Ao tempo de Lula o Brasil foi um aliado incondicional do Irã, chegando a negociar, junto com a Turquia, em 2010, um acordo com o Ocidente a respeito do programa nuclear iraniano. Acordo que não vingou, embora os negociadores tenham seguido as diretrizes traçadas por Obama. Dilma Roussef, antes de assumir já se posicionou contra a abstenção que o Brasil teve na ONU quanto à aplicação de sanções contra Teerã. Já no cargo, Dilma fez críticas diretas ao governo iraniano por ter condenado uma mulher à morte por pedradas e votou na ONU a favor de investigações por parte da Comissão de Direitos Humanos. Desde então as relações entre os dois países esfriaram. Porém, nesta semana, a presidente brasileira aproveitou o palco da reunião dos Brics, em Nova Delhi, para fazer um pronunciamento enfático em termos de política externa, referindo-se às questões do Oriente Médio. Disse ela: “A indiscriminada utilização de sanções econômicas e sobretudo de ações militares no Oriente Médio, unilaterais ou ao arrepio do Direito Internacional, tem produzido uma deterioração da situação que pretendiam resolver”.
Embora não citando explicitamente, a crítica é direcionada aos Estados Unidos e seus aliados da Europa, que têm aprovado sanções contra Teerã, e para Israel, que tem manifestado o expresso desejo de bombardear as instalações nucleares do Irã. Pode-se colocar nesta última ainda os EUA, pois Obama declarou que, no caso iraniano, “todas as opções estão sobre a mesa”. Embora se saiba que a declaração de Obama é muito mais para efeitos eleitorais do que para realização na prática. Tanto que, por duas vezes, ele negou apoio ao primeiro-ministro israelense Benyamin Netanyahu para deflagrar o ataque ao Irã. Dilma defendeu o direito de o Irã ter o seu programa nuclear para fins pacíficos e afirmou que a questão deve ser resolvida através do diálogo. Quanto ao direito do Irã, este é inegável, porque o país é signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear. O problema do país, no entanto, é não abrir suas instalações para o acompanhamento dos inspetores da Agência Internacional de Energia Nuclear, que é organismo da ONU encarregado do assunto. Na medida em que dificulta este acesso, o Irã dá razão aos seus críticos. Isto, no entanto, na visão de Dilma, não pode ser fator a inibir o diálogo. Já na visão de Obama, é suficiente para a adoção de sanções econômicas, para forçar o diálogo. Assim, enquanto na quarta-feira Dilma fazia seu pronunciamento em Nova Delhi, na sexta-feira, Obama anunciava sua aprovação às sanções aplicadas por países europeus ao petróleo iraniano.
Ao assumir uma posição mais incisiva na questão do Irã, Dilma está seguindo os conselho do sub-secretário de Estado dos EUA para a América Latina, Arturo Valenzuela, o qual disse que o Brasil deveria ter um papel mais efetivo no Oriente Médio. Para onde, aliás, o Brasil mandou um navio, para patrulhar a costa do Líbano. Só que a posição brasileira agora choca-se com o discurso de Obama. E a ocasião para diminuir ou ampliar estas diferenças será nos próximos dias, quando Dilma estará em visita a Washington.