01/05/11
Cheguei a Israel na tarde deste domingo. Logo depois, no início da noite começavam as celebrações do dia do Memorial do Povo Judeu ou a cerimônia em que os judeus relembram o Holocausto. A celebração se estende até o final da tarde desta segunda-feira. Pela manhã, às 10 horas, tocará uma sirena e deverá parar tudo. Fábricas, lojas, escritórios, bares, restaurantes e carros que estejam circulando. É feito um minuto de silêncio para lembrar as vítimas. A propósito, estas vítimas podem ser lembradas também no Museu do Holocausto, em Jerusalém. É horripilante entrar ali. Mas é importante ter o episódio sempre presente, para que fato nesta natureza nunca mais aconteça.
O primeiro-ministro Benyamin Netanyahu fez neste domingo à noite um pronunciamento sobre a data. Disse que Israel tem que estar preparado para se defender de novos inimigos como o Irã e os seus aliados, como o Hezbollah e o Hamas. Ele relembrou o sofrimento do povo judeu e disse que o mesmo deve estar preparado para se defender diante de novas ameaças, para evitar que novas tragédias venham acontecer.
Conversei neste domingo com o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Israel-Brasil, Shmuel Yerushalmi, um brasileiro que vive há mais de 30 anos em Israel. Ele disse que os israelenses estão preocupados com os distúrbios que estão acontecendo no seu entorno. Especialmente, em países como Jordânia e Egito que possuem tratados de paz com Israel. Qualquer mudança que ocorrer pode gerar instabilidade no relacionamento desses países com Israel. E Israel, conforme salienta Yerushalmi, apenas acompanha os acontecimentos, sem ter qualquer ingerência.
DIÁRIO DO ORIENTE MÉDIO
Jurandir Soares – j.soares@cpovo.net
Segurança reforçada em Israel
Esta segunda-feira foi um dia excepcional em Israel. A população estava envolta nas celebrações do dia que lembra o Holocausto, quando recebeu a informação sobre a morte de Osama Bin Laden. Só em função desse dia comemorativo já houve uma mobilização especial para a segurança. Isto porque, às 10 horas desta segunda-feira, tocou uma sirene e tudo parou por um minuto. Fábricas, escritórios, bares, restaurantes e veículos que trafegavam. Todos pararam para reverenciar um dos mais tristes episódios da história. E as providências de segurança foram tomadas porque os israelenses lembram 1973, por ocasião do Dia do Perdão. Naquela ocasião, quando estavam recolhidos às suas sinagogas tiveram que enfrentar mais uma guerra com os árabes. Agora, com o anúncio de que forças dos EUA executaram o terrorista número um do mundo, as providências com segurança aumentaram ainda mais. Fui jantar num restaurante da orla de Tel Aviv, às margens do Mediterrâneo, e pude presenciar a movimentação constante dos aviões e helicópteros da Marinha patrulhando a costa. Uma movimentação constante, em todos os sentidos. Movimentação que se somou a uma série de outras ações por todo o país, para evitar qualquer possível ataque terrorista em retaliação à morte de Bin Laden.
Outra preocupação dos israelenses é com o acordo firmado entre os palestinos do Fatah e do Hamas para formarem um governo conjunto. Em artigo publicado no “The Jerusalem Post” desta segunda-feira, o colunista David Horovitz está criticando o presidente da Autoridade Nacional Palestina Mahmoud Abbas, dizendo que ele se entregou aos radicais do Hamas, o grupo que não aceita a existência de Israel. O que se depreende da decisão dos palestinos é que eles marcham para uma reunificação de seus grupos, sem entrar no detalhe do reconhecimento ou não de Israel. Numa resposta a Israel, que não está respeitando o acordo para por fim aos assentamentos judaicos nos territórios palestinos.
No que toca à questão palestino-israelense, conversei nesta segunda-feira com a embaixadora do Brasil em Israel, Maria Elisa Berenguer, diga-se de passagem, pessoa muito simpática e muita atenta aos fatores que podem impulsionar os negócios entre os dois países. E ela foi enfática quanto à posição do Brasil no que toca à questão. Defende a existência de dois estados, com as fronteiras delimitadas de 1967.
DIÁRIO DO ORIENTE MÉDIO
Israel acompanha conflitos do entorno
Jurandir Soares – j.soares@cpovo.net
Helicópteros e navios da Marinha seguiam nesta terça-feira patrulhando a costa israelense, como precaução a qualquer possível ataque retaliatório por parte do terror, depois da execução de Bin Laden pelos EUA. Diferentemente dos EUA, por aqui o fato não foi comemorado. A vida seguiu discretamente. Afinal, são muitas as preocupações com o que está acontecendo no entorno. Três dos cinco países fronteiriços com Israel – Síria, Jordânia e Egito -, estão em meio a convulsões sociais. A propósito, o que se observa sobre estes três é o seguinte. No Egito, o exército assumiu o controle do país com mão de ferro e já evitou novas manifestações na Praça Tahir, local dos grandes manifestos que levaram à derrubada de Hosni Mubarak. Sem terem reencaminhado o país para a democracia, os militares egípcios já negociaram até uma reaproximação entre os grupos rivais palestinos Hamas e Fatah. Na Jordânia, com as concessões feitas pelo rei Abdullah, a situação parece ter amenizado. Onde o clima político está mais pesado é na Síria. Ali, nada do que foi implantado até agora pelo governo de Bashir AL-Assad amenizou os protestos. Porém, o que se vê é que os militares estão ao lado do governante, que está usando a força das armas para conter as manifestações. E, pelo que se vê, não estão preocupados com o número de manifestantes mortos. Vão seguir matando até sufocar a revolta.
