Copei – Partido Social Cristão e AD – Ação Democrática, que dominaram o cenário político venezuelano de 1958 a 1993, com governos corruptos que abriram o caminho para o populismo de Chávez.
Mas, o problema para Capriles é como enfrentar Chávez, que criou a imagem de justiceiro para as classes menos favorecidas. É uma espécie de líder religioso que promove a luta do bem contra o mal. O grande inimigo é “el imperialismo yanque”. E todo oposicionista é visto como a serviço desse elemento explorador. E a unidade nacional giro em torno da lendária figura do libertador Simón Bolívar. Não é sem razão que esta semana Chávez fez mais um pronunciamento tendo à mão uma réplica da espada de Bolívar. Mas Chávez sedimentou sua popularidade com programas assistencialistas, subsidiados pelo dinheiro do petróleo. Um deles, tipo o brasileiro Bolsa Família. Outro, de assistência na área da saúde, ao estilo cubano, com o apoio de médicos cedidos pelos irmãos Castro. Também com base no modelo cubano, implantou cooperativas que fornecem alimentos a preços subsidiados. No entanto, para a classe média Chávez foi eliminando as possibilidades, com seu programa estatizante, que fez desaparecer os investimentos estrangeiros no país. Assim como promoveu também uma debandada das empresas do país. Afinal, qual é o empresário que quer atuar num país onde, de repente, o Estado coloca a mão sobre sua empresa e o indeniza com o que ele, Estado, acha que deve pagar. O grande problema do país hoje é a desestruturação do setor produtivo. Tudo se concentra na renda do petróleo.
Na campanha, Chávez deve radicalizar com seus programas de transferência de renda e com a disputa entre capitalismo e socialismo, muito embora o seu “Socialismo do Século 21” já tenha perdido o encanto. E a abandonada classe média Chávez procurará atrair com crédito fácil e incentivo à microempresa. Já Capriles promete vir com uma tática de conciliação, tentando desideologizar o debate. Adotando como modelo o ex-presidente brasileiro Lula, sabidamente, um apoiador de Chávez. E aí vale lembrar a última eleição brasileira. O oposicionista José Serra nunca quis bater em Lula, pelo contrário, em alguns momentos até o elogiou. O resultado é o que se viu: não levou. Capriles, se incorrer no mesmo erro, também não vai levar. Como disse o cientista político Oscar Schemel, da consultoria Hinterlaces, em entrevista à BBC Brasil: “Para ganhar de um competidor, é preciso se diferenciar dele. Os imitadores nunca conseguem superar o original, ao contrário, acabam reforçando seus valores”.
O fato é que a Venezuela apresenta hoje uma situação muito diferente do Brasil de Lula. Aqui os investimentos estavam bombando, lá os investidores já saíram. Aqui a inflação estava sob controle, lá é a maior da América Latina, beirando os 30%. A lista poderia ir longe. Mas são esses diferenciais que poderão ser explorados, contra um Chávez, que, apesar dos pesares, ainda goza de uma aprovação que vai de 55% a 58%. Um índice que é insuflado também, pelo câncer que se abateu sobre o líder bolivariano.