(Artigo publicado na edição de domingo, 26/10/2008, do Correio do Povo)
Para qualquer país crescer 9% ao ano é um dado a ser comemorado. Na China, porém, é um número que apavora. Representa desaceleração da economia. O índice de 9% de crescimento é relativo ao último trimestre, entre julho e setembro, e representa a pior performance em cinco anos. No primeiro trimestre do ano, o PIB chinês cresceu 10,6%; no segundo, 10,1%, o que mostra a queda gradativa no crescimento.
A preocupação maior do governo chinês é com o desemprego. Estudo que acaba de ser divulgado pela Organização Internacional do Trabalho indica que a crise que se estabeleceu no mundo deverá gerar 20 milhões de desempregados. A projeção indica que o número de desempregados deverá aumentar de 190 milhões em 2007 para 210 milhões no final de 2009. E a China, que tem renda per cápita inferior à metade da renda brasileira, precisa criar entre 10 milhões e 15 milhões de empregos por ano para absorver o êxodo rural.
A essa situação, soma-se o problema crescente que enfrenta a indústria de brinquedos da China. Por pressões de grandes redes americanas, a indústria chinesa trabalha no limite de preços, para não perder o comprador. Os preços praticados, no entanto, já estavam fora da realidade e se tornaram deficitários em função dos custos maiores de produção, aumentos salariais e valorização do yuan. Em função disto, a agência oficial de notícias Xinhua informou esta semana que 3.631 exportadores de brinquedos fecharam as portas em 2008. Isto significa 52,7% das empresas do setor.
Ironicamente, mesmo com a sua economia decrescendo, a China deve se tornar a terceira economia do mundo no final deste ano. Como os outros países também estão decrescendo, a China deve ultrapassar a Alemanha – que está em recessão. Ficará atrás apenas de EUA e Japão. No entanto, o dado que seria para comemorar não trás entusiasmo nenhum, em função do quadro interno.
O desafio da China é crescer para dentro. Até agora o país tem sido o grande fornecedor mundial. Seus produtos de preços baixos chegam a todas as partes do mundo. Os EUA, seu grande comprador, quer se transformar agora no seu grande fornecedor. Não será fácil. A China, é verdade, é um mercado de um bilhão e 300 milhões de consumidores. Mas não basta gente, é preciso ter renda. No entanto, com a China tudo é possível. Afinal, o país consegue conciliar um regime político comunista com um sistema econômico capitalista. E, mesmo em meio a um recuo de sua economia, consegue uma melhor posição no ranking mundial.