Um dos prejuízos que Israel já teve com esses conflitos foi a explosão do gasoduto, que parte do Egito e abastece Israel e Jordânia. Porém, ao mesmo tempo, o país saúda a descoberta de petróleo e de gás no Mar Mediterrâneo, a apenas 30 quilômetros da orla. O volume tornará o país autosuficiente. E a propósito de energia, observo aqui em Tel Aviv que a maior parte dos prédios tem na sua cobertura coletores de energia solar. É usada de maneira alternativa com o gás. Uma idéia que poderíamos copiar para aproveitar este imenso sol que temos no Brasil. Aliás, não usamos a energia solar porque o sistema é caro, mas aqui eles já conseguiram baratear.
Matéria para sábado, 07/05, entrevista com EMBAIXADORA)
DIÁRIO DO ORIENTE MÉDIO
Brasil se posiciona econômica e politicamente
Jurandir Soares – j.soares@cpovo.net
O incremento das negociações de Israel com o Mercosul, a nova maneira como o Brasil é visto no cenário internacional e a posição brasileira frente a questão israelense-palestina, foram alguns dos aspectos tratados pela embaixadora do Brasil em Israel Maria Elisa Berenguer, em entrevista exclusiva concedida ao Correio do Povo e Rádio Guaíba. Fomos recebidos na seda da Embaixada do Brasil, situada no 30º andar de um prédio de negócios em Tel Aviv, de onde se descortina uma extraordinária vista da cidade e de sua orla marítima.
Brasil-Israel, como estão estas relações hoje?
Melhor impossível. É um momento muito bom para Israel, é um momento muito bom para o Brasil. A partir da visita do então presidente Lula aqui, em retribuição à visita de Shimon Peres ao Brasil, o lado político começou a dar um embasamento para que tudo florescesse. Então, temos na economia um comércio que se expande dia a dia. Com um interesse cada vez maior que eu vejo por parte dos israelenses para trabalhar com o Brasil. São projetos com vistas à Copa do Mundo, às Olimpíadas e tudo o mais. A palavra Brasil é recebida aqui com a maior alegria.
Não somos mais apenas o país do carnaval e do futebol.
Somos ainda o país do carnaval e do futebol e de todas as coisas boas que nós temos. Mas também o país do crescimento da economia e do comércio. E, sobretudo, um exemplo de desenvolvimento social.
Israel tem acordo com o Mercosul!
Com certeza. Já entrou em vigor o acordo Mercosul-Israel. Foi o primeiro acordo firmado pelo Mercosul com país de fora da área. E está sendo plenamente implementado. Quando assumi a embaixada aqui já tinha pessoas perguntando: como é certificado de origem, como faço para intercambiar. Na prática, este acordo já estava sendo implementado.
Quando a senhora assumiu a embaixada aqui?
Há quase um ano. Cheguei aqui no dia 27 de junho do ano passado.
E como se sente trabalhando neste ponto estratégico e até certo ponto convulsionado do Oriente Médio, estando aqui como representante do Brasil?
É uma honra e uma grande responsabilidade. Sobretudo nestes dias que correm. Tudo que acontece nesta área afeta a todos. E aqui o governo israelense segue acompanhando tudo com a maior atenção e extremamente preocupado. E nós trabalhamos para informar o Brasil tudo o que está acontecendo. O mundo todo está interligado, porém, mais ainda aqui no Oriente Médio com todas estas mudanças. E O Brasil, conforme o senhor sabe, reconheceu o Estado da Palestina, o que foi uma contribuição para o processo de paz. Porque nós acreditamos que a paz entre Israel e Palestina é uma necessidade para as pessoas que vivem aqui e esta paz só pode resultar das negociações diretas entre Israel e a Palestina.
Dentro do plano de dois Estados?
É, de acordo com o plano de dois Estados, um de Israel e outro da Palestina. Mas isto eles têm que se acertar. Nós já dissemos no Brasil que reconhecemos a Palestina com as fronteiras de 1967. Fizemos a declaração a favor da Palestina com capital em Jerusalém. Mas eles têm que se entender entre si. O Brasil apóia totalmente este processo e dá a maior força.
Sua mensagem para os brasileiros?
Minha mensagem seria, se puderem, venham visitar Israel. É um país de pequenas dimensões, mas um grande país em história e em pessoas e que recebe os brasileiros de braços abertos. Estamos aqui na embaixada à disposição de todos que venham nos visitar.
04/05/11
Cheguei a Jerusalém nesta quarta-feira pela manhã, depois de uma viagem de Van de cerca de uma hora desde Tel-Aviv. Minha primeira atividade foi rever a cidade velha, incrustada dentro de seu militar paredão, no interior da qual funciona um dos mais diversificados mercados em termos culturais. Ali você se depara com quatro quarteirões – cristão, islâmico, judaico e armênio -, com seus integrantes convivendo na mais perfeita harmonia, em meio àquela Babel, representada pelas pessoas das mais diversas partes do mundo que ali estão comprando. Em meio àquele aglomerado de gente e de produtos, tudo funciona bem e há a mais perfeita harmonia entre os representantes dos múltiplos credos que ali têm seus negócios. Ninguém ofende ninguém. Pelo contrário, um ajuda o outro. Algo lindo de se ver quando se transita por aquelas ruelas, cujas pedras de calçamento foram pisadas por Cristo. Você quase não se dá conta,mas, de repente, se defronta com uma placa mostrando que ali é uma das estações da Via Crucis.
Esta harmônica convivência que se presencia dentro da cidade velha contrasta com o que se vê fora: muro, cerca de arame farpado e guaritas militares separando o território israelense do palestino. Algo que se vê ao longo da estrada que liga Tel-Aviv a Jerusalém, assim como nos limites da “Cidade Santa” com as palestinas Belém, Ramallah, etc. Este muro é profundo contraste com o que ocorre dentro da cidade. Porém, revela a realidade da região.
