Vim esta semana para San Francisco, na Califórnia, para cumprir os dois objetivos que costumo estabelecer quando viajo: observar a situação política e econômica do país visitado e desenvolver um roteiro turístico. Ou seja, unir o útil ao agradável. Pois cheguei aos Estados Unidos em meio a uma desesperada batalha do presidente Barack Obama para evitar que o seu país se torne mais um caloteiro internacional. Ocorre que no dia 2 de agosto o país atinge o limite do seu endividamento: US$ 14,3 trilhões. Como vem operando em déficit, se Obama seguir cumprindo os compromissos com os credores vai estourar este limite. Assim, para que o país não aplique o calote, Obama quer que o Congresso simplesmente aumente este limite da dívida. O que não está conseguindo.
Constantes reuniões têm sido realizadas ao longo dos últimos dias terminando sempre sem acordo. Os republicanos querem que Obama corte gastos do governo. O que parece sensato, no entanto, citam como exemplo de corte os programas assistenciais da área da saúde criados por Obama. Não falam, por exemplo, em corte nos gastos militares com as guerras do Iraque e do Afeganistão, as quais já consumiram US$ 1 trilhão ao longo de 10 anos.
Ao mesmo tempo, acabam de ser divulgadas novas estatísticas sobre o desemprego e, para desgosto de Obama, mostram que este cresceu. A expectativa era de serem gerados 90 mil empregos em junho, mas foram criados apenas 18 mil. O Departamento do Trabalho também teve que corrigir os índices de abril e maio e, com isto, o nível do desemprego subiu novamente para 9,2%. Um número desesperador para quem quer se reeleger presidente da república, que vem se somar a ameaça feita pela agência de classificação de risco Moody´s de rebaixar a nota dos Estados Unidos.
Já com relação ao Brasil, os EUA devem ter uma autoridade de primeiro escalão para tratar especificamente com opaís, ao invés de ter, como é hoje, uma para tratar com toda a América Latina. O tamanho do Brasil e o seu crescente posicionamento no cenário internacional requerem este tratamento diferenciado por parte do governo americano. Esta é a conclusão de um estudo feito pelo conceituado Council of Foreign Relations. O influente centro de estudos lançou nesta semana um relatório sobre o Brasil no qual recomenda ao governo americano estreitar os laços com o país, tornando as relações mais institucionalizadas e menos informais. E o mais significativo é a distinção que o organismo dá ao Brasil com relação aos seus parceiros latino-americanos. Atualmente, os assuntos regionais são tratados pelo Birô para Hemisfério Ocidental, um órgão do Departamento de Estado, que hoje é comandado por Arturo Valenzuela. Como o mesmo está por deixar o cargo, o Conselho sugere ao governo Obama que aproveite a oportunidade para promover uma mudança no organismo, dando este tratamento diferenciado ao Brasil.
OLHAR SOBRE A BAÍA
Apesar de suas contradições este país segue maravilhoso no aspecto turístico. San Francisco segue sendo a cidade americana mais charmosa. Neste período de verão, mas de temperatura que varia de 11 a 18 graus, a cidade está repleta de turistas de todas as partes. Pontos altos de visitação, a eterna ponte Golden Gate, com o espetáculo de sua iluminação pelo sol quando o astro rei se põe por detrás dela no Pacífico. A marina e o mercado na baía, com destaque para o Pier 39, com seus cafés, restaurantes, museus e lojas de souvenires. Já no centro da cidade tem a Union Square, com suas ruas tomadas por lojas de grife e por cantores e instrumentistas de jazz em busca de algum dólar dos turistas. Não esquecendo, logicamente, o “cable car”, o velho bonde que cruza de um lado para o outro a cidade, subindo e descendo as ladeiras, cruzando pelas casas geminadas de madeira, de três pisos, e de uma arquitetura toda particular, que também caracteriza a cidade. Que saudade me deu da velha Porto Alegre ao ver passar aqueles bondes cheios de gente. E dizer que acabamos com um dos transportes mais eficientes que tínhamos em nossa cidade.
Mas a esperança é de que o nosso Cais Mauá saia do papel e venha a ser um pouco do que é este Pier 39. Aqui se pode sentir a transformação que se pode proceder numa devoluta área portuária, com a utilização de seu espaço para o lazer e o entretenimento. Recupera-se o que era degradado, dá-se vida para o ambiente e, o principal, se oferece um novo espaço para o cidadão e se atrai o turista, incrementando os negócios e, por extensão, o bem estar da população local. Tomara que o nosso cais um dia venha se transformar num Pier 39, que, diga-se de passagem, é menos sofisticado do que Puerto Madero, de Buenos Aires, porém, tem mais agito.
CENTRO DE EXCELÊNCIA
A cerca de 40 quilômetros ao sul de San Francisco está Palo Alto, onde situa-se a Universidade Stanford, uma das cinco maiores do país e um dos sustentáculos da criação do famoso Vale do Silício, com a formação de cérebros específicos para sustentar esse centro de desenvolvimento de tecnologia, situado ali perto, em San José. Mas Stanford é uma universidade que impressiona, em primeiro lugar, pela extensão e beleza de seu campus. É, na prática, um grande e sofisticado bairro da cidade. Antes de se mergulhar no seu cérebro, a parte acadêmica e de pesquisa, se vislumbra um enorme parque esportivo, com dependências para quase todas as modalidades de esportes. Surpreendendo os cerca de dez campos de futebol, todos plenamente ocupados, com jovens se exercitando na prática do esporte que ganha cada vez mais adeptos no país, especialmente depois das conquistas mundiais da seleção americana feminina. Aliás, o jornal The New York Times publicou uma matéria na sua edição de terça-feira, indagando sobre o porque de o futebol feminino ir sempre tão bem nas competições internacionais, enquanto que o masculino não consegue deslanchar.
Mas, voltando às dependências de Stanford, você tem um choque ao chegar às ruas centrais do Campus e ver ali lojas como Georgio Armani, Victoria Secrets, Macy´s, Prada, Lacoste, Tiffany´s, etc. Ou seja, somente grifes de luxo. O que dá a idéia do poder aquisitivo do pessoal docente e discente que está ali e do que custa freqüentar essa universidade. Como toda grande universidade americana, Stanford faz uma criteriosa seleção para ingresso, e dos 19 mil, em média, que se inscrevem anualmente, somente cerca de 13% são aceitos.
Como é uma grande formadora de cérebros, a universidade tem uma grande interação com as empresas. Essas apóiam projetos de pesquisas, colhendo depois o fruto das mesmas, porém, retribuindo para a universidade e para o pesquisador o valor correspondente ao investimento. Algo que agora está-se começando a desenvolver em algumas universidades brasileiras, com destaque para a nossa PUC aí em Porto Alegre. E este é o caminho.
E tomando o caminho de volta para San Francisco, cabe dizer que esta é a cidade da diversidade, dos artistas, da tolerância dos costumes, da atividade noturna e do antimilitarismo, tanto que foram fechadas quase todas as guarnições militares da cidade, só restando a Base Aérea de Travis. É uma cidade diferenciada nos Estados Unidos. Não é sem razão que Richard Adler e Jerry Ross tiveram a inspiração para compor “I left my heart in San Francisco”, porque aqui se deixa mesmo o coração.
O velho bonde é atração e ótima alternativa de transporte