Os atentados do presidente Hugo Chávez aos preceitos de liberdade de expressão na Venezuela estão se tornando cada vez mais gritantes. Usando de suas artimanhas, ele acaba de cancelar as concessões para 34 emissoras de rádio. Mas elas não vão sair do ar. Simplesmente, vão mudar de dono. Vão passar para a rede do governo. Ou seja, serão mais 34 emissoras que deixam de ser independentes, para passarem a transmitir o oficialismo de Chávez. Vale lembrar que Chávez já tirou do ar a RC TV, que lhe fazia oposição, e está ameaçando fechar a Globovisión.
Mas os atentados chaviztas contra a liberdade de opinião não param por aí. Ele está para colocar em vigor uma lei, sob a qual os condenados por “crimes de mídia” poderão ser sentenciados a até quatro anos de prisão. O projeto de lei tem por objetivo punir os jornalistas que “causem pânico”, “perturbem a paz social” ou “comprometam a segurança nacional”.
Ora, isto nada mais é do que um atentado contra a democracia e um fato que remete aos sombrios períodos de ditaduras na América Latina quando, a primeira coisa que faziam era cercear a imprensa.
O fato é que, com isto, Chávez está dando mais um bom motivo para o Congresso brasileiro negar o ingresso da Venezuela no Mercosul. É o mínimo que pode fazer o nosso parlamento. Já que uma palavra mais incisiva, pelo menos em tom de alerta, caberia ao presidente Lula. Mas este não mostra disposto a se indispor com seus aliados bolivarianos.
MUDANÇA DE FOCO
O presidente Chávez conseguiu desviar para a Colômbia o foco de dois assuntos que lhe importunavam. Um, o atentado contra a liberdade de imprensa que está promovendo, ao caçar as concessões de 34 emissoras de rádio, passando-as para a rede do oficialismo,além de uma lei que prepara para o que chama de “crimes de mídia”. Outro, o fato de a Colômbia ter encontrado em poder das Farc armas que a Suécia havia vendido para o exército da Venezuela. E o desvio do foco ele conseguiu ao trazer para discussão o aumento da presença militar americana na Colômbia, que está sendo negociado. Ou seja, Chávez se valeu do antiamericanismo regional para bater na Colômbia e abafar seus temas. E ganhou aliados importantes, até como Brasil, Chile e Espanha. Todos já manifestaram preocupação com o que consideram corrida militar na região, a qual teria, de um lado, Colômbia e EUA, e de outro, Venezuela e Rússia.
O fato que todos embarcaram na canoa de Chávez. Era mais do que natural de que, depois de o Equador ter negado a renovação para os EUA usaram a base área de Manta, o governo americano se voltaria para a Colômbia, onde já colocou 6,3 bilhões de dólares, desde 2002, no Plano Colômbia. E seria natural também que a Colômbia que, com este plano conseguiu ferir mortalmente a guerrilha das Farc que atua por mais de 40 anos no país, não iria desperdiçar a oportunidade de contar com uma ajuda maior americana.
Então, os países da região precisam avaliar estes aspectos antes de caírem no jogo de Chávez.
É preciso destacar que, se os EUA quiserem atacar a Venezuela, não precisam de base na região. Agora, se estas existem facilitam a ação. E, de maneira muito sutil, o governo Obama está mudando o foco inicial do Plano Colômbia. Isto ficou claro na proposta orçamentária para 2010. O presidente pediu 31,5 milhões de dólares a menos para operações de controle de narcotráfico, queda de 13%. E, ao mesmo tempo, aumentou em 17 milhões de dólares a verba para operações militares não especificamente relacionadas com o narcotráfico. Esta mudança orçamentária demonstra como o Congresso americano consegue acompanhar os gastos militares do país.
ATAQUE À GLOBOVISIÓN
Destaquei ontem o fato de o presidente da Venezuela Hugo Chávez estar atentando contra a liberdade de imprensa no país ao caçar as concessões de 34 emissoras de rádio. Pois no mesmo dia a Globovisión, emissora de TV que faz oposição a Chávez foi alvo de um atentado com bombas incendiárias e de gás lacrimogênio. E o que é pior, o ataque foi liderado pela dirigente esquerdista Lina Ron do partido UPV, aliado de Chávez.
A ação está inserida no contexto da ação de Chávez de calar a imprensa que lhe é opositora. Já fechou a RC TV e agora está fazendo de tudo para bloquear também a Globovisión. Sem contar a lei sobre “crimes de midia” , pela qual os jornalistas poderão ser sentenciados a até quatro anos de prisão. O projeto de lei tem por objetivo punir os jornalistas que “causem pânico”, “perturbem a paz social” ou “comprometam a segurança nacional”. Fica a pergunta:? E estes atos, praticados pelos correligionários de Chávez, o que se constituem? Não são um verdadeiro atentado à liberdade de expressão?
O fato é que, enquanto se estabelece esta polêmica interna, fica abafada a questão referente aos armamentos que foram encontrados em poder das Farc e que haviam sido vendidos pela Suécia ao exército da Venezuela. A propósito, o jornal New Yor Times publicou ontem uma reportagem dando conta de que dados obtidos junto aos computadores das Farc provariam a ligação da guerrilha com o alto escalão do governo venezuelano. O que, convenhamos, não é de surpreender.