A propósito, esta decisão do presidente Barack Obama de não mostrar o corpo de Bin Laden só vai fazer é levantar mais dúvidas sobre a veracidade da operação. A desculpa de que poderia representar perigo para os norte-americanos não serve. O perigo foi estabelecido com a operação de caça ao terrorista. Portanto, fica faltando a prova básica da operação.
O problema aqui não só nas relações entre israelenses e palestinos. É também entre os palestinos. A propósito, a reconciliação entre os grupos palestinos Hamas e Fatah está sendo questionada em artigo publicado no The Jerusalem Post pelo jornalista Gerson Baskin, que é um pacifista. Ele, inclusive, integra o IPCRI – Israel/Palestine Center for Research and Information. Ele ressalta que o acordo tem muitos pontos ainda a serem negociados, alguns dos quais tem colocado as duas facções em posições antagônicas. Ele pergunta, por exemplo, se no caso de sair vencedor da eleição uma das atuais lideranças do Hamas, a comunidade internacional irá continuar ajudando financeiramente os palestinos? Questiona também se o Hamas irá concordar em manter a cooperação militar que o Fatah tem com as forças israelenses? Se irá o Hamas estabelecer um cessar-fogo com Israel? Se irá o Hamas aceitar a existência do Estado de Israel?
As respostas a estes questionamentos parecem óbvias. Por exemplo, um dia antes de ser anunciado o acordo do Cairo, tivemos a primeira desavença entre as duas facções no que toca ao controle militar. O Hamas, com o seu radicalismo, quer ter o controle total das forças armadas palestinas. Algo que não é aceito pelo Fatah e nem pelo quarteto negociador da paz, formado por EUA, UE, ONU e Rússia. Então, fica a indagação sobre até onde este acordo pode avançar.
05/05/11
DIÁRIO DO ORIENTE MÉDIO
Governo israelense é contestado
Jurandir Soares – j.soares@cpovo.net
Aqui em Israel, enquanto o governo segue criticando o acordo firmado no Cairo, nesta terça-feira, entre as facções palestinas do Hamas e do Fatah, o jornal israelense “Haaretz” publica na sua edição desta quinta-feira um editorial com o título: “União palestina, uma oportunidade, não uma ameaça”. Ou seja, o jornal assume uma posição frontalmente contra a do governo israelense, dizendo que o mesmo não pode mais continuar com a sua visão de que a união dos dois movimentos é uma ameaça. Para o jornal, trata-se de uma grande oportunidade de os palestinos se libertarem da ocupação de Israel, fato que vem sendo protelado há 20 anos. Diz o jornal que este é momento de Israel reconhecer a unidade palestina, com vistas a estabelecer um bom relacionamento futuro com o novo Estado.
Aliás, a criação deste novo Estado tem sido também um dos objetivos do presidente Barack Obama. Segundo fontes que acompanham a administração israelense, esta tem-se queixado das pressões de Obama. Nunca um presidente americano teria pressionado tanto o governo de Israel para reconhecer o Estado da Palestina.
Israel tem manifestado que o seu temor é que, na eleição dos palestinos, projetada para dentro de um ano, venha a vencer a facção do Hamas, que é a radical, que não aceita a existência de Israel. No entanto, hoje o funcionamento da Autoridade Nacional Palestina só se dá graças à ajuda da comunidade internacional e à supervisão de Israel. Toda a máquina administrativa da ANP, cerca de 150 mil funcionários, recebe seus proventos através de verba enviada pelo quarteto de negociadores – EUA, UE, Rússia e ONU. Dinheiro este que vai para Israel para ser repassado aos palestinos. Isto, portanto, já se constitui num importante fator de controle sobre a conduta do futuro governo palestino. Além de muitos outros aspectos que existem, ligados às limitações que os palestinos têm para sobreviver como Estado independente.
Mas, se Obama já vinha pressionando Israel pelo novo Estado palestino, esta pressão tende a aumentar agora que ele deu fim a Bin Laden. O fato, embora saudado pela maior parte do mundo, não deixou de causar protestos no meio islâmico. Ao estar à frente da solução do histórico problema palestino, Obama estaria conquistando a simpatia do mundo árabe-muçulmano.
Passada a concentração dos israelenses relembrando o Holocausto, o país entrou em ritmo de festa. Bandeira nacional por todos os lados, inclusive carros circulando com pequenas bandeiras, como acontece no Brasil por ocasião da Copa do Mundo. É que na próxima terça-feira, dia 10, o país comemora os seus 63 anos de independência.
05/05/11
Dois fatos foram destaque hoje em Israel. Um pronunciamento do primeiro-ministro sobre os palestinos e o cancelamento de vôos no principal aeroporto do país por causa de combustíveis adulterados.
O primeiro-ministro Beniamin Netanyahu, ao encontrar-se em Paris com o presidente Nicolas Sarkozy, disse que pode reconhecer um Estado Palestino, que seja criado pela ONU a partir de setembro, mas sob determinadas condições. Ele que aceita um Estado que ponha fim ao conflito com Israel, mas não um Estado como o Hamas quer, que é de manter este conflito. Disse que não basta a ONU reconhecer esse Estado, se o mesmo não se conduzir de acordo com o que está sendo proposto por Israel. Como comparação disse que a ONU pode declarar Bin Laden um herói, mas países como EUA, Alemanha, França e outros mais, não irão reconhecer tal decisão.
Quase no mesmo momento em Netanyahu fazia o seu pronunciamento, em Gaza, o líder do Hamas, Ismail Haniyeh, conclamava seus seguidores a respeitar o cessar-fogo com Israel. No que parece ser uma mudança profunda em direção às posições moderadas do Fatah. Afinal, se os palestinos seguirem as posições do Fatah, poderão ter aprovado o seu Estado pela comunidade mundial em setembro.
