Os presidentes Hugo chávez, da Venezuela, e Álvaro Uribe, da Colômbia, se constituem nos dois extremos ideológicos da América do Sul. Enquanto Chávez é o maior crítico dos EUA na região, Uribe é o maior aliado. São desafetos um do outro. Mesmo com estas divergências, os dois foram levados a um encontro, ontem, em território venezuelano. Tema da reuniâo: as 762 pessoas que ainda estão em poder das FARC, as Forças Armadas Revoluiconárias Colombianas. Fazem parte do contingente que foi sequestrado desde 1996.
Sim, mas aí é de se perguntar? Mas, as FARC não são colombianas? E que Chávez tem com isto? Pois o dirigente bolivariano, que segundo seus críticos, tem apoiado as FARC, resolveu se oferecer como mediador para um diálogo entre as FARC e o governo colombiano. E ainda ofereceu o território venezuelano para que ali fosse processada a troca que está sendo pleiteada, de um grupo de 50 sequestrados por cerca de 400 guerrilheiros presos pelo governo.
Dentro os 50 relacionados para serem libertados, figuram duas pessoas que são alvo das maiores manifestações que vem sendo realizadas em favor dos sequestrados. Uma, é a ex-senadora e candidata à presidência Ingrid Betancourt, cujo sequestro completou 2000 dias recentemente. Outro, é o cabo Pablo Emilio Moncayo, sequestrado em 1997, aos 18 anos de idade, se constituindo numa das pessoas que está há mais tempo em poder da guerrilha.
O caso do cabo Moncayo ganhou destaque nos últimos tempos pela ação do pai dele, o professor Gustavo Moncayo, que instalou em uma barraca, numa praça do centro de Bogatá e, a partir dali, passou a divulgar a sua causa. Não sem antes ter caminhado, durante 46 dias, os 900 quilômetros que separam sua cidade, Sandoná, no sudoeste do país, de Bogotá. Na semana passada, o professor Moncayo viajou a Caracas na companhia de outras 14 pessoas, familiares de sequestrados, entre elas a mão de Ingrid Betancourt.
A ida da comitiva à Venezuela para encontrar-se com Chávez foi uma iniciativa da senadora liberal Piedad Córdoba, que é uma das mais ácidas críticas de Uribe. No entanto, ela ganhou o aval do presidente colombiano para liderar a missão, que se antecipou à ida de Uribe.
Em entrevista ao jornal Clarin, de Buenos Aires, nesta terça-feira, Raúl Reyes, o número 2 das FARC, afirmou que a guerrilha não aceita entregar os reféns em território venezuelano. Insistiu que a libertação do grupo deve acontecer na Colômbia. E manteve a exigência de que Uribe desmilitarize uma área de 800 quilômetros quadrados, por ao menos 45 dias, para que o acordo seja feito.
A declaração diminui um pouco o papel de Chávez na negociação. Mas o fato é que Uribe está sob pressão interna e externa para que chegue a um acordo humanitário com a guerrilha. O seu chanceler, Fernando Araújo, que já foi refém da guerrilha, acredita somente na solução militar. Disse que é mais fácil derrotar as FARC do que chegar a um acordo de paz. A história o contradiz. As FARC atuam na Colômbia há mais de 40 anos e nenhum governo conseguiu derrotá-la. Nem os dois últimos que contaram com a substancial ajuda dos EUA, no chamado Plano Colômbia, promovido pelo governo Bush.
Assim é que não se vislumbra um outro caminho para a solução do problema colombiano que não seja aquele que tenha por via a negociação.