O vizinho Equador, que já teve três presidentes destituídos nos últimos dez anos, está mais uma vez com a sua política em ebulição. Na realidade, o que se tem é uma agudização da crise que se estabeleceu desde que o presidente Rafael Correa decidiu reformular a Constituição do país. Na extensão da crise, seis deputados fugiram para a Colômbia para não serem presos.
Tudo começou com a decisão do presidente de convocar um plebiscito para estabelecer uma mudança na Constituição, a qual, segundo os oposicionistas, seria nos moldes do que fez Hugo Chávez na Venezuela. Ou seja, para diminuir os poderes do Legislativo e do Judiciário e reforçando o poder do executivo. Cinqüenta e um deputados se recusaram a aprovar a convocação e acabaram sendo destituídos pelo Tribunal Supremo Eleitoral. Um ato arbitrário, evidentemente, tendo em vista que os parlamentares foram eleitos por voto popular e foram impedidos de exercerem suas atividades.
Para tentar reconstituir a ordem legal, o Tribunal Constitucional determinou a restituição dos cargos dos deputados. Para surpresa geral e em consonância com o presidente Correa, o Congresso equatoriano destituiu nesta terça-feira o Tribunal Constitucional. Horas antes da votação, o presidente Correa havia determinado um cerco ao prédio do Congresso para impedir o acesso dos 51 deputados restituídos pelo Tribunal Constitucional.
Impedidos de entrar no Congresso, 30 deputados fizeram uma sessão simbólica em um hotel de Quito, exigindo respeito à decisão do TC. Aí veio a ordem de prisão, sob acusação de estarem perturbando o trabalho do Congresso. E na seqüência, a fuga. Alguns para a Colômbia. A informação inicial era de que haviam pedido asilo, o que complicaria ainda mais as relações entre os dois países, já bastante abaladas, tendo em vistas as posições políticas antagônicas dos dois presidentes. Enquanto Correa é um parceiro das idéias de Hugo Chávez, Álvaro Uribe, da Colômbia, é o maior aliado de George Bush na região.
Os dois países já vivem um período de crise diplomática por causa da fronteira conturbada. Em função da ação das guerrilhas das FARC – Forças Armadas Revolucionárias Colombianas, cerca de 250 mil colombianos cruzaram a fronteira e foram busca refúgio no Equador. Para tentar resolver o problema desses refugiados, o presidente Correa lançou o Plano Equador. Um contraponto ao Plano Colômbia, financiado pelos EUA, para combate aosnarcotráfico e aos grupos armados ilegais. Dentre as ações decorrentes dessa plano está a pulverização das plantações de coca. E o Equador afirma que sofre o impacto negativo dessas medidas, como prejuízos às plantações na fronteira e a questão dos refugiados.
Correa negou que o seu plano envolva a militarização da política externa. Todavia, em função desse conflito e de toda a polêmica interna estabelecida com a destituição dos deputados e do Tribunal Constitucional, a OEA – Organização dos Estados Americanos, está avaliando a possibilidade de enviar observadores para verificar as condições políticas do país.
Com tudo que está acontecendo, no entanto, o prestígio do presidente Rafael Correa segue em alta. Na quarta-feira, centésimo dia de seu governo, chegou a 76%. Indicativo de que ele tem o respaldo para vencer a batalha que trava com os deputados depostos. E de que não será mais um presidente a engrossar a lista dos destituídos.