Quanto ao combustível adulterado, foi responsável pelo atraso e cancelamento de muitos vôos no Aeroporto Bem Gurion, que é o principal do país, servindo a Tel Aviv e Jerusalém. Milhares de passageiros ficaram presos no aeroporto. O combustível adulterado contém uma substância gordurosa não identificada que adere aos filtros e condutores dos veículos, danificando os tanques. Em função disto, todos os aviões que foram abastecidos no aeroporto tiveram que fazer reabastecimento. O fato, segundo a administração do aeroporto, causou transtornos, mas evitou acidentes. O que é verdade.
DIÁRIO DO ORIENTE MÉDIO
Uma oportunidade para a paz
Jurandir Soares – j.soares@cpovo.net
Uma semana passada em Israel me permitiu cumprir, mais uma vez, com o ritual de todo visitante, ou seja, percorrer os lugares sagrados das três religiões monoteístas, e, ao mesmo tempo, fazer uma série de observações sobre o que acontece no país e nos países vizinhos que enfrentam revoltas. Então, vamos por partes. Jerusalém segue sendo uma cidade que atrai cada vez mais turistas. E é preciso dizer logo, é uma cidade segura. Pois, sempre que se fala em visitá-la vem a indagação sobre a segurança, tendo em vista o conflito árabe-israelense. E é uma cidade que, na sua parte antiga, cercada por muralhas, revela no seu interior uma harmonia que deveria pautar as relações na parte de fora. O que, infelizmente, não acontece. O visitante que aqui chega se depara com um enorme mercado, loteado entre as comunidades judaica, cristã, islâmica e armênia. Todos vendendo seus produtos, cujo preço final acaba sendo bem inferior ao que é pedido inicialmente. A velha prática da pechincha faz parte da cultura mercadológica do local. E para o visitante mais desavisado, a surpresa fica ao perceber que os símbolos maiores das três religiões não distam mais do que cem metros um do outro. É só observar o símbolo dos muçulmanos, a mesquita de Omar, com sua resplandecente cúpula dourada, e ver um pouco ao lado está o Muro das Lamentações, símbolo dos judeus, e, um pouco mais à frente, esta a Igreja do Santo Sepulcro, símbolo dos cristãos. Nada que diste mais do que um quarteirão.
Tudo isto deveria levar a um exemplo de convivência na parte externa da cidade velha, o que não ocorre. Aliás, palestinos e israelenses, que vivem às turras, deveriam se espelhar nos exemplos que proliferam pelo mundo de integração entre as nações. Ganhariam muito mais se somassem esforços para uma convivência pacífica, do que ficarem brigando. Mas, quem sabe, isto passe pela constituição do Estado da Palestina, que é algo que se está vislumbrando para breve. Quem sabe em setembro, para quando está programa uma votação na ONU. Nesta semana, os palestinos estabeleceram uma reconciliação entre as suas diversas facções. O governo israelense disse temer esta unificação, por ficar em dúvida sobre qual linha de procedimento irá prevalecer. Se a do Fatah, que preside a Autoridade Nacional Palestina, que controla a Cisjordânia, que aceita a existência de Israel e a constituição de dois estados? Ou, se a do Hamas, que domina a Faixa de Gaza, que é visto como organização terrorista e que não aceita a existência de Israel? Para o jornal israelense “Haaretz”, esta dúvida não pode ser obstáculo para a paz. Diz que a união palestina se oferece como uma oportunidade de avanço e não deve ser vista como uma ameaça.
Acontece que, na prática, já existem dois estados separados. Há inclusive um vexatório muro de sete metros de altura os separando. Embora Jerusalém e Belém pareçam uma cidade só, pela continuidade dos prédios, há o muro e uma barreira militar as separando, como se separa dois países que estão em guerra. Esta barreira só poderá cair quando as duas nações entenderem que é muito mais produtivo trabalharem em conjunto, do que viverem separados em beligerância. Para isto as lideranças precisam ser pressionadas, como está fazendo o jornal “Haaretz” e como está fazendo também o presidente Barack Obama. Um de seus objetivos de Obama para ficar de bem com o mundo islâmico é conseguir concretizar o estabelecimento do Estado da Palestina. Enfim, o caminho para a paz está aberto, precisa é ser sedimentado.
Já na vizinha Síria a situação está bem complicada para o ditador-presidente Bashir al-Assad. Esta sexta-feira foi mais um dia de grande protesto e de muitos mortos, como vem ocorrendo com freqüência. A ONU já fez uma condenação ao país por violações aos direitos humanos, mas, pelo que se depreende, esta violência vai continuar ainda por algum tempo, porque o exército está fechado com Assad. E este parece estar mais sustentado no poder do que estava Hosni Mubarack no Egito. Porém, se as manifestações continuarem ganhando força como estão, pode acontecer o mesmo que no Egito. Ou seja, o exército mantém o apoio ao ditador até onde pode. Quanto que a situação se tornar insustentável, promove a sua destituição para não gerar a sua própria desintegração.
Na outra vizinha, Jordânia, o rei Abdullah está conseguindo amenizar os protestos contra o regime. Tem acontecido, mas não na intensidade que ocorrem na Síria. Toda esta situação do entorno preocupa em muito Israel. Até a da Síria, que é um inimigo tradicional. Isto porque, com Assad Israel não tem sentido ameaça. Sem ele a situação pode piorar. Mas a preocupação maior é com Jordânia e Egito, dois países com que mantém acordo de paz. Se assumirem dirigentes que rompam esses acordos, Israel voltará a ficar cercado por inimigos. Enfim, são os “jogos de guerra” neste sempre conturbado Oriente Médio.
