Esta uma semana passada aqui nos Estados Unidos permitiu perceber que o país está se recuperando, depois do abalo da crise de 2008-2009. Mas é uma recuperação lenta, 1,2% foi o crescimento no ano que passou. O que demandará muito tempo para recuperar o ritmo pré-crise. Este país que é maior potência do mundo tem um PIB de US$ 14 trilhões, mas está se vendo ameaçado pela segunda potência, que tem um PIB bem inferior: US$ 1,33 trilhão. Mas esta segunda potência, a China, vem num crescimento extraordinário. Ao longo desta década, foi gradativamente passando a Alemanha, a França e o Reino Unido. Em setembro último passou o Japão e colocou-se como a segunda economia do mundo. Seu crescimento segue sendo de estupendos 10% ao ano. E assim, segundo avaliação do Instituto Peterson de Economia Internacional, em 2030 vai ocupar o lugar dos EUA.
Reagir frente a esta situação é o grande desafio que se apresenta para os norte-americanos que, como os cidadãos das outras partes do mundo, vêem o seu país ser inundado por produtos chineses, ameaçando a sua indústria local. A mudança nessa situação poderia se dar pela valorização do yuang. Porém, por mais pressão que faça o governo americano, se percebe que isto está fora de cogitação. Além disto, há um outro aspecto nesta conflituosa relação entre EUA e China: o governo chinês é o maior credor dos EUA, pois já comprou cerca de US$ 1 trilhão em títulos da dívida pública americana.
Na visita que realiza, o presidente da China Hu Jintao disse que quer incrementar a balança comercial entre a China e os EUA. Mas o consenso entre os americanos é de que um rearranjo na balança comercial passa pela criação de mais empregos nos EUA. Isto, inclusive, é o que está defendendo o jornal “The Washington Post” na sua edição desta quarta-feira. Em artigo assinado por John Promfet, o jornal destaca que até 2007 não houve grande progressos nas relações comerciais entre os dois países, porém, em 2008, as companhias chinesas investiram cerca de US$ 5 bilhões nos EUA, enquanto que as empresas americanas investiram US$ 50 bilhões na China, dando emprego a milhares de trabalhadores chineses. Porém, desde 2009 os investimentos chineses nos EUA cresceram 150%, chegando a US$ 12 bilhões, empregando ao menos 10 mil americanos. E é justamente este o objetivo do presidente Barack Obama, fazer com que sigam crescendo os investimentos chineses em seu país. Afinal, o que ele mais precisa é diminuir a taxa de desemprego, que está em 9,6%. Uma das mais altas da história recente do país. Hu Jintao não desperdiçou a oportunidade para dar um alento nesta mudança. Anunciou a compra de 200 aviões Boeing, no valor de US$ 19 bilhões, que segundo o Departamento de Comércio deve gerar, numa reação em cadeia, 235 mil empregos nos EUA.
Na área política, China e EUA tem posições divergentes. A começar pelas questões relacionadas aos direitos humanos, passando por Tibete, Taiwan e as questões nucleares da Coréia do Norte e do Irã. Obama fez cobranças nesse sentido e Hu Jintao disse que a China fez grandes progressos no que toca aos direitos humanos. Tudo isto, de ambas as partes, para dourar a pílula. Não há interesse em aprofundar esses assuntos. O foco é o comércio. E neste ponto sim, ambos querem ir à frente. Um de olho no mercado do outro. E o mercado interno chinês, segundo previsões do Deparamento de Comércio americano, chegará logo a US$ 2 trilhões. Assim, antes de serem engulidos pela China, os EUA tentarão abocanhar este enorme mercado chinês. Aliás, este crescimento do mercado interno chinês está inserido no que Dominic Burton, presidente da Consultoria McKinsey, define como a quarta era de desenvolvimento capitalista da China, a qual começou a ser concebida depois da crise financeira de 2008, quando os chineses perceberam que não poderiam depender do mercado consumidor americano. Daí passaram a incentivar o consumo doméstico, que hoje equivale a 35% do PIB, mas que deve chegar logo aos 40%.
Este é o cenário que se estende deste encontro, que foi o principal evento que tive oportunidade de acompanhar esta semana aqui em Washington.