Um fato que embora tenha passado quase despercebido pela imprensa brasileira, se constitui num marco de mudança da política externa do Brasil. Refiro-me à recepção que a representação brasileira perante o Comitê dos Direitos Humanos da ONU ofereceu, nesta segunda-feira, em Genebra, à dissidente iraniana Shirin Ebadi, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz e que atualmente está refugiada na Europa. Como ela é perseguida pelo governo de Mahmoud Ahmadinejad, o fato de o governo brasileiro ter a recepcionada, se constitui numa explícita declaração brasileira de repúdio aos procedimentos de Teerã. O que significa uma mudança de 180 graus na política externa brasileira para com o Irã. Sob Lula, havia uma ligação fraternal com Ahmadinejad, com visitas recíprocas. A ponto de Lula dizer que a manifestação da oposição iraniana, denunciando fraude na eleição, era choro de perdedor. Embora o mundo todo tivesse se compadecido com a iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento, Lula nunca se solidarizou com as manifestações. E ainda votou a favor do Irã no Conselho de Segurança da ONU, quando este estabeleceu sanções ao governo de Teerã. Dilma Rousseff condenou este voto brasileiro antes de assumir a presidência. Agora, no cargo, toma uma atitude que difere completamente da que era adotada por Lula. Deixa claro que as relações entre Brasília e Teerã não são mais as mesmas.