07/05/11
Falo de Jerusalém, onde temos hoje um belo dia de sol e temperatura amena. Hoje é Shabat, o dia do descanso. Dia de ler o jornal com mais calma. E o que os jornais repercutem com destaque são dois fatos. A reaproximação das facções palestinas, acertada esta semana, e o incremento da violência na Síria. A Síria é um inimigo de Israel. Desde a guerra de 1967 os israelenses ocupam as Colinas de Golã, tomadas à Síria. Mas não tem mais havido confronto entre os dois países. E o temor dos israelenses é de que uma mudança na Síria possa derivar em um governo mais radical, que venha a desestabilizar a região. Por enquanto, o que se observa é o ditador Bashir al-Assad mantendo o domínio com o uso da força militar. Até quando esta situação irá se manter é uma incógnita.
Já com relação aos palestinos, o jornal Haaretz publica artigo assinado por Yitzhak Laor saudando a reunificação dos palestinos. Diz que não pode haver paz enquanto um dos lados estiver dividido. E que, independentemente dos posicionamentos das facções, o fundamental é que a entidade tenha uma posição conjunta. Pois a propósito, o mesmo jornal publica entrevista do líder do Hamas, Khaled Meshal, o qual afirma que as decisões dos palestinos serão tomadas de forma conjunta no que toca a todos os assuntos referentes a Israel.
Assim, pelo menos no que toca ao crônico problema com os palestinos, o leitor israelense tem uma informação animadora para este domingo.
08/05/11
DIÁRIO DO ORIENTE MÉDIO
De Israel para a Turquia
Jurandir Soares – j.soares@cpovo.net
Cumprindo a segunda etapa de meu plano de viagem, me desloquei neste domingo de Tel Aviv para Istambul. Concluí as observações em Israel, escolhido por ser um país que está no centro dos acontecimentos do Oriente Médio, tendo uma grande influência na região, embora tendo como predominante uma religião, o judaísmo, que praticamente inexiste nos demais. A escolha pela Turquia foi justamente por ser outro país influente na região, porém, tendo a mesma religião, o islã, que é predominante na área. Além de serem dois países com os quais o Brasil vem mantendo um intercâmbio comercial intenso. E serem dois países, como o Brasil, em desenvolvimento, que podem nos oferecer exemplos a serem seguidos. O que difere os dois do Brasil é a história.
Já falei um pouco de Israel e começo a falar hoje sobre a Turquia, país que se divide entre a Europa e a Ásia e cuja cidade principal, Istambul, já foi chamada de Constantinopla e de Bizâncio, tendo sido sede desses impérios, assim como do Turco-Otomano. A viagem aérea pela Turkish Airlines já foi a primeira surpresa agradável. Atendimento cordial, almoço servido com talheres inox e acompanhado de vinho, o que, evidentemente, nos trás uma saudade da “velha” Varig, quando em nossas empresas só temos barrinhas de cereais. A surpresa agradável continuou com a chegada ao aeroporto. Instalações amplas, moderna, esteiras rolantes para deslocamento, múltiplos postos de atendimento evitando aglomerações. Tanto é assim, que neste domingo o país estava recebendo delegações de 48 nações pobres da África e da Ásia – são mais de 10 mil delegados -, para uma conferência da ONU, e não deu para perceber qualquer aglomero. Mais uma vez não dá para deixar de fazer a comparação com o Brasil, especialmente, porque temos uma Copa do Mundo pela frente e nossos aeroportos parecem grandes rodoviárias, o que urge um esforço concentrado em nosso país. E, infelizmente, a comparação não pára por aí. A rodovia que liga o aeroporto ao centro da cidade antiga é ampla, passando-se por conjuntos residenciais de classe média, prédios de quatro andares em sua maioria, porém, bem acabados, com seus espaços ajardinados. Aliás, há jardins ao longo de todo o trajeto. Tulipas das mais diversas cores ornamentam os canteiros situados entre a rodovia e o enorme parque que margeia o Canal de Bósforo. Parque que, por ser domingo, estava repleto de famílias se divertindo. Bom, pelo aí uma semelhança com o Brasil.
O dia do domingo também remete a uma diferença, porém regional. Em Israel o dia do descanso é o sábado, o “Shabbat”. Nos países muçulmanos, é a sexta-feira. Porém, a Turquia, apesar de ser um país de absoluta maioria muçulmana, mantém o descanso no domingo, como a maior parte dos países do mundo em que a religião não interfere no Estado. A Turquia, de quem seguirei falando, é uma democracia, implantada na década de 1920 pelo líder de sua história moderna: Ataturk, que dá o nome ao aeroporto de Istambul.
08/05/11
Conferência da ONU para combater a pobreza
09/05/11
DIÁRIO DO ORIENTE MÉDIO
Um contato com a milenar história da Turquia
Jurandir Soares – j.soares@cpovo.net
A Turquia é um país de cultura milenar, que esteve hora sob o domínio mouro, hora sob o controle cristão, e onde por quatro séculos predominou o Império Otamano. Toda esta história ainda está bem presente nos prédios da bela Istambul, que se debruça entre a Europa e a Ásia, com as águas do Estreito de Bósforo dando um colorido todo especial a sua paisagem. Percorrendo-se as ruas da cidade antiga, na parte européia, pode-se visitar a Mesquita Azul, com seus seis minaretes e seu interior decorado de azulejos. Uns poucos passos adiante chega-se à Igreja de Santa Sofia, que, como muitas outras, já foi igreja católica e mesquita muçulmana, e hoje é um museu. E também perto dali, encontra-se o Palácio Topkapi, que foi morada dos sultões. Depois de percorrer os seus salões e deslumbrar-se com as “jóias da coroa,” o visitante pode sentar-se em um café, às margens do golfo de Haliç que faz com que também a parte européia da cidade seja dividida pelas águas que interligam o Mediterrâneo e o Mar Negro. A vista dali é indescritível. É por isto que o turismo se constitui numa das grandes fontes de renda da Turquia. Ano passado o país recebeu 28 milhões de turistas e este ano quer ultrapassar os 30 milhões.
