06/09/09
Israel e o processo de paz
Jurandir Soares, de Jerusalém
Concluo hoje duas semanas de visita a Israel com passagem pela Jordânia. Período que me permitiu extrair muitas observações sobre as relações regionais. Percorri Israel de ponta a ponta, desde a fronteira com o Líbano e a Síria, no Norte, até os limites com Jordânia, Arábia Saudita e Egito, no Sul. Trata-se de um país com uma diversidade cultural muito grande e que tem no seu centro Jerusalém, uma cidade que é o símbolo dessa diversidade cultural e, ao mesmo tempo, das divergências que essa diversidade proporciona. Divergências que não se dão apenas entre árabes e judeus. Mas também entre árabes e entre judeus. Quem sabe, até mais entre os próprios judeus, porque há diferenças profundas de comportamento e de posicionamento entre os judeus ortodoxos e os chamados judeus laicos.
Deu para ver que este é um país que, se não está em guerra, está em estado de alerta. Seus soldados circulam fortemente armados pelas cidades. Mesmo quem não está em serviço, estando apenas passeando, a paisana, com a família. Insisto em falar no choque que é ver uma menina de 18 anos circular por um shopping center fardada e com um fuzil de repetição a tiracolo. Mas, ao mesmo tempo, se percebe que os atos de terror estão mais distantes. Se percebe que na Cisjordânia já há o embrião de um Estado palestino. Já estão preparados para isto. Há ainda um problema grande que são os radicais do Hamas, que estão da Faixa de Gaza. Mas estão política e geograficamente isolados. E o principal é a constatação de que aqueles dois países árabes – Egito e Jordânia – que fizerram a paz com Israel, só tiveram a lucrar.
Visitei Eilat, a cidade que foi palco do histórico acordo de paz, firmado por Israel e Jordânia, em 1994. Ali assinaram o documento o primeiro-ministro Yitzhak Rabin, o rei Hussein e presidente americano Bill Clinton, que foi o mediador. As fotos do histórico encontro estão estampadas no posto israelense da fronteira entre os dois países. E o ponto de passagem, pelo lado de Israel, ganhou o nome de Rabin. O acordo mudou o rumo dos dois países. Foi firmado um ano depois de outro tratado histórico, que foi o de Israel com a Autoridade Nacional Palestina. Israel e Jordânia, além de estabelecerem uma tranquilidade em sua tensa fronteira, impulsionaram um processo de cooperação, que deveria servir de exemplo para os demais países da região. Cooperação que se dá no comércio, no fornecimento de água e no turismo. A famosa indústria sem chaminé, que é a que mais cresce no mundo, estabeleceu o seu traçado pelos dois países, proporcionando a ambos altos rendimentos. Quanto ao acordo firmado um ano antes com os palestinos, teve grande impulso até o final dos anos 2000, com a conquista de autonomia por muitas cidades palestinos. Mas parou depois que Clinton saiu do poder. Hoje há em Jerusalém até um muro separando os palestinos dos israelenses, numa mostra de como está empacado o processo. Porém, mesmo assim, nos corações e mentes da maioria das pessoas se percebe o sentimento de busca da paz.
05/09/09
Se eu fosse um terrorista…
Na quarta-feira, visitei Petra, uma das “sete maravilhas da humanidade”. Algo indescritível esta cidade que os nabateus esculpiram na rocha, ao tempo de Cristo. Depois da visita, cruzei de volta a fronteira da Jordânia para Israel, mais especificamente, de Áqaba para Eilat. Duas cidades que estão frente à frente, dividindo as águas do Golfo de Áqaba, assim como também as correntes turísticas. Especialidade na qual a cidade israelense já tem grande experiência, enquanto que a jordaniana está se aprimorando. O desafio, no entanto, dos dois lados fronteira é o abastecimento de água. E neste ponto os israelenses são os responsáveis por ambos os lados. E a água usada é a do mar. As áridas montanhas que cercam os golfo não possuem água doce. Então, os israelenses extraem o líquido do mar, promovem a dessanilização e oferecem ao consumo uma água pura como a mineral. Mas, evidentemente, a preço de outro, porque o processo ainda é muito caro.
