(Artigo publicado no Correio do Povo, de domingo, 06 de abril)
Cuba deu dois passos importantes esta semana de ruptura com normas retrógradas do regime comunista. Uma das decisões do governo de Raúl Castro foi acabar com o chamado “apartheid turístico”, ou seja o veto que havia aos cubanos para se hospedarem em hotéis do país ou alugar carros. A outra medida, foi a liberação do uso do celular pelos cubanos em geral.
A restrição hoteleira fora adota 1993, no chamado Período Especial, quando da crise pós-colapso da ex-União Soviética. Havia pouca disponibilidade hoteleira e o país precisava atrair divisas. O setor hoteleiro acabou se tornou o responsável pela sustentação da economia cubana na década de 90, depois que faliu a União Soviética e acabou a ajuda econômica que Cuba recebia de Moscou. Grandes redes hoteleiras da Espanha e da França se estabeleceram no centro histórico de Havana, nas praias de Varadero e em pequenas ilhas turísticas como Cayo Largo. Esse setor gera mais de 2 bilhões de dólares em ingressos para o país. No próximo dia 14, começará a venda de celulares a cubanos, o que também era restrito até sexta-feira da semana passada. Nesta terça-feira, as lojas cubanas começaram a vender computadores e DVDs, além de bicicletas elétricas.
É preciso destacar que a oferta desses produtos não significa que eles se tornam acessíveis aos cubanos. Não se pode esquecer que o salário médio no país é de 15 dólares. Quem ganha mais, como um médico ou um professor universitário no topo da carreira, chega a 30 dólares. Um telefone celular será vendido por 120 dólares, o que é muito difícil para o cubano pagar, mesmo em um longo financiamento, com parcelas mensais.
Há porém, uma camada que ganha mais em função do turismo. Quando estive em Varadero, um ano atrás, encontrei um engenheiro trabalhando de garçon. Ele me explicou que o salário do garçon e o do engenheiro é o mesmo: 15 dólares. Ele trabalhando como engenheiro só ganha esse valor. Porém, como garçon tem oportunidade de ganhar muito mais com a gorgeta. Basta ver o seguinte: se ganhar um dólar por dia – e ganha-se muito mais – estará faturando 30 dólares por mês, o dobro do salário.
Então, este pessoal que trabalha com o turismo e que já representa 60% da população, é que terá oportunidade de comprar os equipamentos que passaram a ser colocados à venda. Equipamentos colocados à venda em pesos conversíveis, a moeda que é usada para o turismo. O dólar é proibido. A nova moeda é cotada acima do dólar. Você precisa de um dólar e 10 cents para comprar um peso conversível. No entanto, os cubanos recebem seus salários em pesos comuns, que valem 24 vezes menos. Ou seja, não compra nada. Assim, só quem ganha pesos conversíveis é que tem poder de compra.
A dedução disso tudo, é de que a abertura ao turismo ajudou a melhorar substancialmente o poder aquisitivo da população. E, diante disto, Raúl Castro deverá providenciar a abertura de outros setores da economia. Basta ver as medidas liberalizantes que está tomando. Ou seja, Cuba vai fazer como a China: seguirá com governo de partido único, mas com economia em gradativa abertura ao mercado.