Minha chegada a Istambul coincidiu com o início de uma conferência organizada pela ONU para combater a pobreza na África e na Ásia. A organização pretende estabelecer um plano qüinqüenal de auxílio a 48 países desses dois continentes. São mais de 10 mil delegados. Participaram da sessão de abertura 12 chefes de Estado e 12 chefes de Governo. Entre as lideranças presentes, estão o secretário geral da ONU Ban Ki-moon e os presidentes do Irã Mahmoud Ahmadinejad e o do Afeganistão Hamid Karzai. O encontro é uma iniciativa de um país, a Turquia, que estende seu eixo de atuação para tentar minimizar os problemas daqueles que tem fome, tanto que está custeando as despesas dos representantes de 11 países.
A chamada 4ª Conferência dos Países Menos Desenvolvidos foi aberta pelo primeiro-ministro turco, o qual disse que “os problemas desses países não têm fronteiras, pois envolvem meio-ambiente, mudanças climáticas, pobreza, terror e imigração. Problemas que não são só da região, mas do mundo todo.” Já o sempre polêmico presidente Ahmadinejad disse que a responsabilidade pela recuperação desses países é dos países colonialistas, que por mais de 400 anos exploraram a África, a Ásia e a América Latina”.
Convenhamos que, ao atrair mais de 10 mil delegados para a sua Istambul, a Turquia não deixa também de estar dando um impulso ao seu turismo.
Mas este país também tenta agir na área política regional, em especial com relação ao Egito, onde neste fim de semana deu-se mais um confronto entre muçulmanos e cristãos coptas, com incêndios de prédios e um número elevado de mortos. O que a Turquia tenta oferecer ao Egito é o seu modelo político. A Turquia, como o Egito, é um país de maioria muçulmana e que tem um exército forte. A diferença é que a Turquia vive numa democracia e o Egito numa ditadura. O que ocorre na Turquia é que o exército usa sua força não para reprimir, mas para ser um garantidor do processo democrático. Este é o modelo que tenta passar para o Egito.
10/05/11
DIÁRIO DO ORIENTE MÉDIO
Da proposta de Ahmadinejad ao palácio do sultão
Jurandir Soares – j.soares@cpovo,net
O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, declarou nesta terça-feira, aqui em Istambul, que está disposto a retomar, nesta cidade, uma conferência internacional para discutir o programa nuclear iraniano, que é alvo de críticas de muitos países. Esta declaração foi feita pouco antes de Ahmadinejad retornar ao seu país, depois de participar de uma conferência da ONU que reúne aqui os países mais pobres do mundo. A conferência proposta pelo presidente iraniano teria a participação do chamado grupo 5+1, formado pelos membros do Conselho de Segurança da ONU que tem direito a veto, mais a Alemanha. Vale lembrar que a Turquia, sob o atual primeiro-ministro Recep Tayyp Erdogan, e o Brasil, sob o então presidente Lula, tentaram mediar um acordo que levasse a comunidade internacional a aceitar o programa nuclear iraniano, mas não obtiveram sucesso. Agora, o Irã busca o apoio da mesma Turquia para servir de sede para uma nova conferência, envolvendo os países mais poderosos do mundo.
O programa nuclear do Irã vem sendo contestado especialmente por EUA e Israel. A propósito, em Israel, que nesta terça-feira celebrou o seu dia da independência, o tema vem sendo muito discutido. E há até uma ala radical que defende um ataque israelense às instalações nucleares iranianas. No entanto, com a sua proposta de agora, Ahmadinejad desarmou qualquer ação bélica contra seu país.
Além de acompanhar o pronunciamento de Ahmadinejad, não deixei de cumprir meu roteiro turístico em Istambul. E que cidade maravilhosa! Dividida em três. Na parte européia, de um lado, a parte histórica, antiga. Do outro lado do Golfo Haliç (Chifre de Ouro) a parte moderna, com os negócios e os serviços. E, do outro lado do Bósforo, na parte asiática, as residências.
No total, são 15 mil pessoas que se dividem nessas três áreas. A ligação da Ásia com a Europa é feita, por água, através de barcas dos mais diversos tipos e tamanhos. E, via rodoviária, por duas pontes pênsil, no estilo da Gonden Gate, com 67 metros de altura e 660 metros de extensão que, aliás, é a largura do Estreito de Bósforo. Ambas, no entanto, sufocadas pelo trânsito. Tanto, que já está em construção um túnel sob o mar, no estilo Canal da Mancha, previsto para ficar pronto em quatro anos. O que mostra o dinamismo deste país. A circulação por todo esse complexo nos levou ao Palácio Beylerbeyi Sarayi, a residência de verão do sultão. Um palácio de dar inveja até a Versalhes, tamanha a riqueza de seus detalhes arquitetônicos e de sua decoração. Indescritível. Enfim, são o hoje e o ontem presentes nesta encantadora cidade.
11/05/11
DIÁRIO DO ORIENTE MÉDIO
Da ameaça ecológica ao bazar de especiarias
Jurandir Soares – j.soares@cpovo.net
Aqui em Istambul, onde me encontro, a quarta-feira foi de sol radiante, mas no interior do país tem acontecido fortes chuvas que podem provocar um desastre ecológico. Os especialistas e ecologistas estão alertando para o perigo de vazamento de uma balsa que está cheia de cianureto, procedente de uma mina de prata da província de Kutahya. O hospital dessa província assim como o da província vizinha de Eskisehir já providenciaram a distribuição preventiva de antídoto para o cianureto. O temor é de que haja um desastre ecológico sem precedentes se as chuvas continuarem e provocarem o rompimento do dique de Kutahya.