Nesta quinta-feira, deixei Eilat de volta a Jerusalém. Quatro horas em ônibus confortável. Meu lugar no ônibus, lotado, era no penúltimo banco. No último, bem ao meio, estava posta uma menina destas que muito me chamaram a atenção no país, ou seja, que está prestando o serviço militar, portanto fardada, e que circula com uma fuzil de repetição, tipo metralhadora, de fabricação israelense. Perguntei o nome dela e se podia tirar uma foto dela com a arma. A resposta dela foi “sim”, com um delicado sorriso no rosto. Chamava-me a atenção o contraste entre a inocência e a pureza de uma menina nos seus 18 anos de idade e o porte daquela arma tão letal, usada para guerra. Mas esta é a realidade de Israel. Um país que tem que estar em permanente estado de alerta. Para minha surpresa, quando ônibus embalou na estrada para seu longo percurso, a menina-soldado, por certo exausta do treinamento militar, deitou-se no chão do corredor, estendeu o fuzil do meu lado, e dormiu. Se eu fosse um terrorista estava ali a barbada. Era só pegar a arma e fazer o estrago.
04/09/09
Eilat é a cidade que foi palco do histórico acordo de paz, firmado por Israel e Jordânia, em 1994. Ali assinaram o documento o primeiro-ministro Yitzhak Rabin, o rei Hussein e presidente americano Bill Clinton, que foi o mediador. As fotos do histórico encontro estão estampadas no posto israelense da fronteira entre os dois países. E o ponto de passagem, pelo lado de Israel, ganhou o nome de Rabin. O acordo mudou o rumo dos dois países. Foi firmado um ano depois de outro tratado histórico, que foi o de Israel com a Autoridade Nacional Palestina. Israel e Jordânia, além de estabelecerem uma tranquilidade em sua tensa fronteira, impulsionaram um processo de cooperação, que deveria servir de exemplo para os demais países da região. Cooperação que se dá no comércio, no fornecimento de água e no turismo. A famosa indústria sem chaminé, que é a que mais cresce no mundo, estabeleceu o seu traçado pelos dois países, proporcionando a ambos altos rendimentos.
Quanto ao acordo firmado um ano antes com os palestinos, teve grande impulso até o final dos anos 2000, com a conquista de autonomia por muitas cidades palestinos. Mas parou depois que Clinton saiu do poder. Hoje há em Jerusalém até um muro separando os palestinos dos israelenses, numa mostra de como está empacado o processo.
INÍCIO DA COBERTURA
23/08/09
Estou seguindo hoje para Israel, onde permanecerei por duas semanas, mantendo contatos e fazendo observações, que serão abordados nos comentários que faço na Guaiba AM e na FM, assim como no Correio do Povo. Esta viagem a Israel, que terá uma passagem também pela Jordânia, faz parte de meu projeto profissional de acompanhamento das questões do Oriente Médio, especialmente, o conflito entre israelenses e palestinos. Em outra etapa dessa missão, já passei pela Arábia Saudita e seus vizinhos do Golfo Pérsico. O que, entre outros trabalhos, resultou no livro “Israel x Palestina – as raízes do ódio”, que está em sua terceira edição. Os dados levantados servirão para a atualização do livro em sua próxima edição.
A chegada a Israel coincide com a retomada de ações com vistas ao reestabelecimento do diálogo, dentro da proposta formulada por EUA, ONU, UE e Rússia e que prevê o estabelecimento de dois Estados – Israel e Palestina, com fronteiras definidas e seguras. Aliás, o primeiro passo para a reabertura desse diálogo foi dado na semana passada pelo primeiro-ministro israelense Benyamin Netanyahú ao decidir atender o pedido do presidente Barack Obama de parar com os assentamentos judaicos na Cisjordânia.
Assim é que terei oportunidade de acompanhar esses acontecimentos in loco.
24/08/09
Falo a partir de hoje direto de Israel, onde cheguei nesta segunda-feira, estando presentemente em Tel Aviv. Viajei através do recém inaugurado vôo da empresa israelense El Al, ligando diretamente São Paulo e Tel Aviv, em um vôo de 14 horas de duração. A chegada ao check-in do Aeroporto de Guarulhos dava a impressão de que seria uma viagem com ocupação de menos de metade da aeronave. No entanto, ao verificar a lista de passageiros, constatei que o enorme Boeing 777 estava lotado. E aconfirmação disto se deu quando soube que este vôo tem conexão com a maior parte dos países da América do Sul. Assim, deu para constatar que, a partir deste recém criando vôo, seguem para Israel passageiros vindos da Argentina, Uruguai, chile, etc.
