Depois da fragorosa derrota para os ruralistas, o governo de Cristina Kirchner tenta se reestruturar. É lógico que rolaram cabeças, como do ministro da Agricultura Javier Urquiza e do secretário de governo Alberto Fernandés. Aliás, ao deixar o cargo, Fernandés emitiu uma frase contundente: “não tem sentido seguir em um lugar no qual era difícil sustentar o que se pensa”. Ou seja, o secretário não tinha autonomia para trabalhar, tinha que executar o que pensam os Kirchner. E foi o que eles pensam que levou o país à atual crise. Eles tiveram umas quatro ou cinco oportunidades de fazer um acerto com os produtores rurais e desperdiçaram. Desperdiçaram porque Kircher queria dobrar o setor rural. Acabou dobrado. Agora, são necessárias as mudanças
Como secretário de governo assumiu Sérgio Massa, que era prefeito de Tigre, na periferia de Buenos Aires. Caberá ao jovem dirigente, de 36 anos, fazer o que seu antecessor deixou de por em prática. Ou seja, dizer a verdade para o casal Kirchner. Mostrar a eles os erros que cometeram. Se não fizer isto, terá o mesmo destino de Fernandés.
Para a Agricultura está praticamente certo o nome de Carlos Cheppi, que é presidente do Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária e que tem amplo trânsito entre os ruralistas. Cheppi já teria apresentado a Cristina um plano para elevar a produção de grãso do país de 95 milhões de toneladas para 148 milhões no período 2008-2015. O plano baseia as perspectivas de crescimento em uma nova política agrícola de estímulo ao aumento da produtividade, uso mais amplo da tecnologia, maior racionalidade no uso da terra e da água, e aplicação de fortes investimentos em infra-estrutura.
Este plano de Cheppi não foi feito agora, já existia há bastante tempo. No entanto, o governo só o adota depois de ter batido de frente com o setor rural durante quatro meses, procurando simplesmente taxar a produção, e depois de ter levado uma contundente derrota no Senado. Tudo porque o senhor Kirchnerr, não a senhora, o senhor Néstor Kirchner, queria dobrar o setor rural, buscando uma vitória política. Acabou levando o governo de sua mulher a uma humilhante derrota. E agora é ela quem tem que dar a volta por cima. Algo muito difícil para quem tinha 58% de aprovação no início do ano e agora tem apenas 20%.
Além do enfrentamento com o campo, um outro fator colaborou para o afundamento político dos Kirchner: a inflação. A alta da inflação gerou 420 mil pobres e 335 mil indigentes na Argentina durante os últimos seis meses, de acordo com levantamento da Sel Consultores – Sociedade de Estudos Trabalhistas. De acordo com o estudo, a pobreza afeta hoje 31,6% da população e a indigência, 10,8%. Ernesto Kritz, diretor do instituto e economista, afirmou que o aumento da exclusão social passou a ser evidente desde o ano passado, pela primeira vez desde a crise de 2001, e tem se agravado aceleradamente. “O aumento da inflação está devolvendo para o nível de pobreza pessoas que tinham saído desta situação durante estes últimos anos de crescimento econômico”, disse Kritz, especializado em economia trabalhista e social.
Até agora, o governo não teve nenhuma ação efetiva para combater a inflação, a não a manipulação dos índices. E é sob este cenário que Cristina terá que continuar governando.