Logo que assumiu o seu atual governo, Donald Trump, se arvorando dono do mundo, disse que queria tomar a Groenlândia como território dos Estados Unidos. E alegava dois fatores: segurança e recursos minerais. Falava como se a maior ilha do mundo fosse uma terra devoluta, sem povo e sem dono.
Nesta semana, o americano foi mais longe, tendo nomeado o governador da Louisiana, Jeff Landry, como seu enviado especial para a Groenlândia com o objetivo de discutir a anexação do território aos Estados Unidos. Ele é um defensor da ideia de a Groenlândia se tornar parte dos EUA, A medida gerou forte reação diplomática da Dinamarca. No dia seguinte (22), o governo dinamarquês convocou o embaixador americano em Copenhague para pedir esclarecimentos.
REAÇÃO
Esta situação revela a total desconsideração que Trump tem para com outros países, mesmo que se trate de um aliado, como é o caso da Dinamarca. Esse país faz parte tanto da Otan, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, que é liderada pelos EUA, assim como da União Europeia. É um dos países que fazem parte das duas organizações, tendo sido membro fundador de ambas.
A Groenlândia, desde os primórdios, pertence à Dinamarca, porém, desde 2009, tornou-se autônoma. Tem amplos poderes sobre seus assuntos internos, incluindo governo parlamentarista próprio. Mas, a Dinamarca mantém a responsabilidade sobre política externa, segurança e moeda. A Rainha da Dinamarca segue sendo a chefe de Estado, sendo representada na ilha por um Alto Comissário.
INTERESSE
Até meados do século passado, a Groenlândia era vista apenas como uma grande ilha, coberta de gelo, e sem importância alguma. Localizada numa região isolada do planeta. Só que, com o advento dos navios quebra-gelo, a região do Ártico passou a ser rota de navegação, ganhando importância. E a importância da ilha cresceu quando se descobriram seus vastos recursos minerais, como terras raras e petróleo.
O fato de navios da Rússia e da China passarem a trafegar pela região aguçou a determinação americana quanto à ilha. O problema, no entanto, é a forma truculenta como está tratando o assunto. Tudo poderia ser feito através de uma negociação e não de uma grosseira intervenção, como está sendo feita.
BASE
E o fator principal que induz à uma negociação é o fato de os EUA já possuírem uma base militar na ilha. Trata-se da base de Pituffik, localizada no noroeste da ilha, a cerca de 1.200 km do Polo Norte. Mesmo que a maioria dos cidadãos americanos nunca tenha ouvido falar dela, é considerada um dos locais militares estrategicamente mais importantes do mundo.
“É literalmente o olho mais externo da defesa americana”, escreveu no X Peter Ernstved Rasmussen, um analista de defesa dinamarquês. “Pituffik é onde os EUA podem detectar um lançamento, calcular a trajetória e ativar seus sistemas de mísseis. É insubstituível,” concluiu. Cerca de 150 integrantes da Força Aérea e da Força Espacial americana estão permanentemente estacionados em Pituffik. Eles lidam com defesa de mísseis e vigilância espacial e o Radar de Alerta Antecipado Atualizado, que pode detectar mísseis balísticos em seus primeiros momentos de voo.
RAZÕES
Por tudo isto, existem razões de sobra para o governo americano ampliar o acordo que lhe possibilitou a instalação dessa importante base. Afinal, tudo fora feito de forma harmônica, com a assinatura do tratado assinado a 27 de abril de 1951, pelo então presidente dos EUA Harry Truman. Aliás, um exemplo que Trump deveria seguir.
Mas não é só Trump e o governador Landry que estão se prestando a este papel. A atual missão à Groenlândia também envolveu o vice-presidente J. D. Vance, a segunda dama Usha Vance, o conselheiro de Segurança Nacional, Mike Waltz e o secretário de Energia Chris Wrigth. Estes desembarcaram na base Pitufull, onde tiveram almoço com oficiais americanos.
Ou seja, todos referendaram o modo truculento de Trump agir. Criando um conflito com um importante país aliado, quando tudo poderia se resolver através da diplomacia. Mas, esta, sabidamente, não é a forma Trump de agir. Ele se consagrou no mercado imobiliário, ficou bilionário com o seu estilo de chegar metendo o pé na porta. Só que este não é o método para a diplomacia.