Se hoje as normas de segurança nos aeroportos já são rígidas, em se tratando da El Al esta rigidez aumenta significativamente. O staff de segurança tem o comando de um agente vindo de Israel, que atente em São Paulo, mas que sequer fala português ou espanhol. É o encarregado de controlar os demais agentes e de tomar as decisões quando estes tem dúvidas. O que parece ter sido o meu caso, pois o jovem que me atendia passou o meu caso para a decisão do chefe maior, o qual submeteu a mim e a minha mulher a um longo interrogatório. Mas, depois de saber que eu tinha marcada uma audiência com o prefeito de Jerusalém e minha mulher tinha palestra na Universidade Hebraica, deu a impressão que ele nos deu uma espécie de “aprovado com louvor”. Tanto que ao apresentarmos o passaporte na Imigração em Israel não nos fizeram qualquer questionamento. O mesmo não aconteceu com um casal de Barcelona que estava junto conosco e com um brasileiro. O casal, porque tinha no passaporte passagem pelo Iêmen e o brasileiro porque tem o sobrenome de Almeida. Embora a simplicidade deste nome de origem portuguesa, carrega na sua origem o “Al”, que tem a sua origem árabe. Todos, no entanto, depois de um questionamento, foram liberados e entraram junto conosco nesta Tel Aviv que, pela primeira impressão já deu para perceber que se trata de uma cidade moderna, à margem do Mediterrâneo, sobre a qual falarei amanhã.
26/08/09
Grande centro financeiro e de alta tecnologia, Tel Aviv pode ser considerada o lado moderno de Israel. A cidade, cujo nome quer dizer Colinas da Primavera em hebraico, está comemorando os seus 100 anos de fundação. Trata-se, portanto, de um contraste neste país de cidades milenares. Porém, ela é o resultado mais prático do movimento de imigração de judeus para a então Palestina sob mandato britânico, ocorrido a partir do início do século XX. Começaram a construí-la a partir do sul de Jaffa, junto ao litoral, justamente, para receber esses imigrantes.
Assim, Tel Aviv se tornou juntamente com Jerusalém e Haifa as três principais cidades de Israel. Seu diferencial está na modernidade. Ruas e avenidas amplas e prédios suntuosos, que proliferam cada dia mais. E um incremento que se deu especialmente nos últimos 20 anos. Nossa guia, Cláudia, uma argentina que está há 30 anos radicada em Israel, diz que olhar uma foto aérea de Tel Aviv hoje e outra de 20 anos atrás significa ver duas cidades diferentes. Diz ela que a rua Dizengof, que é o ponto central do comércio da cidade, naquela época só tinha um café. Hoje está repleta de cafés, bares, restaurantes e, logicamente, lojas. “A globalização fez Tel Aviv dar um giro de 180 graus”, assegura Claudia, apontando para as modernas construções que despontam a cada dia no cenário da cidade. Como surgiu no Sul, a partir de Jaffa, e se expandiu para o Norte, justamente, esta parte da cidade é hoje um grande canteiro de obras.
Ironicamente, esta cidade que foi criada para receber os imigrantes, viu um filho da terra, um judeu ortodoxo, matar ali, em pleno centro, uma das figuras mais marcantes da história de Israel, Yitzhak Rabin. Fato ocorrido a 4 de novembro de 1995, quando Rabin conduzia o processo de paz com os palestinos. Aliás, um tema que segue pendente neste país e sobre o qual vou falar mais adiante.
26/08/09
Tel Aviv é o ponto de entrada de Israel. O Aeroporto Internacional Ben Gurion está a 20 quilômetros de distância e a 40 quilômetros de Jerusalém, as duas cidades a que serve. E justamente para mostrar a quem chega o porque de os judeus terem decidido implantar o seu Estado naquelas terras, criaram em Tel Aviv o Museu da Diáspora. É um museu diferente dos convencionais. Não tem nada de original. Até as pedras que imitam as edificações dos tempos de Cristo, quando se deu a diáspora, são feitas de plástico. Assim como também o são as imagens de soldados romanos e judeus carregando o Menorá, o candelabro de sete braços, que se tornou o símbolo da resistência e da unificação dos judeus. O que importa é justamente isto, a mensagem que passa.
