A presidente Dilma Rousseff chega à China nesta segunda-feira acompanhada de uma comitiva de cerca de 300 empresários. Na avaliação do Itamaraty é a primeira grande viagem ao exterior. E não é para menos. Hoje a China é o maior comprador de produtos brasileiros, é o maior investidor em nosso país, mas também é o nosso maior concorrente no mercado internacional. Nosso comércio bilateral saltou de US$ 2 bilhões no ano 2000 para US$ 56 bilhões em 2010. Um saldo de US$ 5,2 bilhões a favor do Brasil. Mas, em compensação, fatias imensas de nossos mercados nos EUA e Europa, avaliadas em US$ 15 bilhões, foram tiradas pelos chineses.
Hoje, vendemos para os chineses matéria prima e compramos produtos acabados. Os chineses discriminam nossos produtos de maior valor agregado. Assim como também dificultam a ação de empresas brasileiras dentro de seu país. Caso mais específico o da Embraer que está vendo ser empurrada com a barriga a autorização para a fabricação de seus aviões em território chinês. Uma cobrança que os chineses fazem ao Brasil é referente à oficialização do reconhecimento da China como uma economia de mercado. O Itamaraty, por sua vez, também vem empurrando com a barriga a decisão, em respaldo ao empresariado brasileiro. Este é um trunfo que Dilma conta nas negociações.
NÚMEROS
Não se pode esquecer que tudo na China envolve números muito maiores do que outras partes do mundo. Sua população, por exemplo, é de 1,3 bilhão de habitantes. Desde que começou sua expansão, nos anos 80, o país já conseguiu tirar da pobreza 400 milhões de cidadãos. Apesar disto, há outros tantos ainda estão na situação de pobreza. O país cresceu a uma média de 10% na última década, mas precisa manter este desempenho para atender os desempregados e o contingente de jovens que entra anualmente no mercado. Daí os investimentos, com planos a médio prazo de dar inveja ao Brasil. Até 2025, o país, que já tem uma excelente infraestrutura, construirá 28 mil quilômetros de trilhos de metrô; 5 milhões de edifícios, o que equivale a 40 bilhões de metros quadrados de área construída. E ainda serão pavimentados 5 bilhões de metros quadrados de estradas.
IDEÓLOGO
Ninguém tem dúvida de que a China é hoje uma potência mundial, pois já se tornou a segunda economia do planeta. Esse crescimento da China, com seus profundos contrastes, se deve em boa parte a uma figura marcante de fins do século XX: Deng Xiao-ping. A propósito, a sua biografia foi divulgada através de um trabalho do americano Michel E. Marti, que é doutor em História da China. Trabalho esse que resultou no livro “A China de Deng Xiao ping”, lançado no Brasil pela editora Nova Fronteira, com tradução de Antônio Sepúlveda.
Através do livro se pode entender porque a China deu este salto de qualidade: graças à pertinácia desse homem, de pequena estatura, que foi duas vezes afastado do poder, em 1965 e em 1976, mas que conseguiu voltar com força e determinação em 1978. E quando estabilizou-se no poder, implantou a sua máxima: “não importa se o gato é branco ou preto, contando que pegue os ratos”. Ou seja, com suas reformas ele queria que o país chegasse ao crescimento, não importando se sob o socialismo ou o capitalismo. Pois, o que ele conseguiu implantar é o que caracteriza a China hoje: um governo forte, longe da democracia, mas que promoveu a abertura ao capitalismo de importantes setores da economia, promovendo o crescimento do país, embora ainda esteja em meio a múltiplos contrastes.
A maior prioridade do Partido Comunista Chinês continua sendo o crescimento econômico, mas dando atenção às fissuras sociais. Para isto, o país está tentando duplicar a renda per cápita do país. Este foi o ponto básico do discurso do presidente Hu Jintao, no último Congresso do PCC, em Pequim. Curioso que, enquanto o partido dita as normas internas, buscando preservar os ditames comunistas, empresários chineses saem mundo afora fazendo sociedades e comprando empresas, no mais puro estilo capitalista, como estão fazendo agora no Brasil, onde já se tornaram os maiores investidores externos.