Os vôos procedentes da Grécia não chegaram nesta quarta-feira a Istambul. Simplesmente porque os gregos viveram um dia de greve geral, a segunda do ano, convocada pelos sindicalistas para protestar contra as medidas de austeridade decretadas pelo governo. Além dos aviões, também pararam os trens e as balsas que fazem as ligações entre as ilhas. A Grécia vem atravessando uma grave crise fiscal, com o governo gastando muito mais do que arrecada. Em função disto e para habilitar-se a receber ajuda financeira da União Européia, o governo trabalhista grego decidiu lançar um programa de privatizações e de cortes de salários. Fatores que motivaram uma série de reclamações dos trabalhadores e que culminaram com as paralisações desta quarta-feira. É mais um país da zona do euro a enfrentar grave crise. Irlanda, Portugal e Espanha, que eram apontados até pouco mais de um ano como exemplos de crescimento, também mergulharam na crise. Todos estão endividados e envoltos no desemprego e na perda do poder aquisitivo da população. Fator que está fazendo a Turquia repensar o seu sonho de fazer parte da União Européia.
Diferentemente da vizinha Grécia, a Turquia vive um momento de estabilização de sua economia. O país que compete com o Brasil na adoção dos juros mais altos do mundo, também tem sido um ponto de atração para o investidor internacional. E o que se vê pelas ruas de Istambul é um comércio “bombando”, fazendo jus à tradição de comerciante deste povo. O melhor exemplo é o Grande Bazar com suas 4400 lojas e 63 ruas internas. Por ser um ponto turístico da cidade, vive cheio de visitantes e a primeira providência que os comerciantes tomam é saber a origem desse visitante para tentar falar o seu idioma. Assim, é possível ouvir um desses turcos falando desde o russo, passando pelo alemão e indo até o espanhol ou o português. Sem contar o inglês, que é o idioma internacional. E é impressionante o carinho que dedicam ao Brasil. Tudo que é nosso os encanta. E o jogador Alex, ex-Palmeiras, que hoje atua no Fenerbahçe, é ídolo nacional. Não tão amplo quanto o Grande Bazar, mas também se constituindo numa atração à parte é o bazar de especiarias, o “Misir Çarsisi” na grafia turca. São 88 lojas, com os produtos harmonicamente distribuídos e com uma infinita variedade de temperos. Uma perdição, tanto para quem gosta de se dedicar às atividades culinárias, como para quem gosta simplesmente de saborear uma fruta seca, como um damasco, uma tâmara, etc. Enfim, é mais uma das múltiplas atrações deste país.
12/05/11
DIÁRIO DO ORIENTE MÉDIO
Turquia na União Européia
Jurandir soares – j.saores@cpovo.net
O sonho da Turquia de fazer parte da União Européia está mais próximo de se concretizar. Em visita ao país, o secretário-geral da UE, Javier Solana, disse nesta quinta-feira que a Turquia começará a interagir com a Europa antes mesmo de ser admitida oficialmente na organização. A declaração não deixa de ser uma forma de suavizar os impasses que estavam se apresentando para o ingresso turco na comunidade. Apesar de a Turquia ser um país em que está vigente a democracia plena e em que a religião não tem ingerência sobre o Estado, há a desconfiança dos europeus devido à força que tem o Islã no país. Além disto, a Turquia é meio européia, meio asiática, por situar-se nos dois continentes. Mas esta é uma questão menor. O temor é com a força dos muçulmanos e com o direito que passarão a ter para circular livremente pela Europa, se houver a adesão do país à comunidade.
Hoje a Turquia já se considera parcialmente integrada à Europa, pois sua economia, na prática, já opera com três moedas: a lira turca, que tem a mesma cotação do nosso real frente às demais moedas, o dólar e o euro. Em qualquer loja ou restaurante se pode pagar com qualquer uma dessas moedas. E o mercado turco é extremamente atraente para os europeus. Tudo aqui é barato até para nós brasileiros, imagine-se para os europeus que ganham em euros. A roupa, então, nem se fala, é baratíssima. E há ainda os atrativos turísticos. As belezas naturais se espalham pelo país. De Istambul a Anatólia, passando pela Capadócia, tudo é lindo e atrativo. Esta é uma carta na manga que o país tem para negociar.
No entanto, diante da atual crise por que passam tantos países que aderiram à zona do euro, é até prudente que a Turquia espere um pouco. Irlanda, Portugal, Espanha e Grécia vêm tendo problemas, porque estão com enorme déficit público e não podem usar um dos artifícios normalmente utilizados para minimizar a situação: a desvalorização de sua moeda. Portugal não tem mais escudo, Espanha não tem mais peseta. Todos têm euro. E no euro quem manda é o Banco Central Europeu. Daí ser mais interessante para a Turquia ir levando por algum tempo a situação como está, sem aderir ao euro. Isto porque, seus negociantes poderão continuar recebendo euro e dólares e o seu Banco Central poderá desvalorizar a lira, se for necessário. A vantagem da Turquia para entrar na União Européia é aprender com os erros daqueles que já entraram.
13/05/11
DIÁRIO DO ORIENTE MÉDIO
Turquia busca influenciar na Síria e no Egito
Jurandir Soares – j.soares@cpovo.net
Quando decidi vir para a Turquia o fiz não só para conhecer in loco sua história e suas belezas naturais, como também para sentir como este país, que é influente na região, está reagindo com relação a seus vizinhos que estão atravessando graves crises, devido aos protestos populares. Pois deu para perceber que o primeiro-ministro Recep Tayyp Erdogan está agindo forte, pelo menos em relação a alguns vizinhos. Sua cobrança mais incisiva deu-se nesta quinta-feira com relação à Síria. Mas Erdogan não atropelou o ditador sírio Bashar al-Assad, a quem chamou de amigo. Usou de sutilezas para dizer que ele deve ceder aos impulsos por democracia que se espalham pelo Oriente Médio. Disse que o problema da Síria é quase como que um problema doméstico da Turquia, pois os dois países dividem 800 quilômetros de fronteira.