O museu conta toda a história do judaismo e de sua dispersão, que começou a se dar no ano 70 da era Cristã, com a derrota para os romanos, e vem até o século XX, com a reprodução de documentos como a Declaração Balfour, pela qual a Inglaterra se manifestava, em 1917, favorável ao estabelecimento de um lar judaico na Palestina. Ou seja, tem todos os fatores que levaram à formação do Estado de Israel. Por isto, tudo é explicado de forma bem didática no museu. Um Estado que uniu povos que vieram de lugares tão distintos como Iêmen, Etiópia, Polônia ou Rússia. E que, portanto, falavam os mais diversos idiomas. Coube ao linguista Eliezer Ben-Yehuda a iniciata de convencer a todos de que o melhor para o novo país seria adotar o hebraico, a língua dos tempos bíblicos, como idioma oficial. Não é sem razão que hoje uma das principais avenidas de Tel Aviv tem o seu nome. E não é sem razão também a força que é feita através do Museu da Diáspora para justificar a reunificação desse povo em terras que ainda hoje são reivindicadas pelos palestinos.
27/08/09
História e rodovias de primeiro mundo
Nesta quarta-feira deixei Tel Aviv em direção ao Norte, para ir até o Kibbutz de Hagoshrim, situado a 8 quilômetros da fronteira com o Líbano. A saída de Tel Aviv é por uma auto-pista, com quatro faixas de rolamento e mais o acostamente de cada lado. Ou seja, estrada de primeiro mundo e sem pedágio. Na saída passa-se por Herzliyya, cidade que homenageia Theodor Herzl, o fundador do Sionismo, ou seja, do movimento que pregava o retorno dos judeus para o entorno do Monte Sion, situado em Jerusalém. Logo que foi criada, era uma cidade dormitório. Hoje, é uma cidade Hi-tec. Ali se estabeleceram grandes empresas da área de tecnologia da informação. Anda-se cerca de 20 quilômetros e já se encontra Nethanya, fundada por judeus belgas e dedicada à produção de diamantes. Mais 25 quilômetros e um patriomônio da humanidade: Caesarea, ruínas da cidade fundada por Herodes no início da era cristã e que foi um importante porto, ligando o Ocidente e o Oriente. Ali ainda estão os restos do hipódromo para corrida de bigas, da piscina natural em meio às rochas do mar e o todo restaurado teatro romano. Num contraste profundo, a poucos metros de distância estão as torres da usina, movida a carvão, que abastece de energia o país. Outros 40 quilômetros (tudo é perto) e chega-se a Haifa, principal porto do país. A cidade se debruça sobre o mar a partir do Monte Carmel, onde estão o Convento das Convento das Carmelitas e o Centro Mundial da Fé Baha´í, com seus jardins de fazer inveja a Versalhes. Ruma-se para o Leste, em direção a Nazareth e encontra-se a primeira estrada de uma só pista com dois sentidos, porém, ladeada de grandes obras de duplicação. Em Nazareth, o ponto alto é a Igreja da Anunciação, que guarda no seu interior as edificações do eram a casa de Maria e a carpintaria de José. Dali, para o kibbutz, tudo num dia muito profícuo.
27/08/09
As questões envolvendo israelenses e palestinos seguem pontificando em Israel. Agora, por exemplo, o primeiro-ministro Benyamin Netanyahu se encontra em viagem à Europa, discutindo com líderes europeus e com o representante dos EUA, as diversas propostas de paz que vem sendo apresentadas. E dentro o que está sendo apresentado, Netanyahu acena com a possibilidade de suspender os assentamentos judaicos na Cisjordânia, ou seja, em terras palestinas. Mas não quer nem saber de discutir a soberania sobre Israel. Ele volta a invocar um velho slogan, o qual diz que Jerusalém é a capital indivisível de Israel.
Outro fator de discussão e até de xenofobia diz respeito a uma matéria publicada por um jornal da Suécia, chamado “Aftonbladet”. A matéria envolve o caso do palestino Bilal Ahmed Grahem, morto por soldados da IDF (Força de Defesa de Israel, na sigla em inglês) durante a Intifada de 1992, aos 19 anos de idade. Diz a matéria que os israelenses teriam extraído órgãos do rapaz morto. O fato gerou uma fúria em Israel e acusações de antisemitismo. Na segunda-feira, manifestantes cercaram a embaixada da Suécia, em Tel Aviv, exigindo que o governo sueco condenasse a matéria. Como na Suécia a imprensa é livre, não houve qualquer ingerência do governo. O que serviu para aumentar o protesto em Israel.
