Como em todo regime autoritário, Hugo Chávez demorou para dizer qual é o seu quadro clínico. Agora, sabe-se que está com câncer e que “luta pela vida”. Em meio a essa luta e de lá da ilha de Cuba segue governando a Venezuela. Isto porque a Assembléia lhe concedeu uma autorização para uma estada de “mais de cinco dias” fora do país. Ou seja, não há limite. Esses cinco dias já foram multiplicados por quatro e não se sabe ainda quão longe irá essa situação. Consequência lógica, a ingovernabilidade do país. O vice-presidente, que é nomeado por Chávez e pode ser deposto por ele, é Elias Jauá, um ex-líder estudantil de 42 anos, que já dirigiu o organismo equivalente ao nosso Incra. É considerado um duro ideológico, mas sem a experiência e o carisma para substituir Chávez. Mas como o presidente está em Cuba, sofre a influência do que acontece por lá. Como tal, pode passar o poder para o seu irmão Adán, de 58 anos, que é o governador de Barinas. Aliás, um estado onde, como nas dinastias, os principais cargos públicos estão nas mãos de familiares de Chávez. Adán sucedeu o próprio pai.
Adán tem feito constantes viagens a Cuba e há a suposição de que possa vir a ser o sucessor de Hugo Chávez. Depõe contra ele o fato de não ter o carisma do irmão. Mas aí vem mais uma vez o exemplo de Cuba: Raúl também não tem o carisma de Fidel, mas está já há três anos à frente do governo. A diferença de Cuba para a Venezuela está no sistema político. Em Cuba só concorre nas eleições quem for do partido único, o PC, ou os candidatos independentes que passarem pelo crivo dos donos do poder. Na Venezuela, apesar de todas as mudanças feitas por Chávez para facilitar sua permanência no poder, haverá eleição presidencial em 2012. E aí Adán ou outro indicado por Chávez terá que ser testado nas urnas, contra outros oponentes. No entanto, se Adán tem contra si o fato de não ter o carisma do irmão, tem a seu favor todo o legado do mesmo em termos de ações populistas. E irá enfrentar uma oposição que, apesar de estar cansada de Chávez, e prejudicada pelas suas ações, ainda não apresentou um nome capaz de mobilizar o eleitorado.
O único com carisma, capaz de mobilizar as massas, é o próprio Chávez, mas que não pode se candidatar infinitamente, como queria, porque foi derrotado no plebiscito de 2007. Para sustentar o seu regime, Chávez seguirá apelando para os programas populares, como a assistência médica dada por profissionais cubanos, e o esquema de moradias populares. Casas que ele gosta de entregar pessoalmente. Construções que envolvem, em alguns casos, empreiteiras exploradoras das classes baixas, que ele aproveita para descredenciar e fazer mais proselitismo político. Esses programas como tudo o mais na Venezuela tem sustentação com o dinheiro do petróleo. E o petróleo da Venezuela é alvo também de revelações do site WikiLeaks. Segundo documentos revelados, a estatal PDVSA estaria manipulando o preço do petróleo que extrai com o objetivo de melhorar estatísticas oficiais. A empresa teria apresentado problemas na qualidade do produto vendido, o que teria desgostado alguns países compradores. Para minimizar as críticas e evitar a perda do cliente, a estatal venezuelana teria concedido vultosos descontos. O petróleo é a fonte que não pode secar. É praticamente a única receita do país, que não produz nada do que consome. Toda a comida é importada. É preciso considerar ainda que o parque industrial do país vem diminuindo constantemente, por dois motivos. Um, a freqüente falta de energia elétrica, decorrente do sucateamento da usina de Guri, que é praticamente a única que abastece o país. E outro, pelas estatizações que Chávez vem promovendo. O empresário que pode, deixa o país. E quem é investidor estrangeiro, evidentemente, que não é lá que ele irá colocar o seu dinheiro.
A Venezuela tem hoje a maior inflação da América Latina, com 27,5%. Terminou 2010 com uma retração em sua economia da ordem 1,9%. Ou seja, crescimento negativo, enquanto que a região cresceu numa média de 3%. Assim é que este quadro e mais o estado de saúde de Chávez irão estabelecer se ele chegará a 2012 com fôlego para mais uma vitória ou se verá o seu modelo ser derrotado nas urnas.