Segundo o jornal “Hurriyet Daily News”, os dois dirigentes vêm mantendo freqüentes reuniões para discutir a crise. E seria importante Assad olhar para como a democracia funciona na Turquia. Desde a década de 1920 que o sistema democrático é tutelado pelos militares. Estes assumiram perante a Constituição criada por Ataturk o compromisso de defender a democracia no país. Democracia laica, sem a interferência da religião, no caso a islâmica, que é forte no país. Assad tem o apoio militar na Síria. Mas o seu problema é que não quer abrir mão do poder para evitar uma crise maior. Por isto, enquanto Erdogan fazia as suas propostas, as forças armadas sírias continuavam reprimindo as manifestações no país.
Erdogan tem agido também com relação ao Egito. Até porque a situação daquele país é muito parecida com a da Turquia. Há um exército forte, que se manteve coeso durante as manifestações que derrubaram o presidente Hosni Mubarak. O que a Turquia tenta oferecer ao Egito é o seu modelo político. A Turquia, como o Egito, é um país de maioria muçulmana e que tem um exército forte. A diferença é que a Turquia vive numa democracia e o Egito numa ditadura. O que ocorre na Turquia é que o exército usa sua força não para reprimir, mas para ser um garantidor do processo democrático. Este é o modelo que tenta passar para o Egito.
13/05/11
O duplo atentado em uma guarnição militar no Paquistão, que vitimou um elevado número de recrutas, não surpreende. Em primeiro lugar, porque já era esperada alguma reação do terror depois da morte do seu líder supremo Bin Laden. Em segundo lugar, porque este tipo de atentado vem acontecendo com freqüência, não só no Paquistão, como também no Iraque e no Afeganistão. O ataque a quartel vista desestruturar as forças que ali estão sendo formadas e que são destinadas a estabelecer a segurança no país. O que significa conter as ações da Al Qaeda e do Talibã. É por isto que os quartéis tem se tornado o alvo preferencial dos terroristas na região. E isto se constitui num fator a mais a dificultar a saída das forças americanas que atuam no Iraque e no Afeganistão. Esta saída precisa ser compensada com a formação de novos contingentes por aqueles países e as ações do terror são justamente para evitar a formação desses contingentes.
De outra parte, considerando-se que a ação do terror no Paquistão foi em represália à morte de Bin Laden, é preciso redobrar o controle no Ocidente, especialmente, nos EUA.
DIÁRIO DO ORIENTE MÉDIO
Turquia, da política, à história e ao turismo
Jurandir Soares – j.soares@cpovo.net
Uma semana em Istambul deu para sentir o dinamismo da Turquia tanto na implementação de suas atividades comerciais e turísticas, como na atuação política em âmbito regional. Minha estada em Istambul coincidiu com a realização na cidade de uma conferência da ONU, recebendo chefes de estado ou de governo de 48 países pobres da África e da Ásia. O encontro foi uma iniciativa do primeiro-ministro turco Recep Tayyp Erdogan que, junto com o ex-presidente Lula, já esteve à frente de uma tentativa de acordo para o programa nuclear do Irã. E, como Lula, tem estado à frente de programas dedicados a minimizar a pobreza no mundo. Vê-se que com esta conferência deu um passo à frente em relação ao nosso ex-presidente.
A Turquia tem uma certa miscigenação que se assemelha com o Brasil, tem uma moeda, a lira, que vale o mesmo que o nosso real, tem os mesmos juros mais altos do mundo que praticamos em nosso país, e uma situação de país em desenvolvimento que se assemelha com o nosso. É um país que tem uma democracia consolidada, implantada após a derrocada do Império Turco Otomano, ao final da Segunda Guerra. E, apesar de ser um país de predominância islâmica, a religião não interfere no Estado, como acontece na maioria dos países árabes-muçulmanos. Esta foi um conquista de Kemal Atatürk, o pai da Turquia moderna. Ele comprometeu as Forças Armadas como tutoras da democracia no país. E este é um exemplo que Erdogan tenta passar para outros países que estão em crise atualmente, como a Síria e o Egito.
Dividida entre a Ásia e a Europa, a Turquia tenta seguir o caminho dos países do Leste europeu que aderiram à União Européia. E, justamente por ser um país de predominância do islamismo como religião, há uma certa rejeição na Europa a esse ingresso. O que no atual contexto até é bom para Turquia que haja uma certa espera, porque países que aderiram ao euro, como Grécia, Espanha, Portual, Irlanda – e que eram tidos como exemplos de crescimento -, estão enfrentando profunda crise. E a Turquia, que negocia com três moedas – lira, dólar e euro – pode receber gente de qualquer parte do mundo para movimentar o seu intenso comércio. A solidez deste comércio se pode avaliar ao ver o extraordinário número de navios atracados no porto de Istambul. E se vê pulsar pelas ruas cidade e, especialmente, no Grande Bazar, fazendo jus à índole comerciante deste povo.
Mas, o que a Turquia tem em especial é a sua história milenar, refletida na cidade de Istambul, que já foi chamada de Bizâncio e de Constantinopla e, como Jerusalém, foi foco constante das lutas entre cristãos e muçulmanos. E esta história está bem presente para ser testemunhada nos seus prédios, cujas construções remontam não só àquela época, mas até o período dos romanos. É a história viva.