28/08/09
A estada no kibbutz de Hagoshim, situado em Qiriat Shmona, no extremo norte de Israel, me proporcionou duas experiências interessantes. Uma delas, conhecer o funcionamento de uma dessas cooperativas que se tornaram uma instituição identificada com a história do Estado de Israel. Outra, sentir o que deve ter sido o pavor que passaram os habitantes de Qiriat Shmona, três anos atrás, quando se tornaram alvo dos foguetes do Hezbollah, lançados a partir do Sul do Líbano, que está a apenas 8 quilômetros de distância. Não é sem razão que hoje o exército israelense mantém uma forte patrulha na área. Quanto ao kibbutz, além de se dedicar à plantação de maças, tâmaras, romãs e outras frutas, foi o responsável pelo desenvolvimento e pela patente do depilador feminino Epilady. O que mostra o avançado grau de tecnologia ali desenvolvido. E para tornar mais conhecido o trabalho ali desenvolvido e, também, para tocar mais um negócio, os sócios do kibbutz resolveram criar um hotel, em meio a um bosque, com direito a córrego, pássaros, etc. Outro sucesso. Bem encostado dali estão as Colinas de Golan, tomadas à Síria na guerra de 1967 e que constituem outro fator de discussão no país, sobre entregar ou não em troca da paz com os sírios.
Deixando o kibbutz, um roteiro bíblico. Passa-se pelo Mar da Galiléia à margem do qual Jesus fez o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes. Também é conhecido como Lago Tiberíades, o que é mais correto, pois sua água é doce e é dali que se abastece todo esse país, onde a água é um produto raro e caro. Sobe-se o monte e outro nome bíblico, Cafarnaum, com ruínas de uma mesquita e outras edificações de mais de 1500 anos, e o que teria sido a casa do apóstolo Pedro. Desce-se a montanha e chega-se ao rio Jordão, onde foi montado um local específico para os fiéis que a cada dia vem de alguma parte do mundo, para participar de um ritual semelhante ao batismo de Jesus por João Batista. Segue-se ladeando a fronteira com a Jordânia, passa-se por Jericó, mas sem ouvir o som das trombetas nem ver as muralhas e chega-se ao Mar Morto, 400 metros abaixo do nível do mar. Percorrendo mais 30 quilômetros, sobe-se 1200 metros até Jerusalém, o berço das três religiões monoteístas.
29/08/09
Política, religião e negócios em Jerusalém
Ao chegar à cidade antiga de Jerusalém na manhã desta sexta-feira deparei-me com um enorme contingente de muçulmanos, homens e mulheres, se dirigindo para a mesquita da Al Aqsa. Aí que dei-me conta de que era o início do Ramadã, o mês sagrado para os muçulmanos. O Ramadã é o nono mês do calendário islâmico. É o mês durante o qual os muçulmanos praticam o seu jejum ritual. É o quarto dos cinco pilares do Islã. Neste período, é um tempo de renovação da fé, da prática mais intensa da caridade, e vivência profunda da fraternidade e dos valores da vida familiar. Neste período pede-se ao crente maior proximidade dos valores sagrados, leitura mais assídua do Alcorão, freqüência à mesquita, correção pessoal e autodomínio. Daí toda a movimentação a essa mesquita, também conhecida como o Domo da Rocha, que é um referencial na paisagem de Jerusalém. E que na loucura que é a mistura das religiões nesta cidade, situa-se a menos de 100 metros do Muro das Lamentações, o grande ponto de convergência de judeus do mundo inteiro. E dando-se mais alguns passos adiante, chega-se à Igreja do Santo Sepulcro, um marco para os cristãos.
Pelo lado de fora da muralha da cidade antiga multiplicam-se os ônibus que atendem às agências, conduzindo turistas de toda a parte do mundo. Turistas que vão se misturar ao emaranhado de judeus, muçulmanos e cristãos que circulam pelas ruas da cidade antiga, em meio os gritos dos comerciantes oferecendo seus produtos. Inquestionavelmente, entrar em Jerusalém signfica penetrar num mundo diferente, envolto pela magia dos aspectos históricos e religiosos ali presentes. Aspectos que, aqueles que não são radicais, aproveitam para fazer aquilo que historicamente esses povos souberam fazer: negócios.
31/08/09
Uma ida de Jerusalém a Belém, não dista mais do que 20 quilômetros e se poderia pensar que se está na mesma cidade não fosse o enorme muro de concreto com guarita militar instalado no limite entre as mesmas. É a extensão do muro que Israel construiu, há pouco mais de dois anos, separando o seu território do território da Cisjordânia. Com isto, tem-se a impressão de que se está entrando em um outro país. O que até parece ser. Aqui já não se vê mais as inscrições em hebraico e em inglês, mas em árabe e inglês. Também já não se vê mais os soldados israelenses vestidos de verde, mas a polícia palestina vestida de azul patrulhando as ruas. O que reforça a idéia de outro país é o fato de termos que trocar de guia. Como seguíamos em grupo, em um ônibus de tour, nossa guia israelense nos deixou antes de chegarmos à divisa. E do outro lado, ou seja, em Belém, assumiu um guia palestino. Pensei que os palestinos não deixassem os iraelenses entrar, mas é isto. Israel proíbe seus cidadãos de entrarem em áreas palestinas para não ter que fazer uma ação militar de invasão em caso de acontecer qualquer coisa com esse seu cidadão.
Belém, como outras cidades importantes da Cisjordânia, como Jericó, Ramallah, Nablus, etc, goza de autonomia, em decorrência do Tratado de Oslo, assinado em 1993, por Yitzhak Rabin e Yasser Arafat. Estão sob o governo da Autoridade Nacional Palestina, do presidente Mahmoud Abbas, que controla as questões da economia, educação, saúde, etc. Na realidade, tem-se nesta área o embrião de um país. Que é justamente o que querem os palestinos da Cisjordânia. Conversei com um atendente de um loja, que brasileiro, filho de palestinos. Ele disse que a expectativa dos palestinos é de que o presidente Barack Obama torne viável a proposta de formação de dois Estados, Israel e Palestina, vivendo sob fronteiras definidas.
Aliás, as fronteiras já estão praticamente definidas pelo muro construído por Israel para separar-se dos palestinos. A propósito, para entrar em Belém não houve inspeção no ônibus que nos conduzia, porém, no retorno para Jerusalém, um soldado israelense entrou para fazer um conferência nos passaportes. Ou seja, para ver se não estava passando junto algum palestino sem autorização.
31/08/09
Uma visita a Belém vem comprovar a profunda divisão que há no Cristianismo e que eu já havia notado em Jerusalém, com o loteamento que foi feito entre facções cristãs na Igreja do Santo Sepulcro. Chegando-se para ver o lugar em que Jesus nasceu, depara-se com três espaços e três campanários, administrados por três Igrejas diferentes. A Igreja Grego Ortodóxa, a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodóxa Armênia dividem o cenário. Sendo que os espaços sagrados e históricos, da manjedoura e de onde teriam se postado os três reis magos, estão sob o controle dos grego ortodóxos. Através de grutas sob o altar chega-se a eles. No altar, enormes lustres de prata doados pela família do czar Nicolau II, da Rússia. Os armênios estão num espaço contíguo ao dos gregos, porém bem menor. Porém, grudado aos dois, está a Basílica da Natividade, construída no lugar de uma pequena igreja, em 1881. É dali que é rezada a Missa do Galo, a 24 de dezembro, em todo Natal. Natal católico, é preciso ressaltar, porque os gregos comemoram o Natal a 7 de janeiro e os armênios a 18 de janeiro. Como se observa, até nas datas as Igrejas cristãs divergem.
31/08/09
Choque entre religião e negócios
A bela praça situada entre a Porta de Jaffa, nas muralhas da cidade histórica de Jerusalém e o moderno shopping Mamila, foi tomada neste sábado por judeus ortodóxos. Vestidos com seus terno, casacão e chapéu preto, em meio a um sol que fazia a temperatura bater nos 33 graus, protestavam contra o que consideram a violação do Shabat, o sábado judaico. Acontece que sob a praça existe um prédio da garagens, administrado pela muncipalidade. Prédio que absorve centenas de carros e ônibus de turistas que diariamente circulam pela cidade. Mas que aos sábados fechava. Na semana que passou, no entanto, o prefeito de Jerusalém autorizou o funcionamento da garagem aos sábados. Ou seja, bateu de frente com os judeus ortodoxos. Estes, desde cedo, no sábado, foram se postando ao longo da praça, gritando “Shabat”. Segundo a polícia, que mobilizou um enorme contingente para a área, o protesto reuniu cerca de duas mil pessoas e extendeu-se ao longo do dia, mas sem incidentes.
O fato demonstra um problema que tende a crescer em Israel. O país foi criado como um Estado judaico. Com o tempo, foi se afastando dos rígidos preceitos religiosos para absorver judeus que não são ortodoxos e até não judeus, como os árabes e outros que tem cidadania israelense. Dentro do possível, os preceitos religiosos foram sendo preservados. Hoje, no entanto, o turismo é uma das maiores fontes de renda do país. E para atender esse turista que trás muito dinheiro, o país não pode parar aos sábados. Daí a medida do prefeito. E daí também o grito de protesto dos ortodoxos e um confronto que tende a aumentar.
01/09/09
Ao passear pelas ruelas da cidade antiga de Jerusalém na tarde desta segunda-feira, percebi que algumas lojas da parte árabe, por volta das 16h30min já estavam fechando suas portas, o que, evidentemente, parece muito cedo para quem quer fazer negócios. Mas não é cedo para está com muita fome e quer ir logo para casa, para poder fazer sua única refeição do dia, logo que aparecer a primeira estrela no céu. Tudo porque os árabes estão vivendo o mês do Ramadã, o mês de jejum para os muçulmanos. Então, é preciso apressar os em negócios ou até dispensar alguns, para poder se alimentar.
Por falar em negócios, estes se constituem numa atração à parte por quem circula por entre as múltiplas lojas de árabes, judeus, armênios, etc, que se aglomeram pelos quarteirões da cidade velha. Renée, uma amiga que mora em Jerusalém já havia me alertado para a questão dos negócios. Alguma coisa que te oferecem pelo valor de 300 sheqalim podes acabar levando por apenas 30. Basta barganhar e ameaçar ir embora, sem querer o produto, que o vendedor sai atrás, oferecendo maior desconto. Não deu outra, me ofereceram um narguilê por 80 sheqalim. Acabei trazendo dois pelo preço de um.
Apesar do aglomero, pode-se circular com segurança pela cidade antiga. Exército e polícia mantém uma presença ostensiva. Aliás, este é um aspecto diferenciado e que choca. Como homens e mulheres prestam serviço militar, vê-se meninas circulando pelas ruas portando metralhadora a tiracolo. Eu que tenho uma sobrinha de 18 anos, que está mais para uma menina do que para um adulto, fico imaginando-a com uma metralhadora e me parece algo surreal. Mas é a realidade de Israel em função das questões políticas, que vem desde a sua formação. O fato é que cada país tem as suas idiosincrasias. Sabemos muito bem nós brasileiros, que não temos a violência política, mas, em compensação temos a violência civil.
02/09/09
Assentamentos é política de governo
Um dos entraves para uma retomada nas negociações entre israelenses e palestinos é a instação de assentamentos judaicos em áreas da Cisjordânia, especialmente, em Jerusalém Oriental, que é a parte árabe da cidade. Inclusive, o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, deixou isto bem claro, em pronunciamento feito nesta segunda-feira. No dia seguinte, o prefeito em exercício de Jerusalém, José Alalo, me concedeu entrevista e perguntei a ele sobre a posição da prefeitura sobre o tema. Ele me disse que o programa de assentamentos é uma política nacional, ditada pelo governo e executada pelos ministérios da Habitação e do Desenvolvimento. Ou seja, a prefeitura pouco influência na questão.
José Alalo, ou Pepe, como gosta de ser chamado, disse ser contrário aos assentamentos, porque é a favor da entrega de Jerusalém Oriental aos palestinos, para que façam ali a capital do seu Estado. Este peruano, que está radicado em Israel desde 1967, quando para lá foi para participar da Guerra dos Seis Dias, tem uma visão muito aberta sobre a questão palestina, que se opõe a dos atuais integrantes do governo central. Ele defende a existência de dois estados, com a Palestina tendo as fronteiras pré-1967, “com algumas correções e a devida compensação aos palestinos”. O pensamento de Pepe é o mesmo de seu partido, o Meritz, de extrema esquerda, minoritário no Parlamento. Ou seja, um pensamento que ressoa forte no exterior, pois é o mesmo do “Quarteto da Paz” – EUA, União Européia, Rússia e ONU, mas não está ecoanda entre os integrantes do governo.
02/09/09
No mesmo momento em que o ex-primeiro-ministro Ehud Olmert está sendo indiciado aqui em Israel por corrupção, dois ex-ministros estão indo para a cadeia. Um deles é o ex-ministro das Finanças,Abraham Hirchson. Ele foi condenado a cinco anos e cinco meses de prisão, pelo desvio de 1,8 milhão de shekel, quando era presidente da central dos trabalhadores. O outro, é o ex-ministro do Trabalho e da Assistência Social Shlomo Benizri. Foi condenado a quatro anos de prisão, pelo recebimento de propina.
E enquanto os dois ex-ministros tomam o rumo da cadeia, o ex-presidente do país Moshe Katzan começa a ser julgado pelas acusações de assédio sexual, praticadas enquanto estava no cargo, o que, logicamente, torna mais grave a acusação.
Os julgamentos e o fato de dois ex-ministros irem para a cadeia são vistos em Israel como uma depuração do sistema político, já que desvios de conduta são práticas comum em qualquer país, porém, condenar e por na cadeia os culpados são poucos países que fazem.
03/09/09
Jordânia, uma agradável surpresa
Nesta terça-feira tomei um ônibus em Jerusalém em direção a Eilat, a 307 quilômetros de distância, no extremo Sul do país. Na saída de Jerusalém passa-se pelo Mar Morto, onde, outro dia, eu havia vindo experimentar a sensação de ficar boiando na sua água densamente carregada de minerais. Segue-se mais alguns quilômetros e passa-se por outro lugar épico onde eu já visitara, a fortaleza de Masada. Segue-se ladeando o mar e, quando este termina há uma série de empresas que exploram os minerais dessas águas, que estão a cada dia mais rasas. Depois disto, cerca de 200 quilômetros, tendo a direita o deserto de Neguev e a esquerda a cadeia de montanhas de de Moab, na Jordânia. Depois de quatro horas, a chegada a Eilat, um moderna cidade à beira do Golfo de Áqaba, com hotéis e resorts de primeira linha e preços para todos os bolsos. Na quarta-feira, cruzei a fronteira com a Jordânia, entrando em Áqaba, que fica do outro lado do golfo, e conhecendo os projetos, já em execução, que estão apavorando os negociantes de Eilat. Em uma área maravilhosa junto ao mar, ergue-se um complexo de hotéis “de 10 estrelas”, como dizem em Eilat, com centro comercial, prédios de escritórios, etc. Construção moderníssima, mas no estilo das tendas árabes. Promete mesmo ser um grande empreendimento dessa bela cidade jordaniana, que é ligada a capital, Amã, por uma rodovia de pista dupla, com três faixas de rolamento de cada lado, ao longo dos seus 327 quilômetros. Usando a mesma tecnologia dos israelenses, os jordanianos irrigam as palmeiras, tamarareiras e os bouginvilles que embelezam a cidade. Graças ao acordo de paz firmado por Israel e Jordânia em 1994, pode-se passar de um lado para outro, sem problemas. Aproveitei para ir conhecer uma das sete maravilhas do mundo: a cidade de Petra.
03/09/09
Aproveitei a quarta-feira e facilidade de passasem entre as fronteiras de Israel e Jordânia, para ir conhecer aquela que, junto com o Cristo Redentor, é uma das “Sete Maravilhas da Humanidade”, a cidade sagrada de Petra. Moisés Sneider, um brasileiro que mora há 25 anos em Eilat, me providenciou o tour. Toma-se um micro-ônibus que nos apanha no hotel e nos leva até a fronteira com a Jordânia. Cruza-se a fronteira a pé e, do outro lado, toma-se outro micro, com condutor e guia jordaniano, que, em duas horas, por ótima estrada asfaltada, nos leva a Petra. A cidade é algo incrível. Foi esculpida sobre fendas de rochas resultantes de cataclismas ocorridos há aproximadamente 30 milhões de anos. O Vale de Rift é uma imensa fenda que se abre na terra e que se estende desde o Sul da Turquia até o deserto de Wabi Arabah. Na parte que hoje é território jordaniano, os nabateus construíram, entre os anos 100 A.C. e 100 D.C., esta cidade que se estende por quilômetros de distância. São moradias, templos aos deuses, sepulturas, escadarias, tudo esculpido na rocha. Algo inenarrável, que, assim como Machu Pichu, havia se perdido com o tempo. Foi redescoberta em 1812 pelo explorador suíço joahan Lidwig Burkhardt.
Um detalhe, esta cidade os romanos tentaram mas não puderam destruir. Simplesmente, porque ela não foi construída como as demais. Foi esculpida na pedra.