9Artigo publicado no Correio do Povo de domingo, 31/01/10)
A crise em Honduras, que eclodiu a 26 de junho com a deposição do presidente Manuel Zelaya, chegou ao seu final nesta quarta-feira com a posse de Porfírio Lobo na presidência. Ele que foi eleito pelo voto universal, em eleição limpa, conforme comprovado pelos observadores da OEA, realizada a 29 de novembro. Num gesto de grandeza, Lobo foi até o prédio da embaixada do Brasil para acompanhar Zelaya em seu caminho para o aeroporto, de onde partiu para o exílio. Buscando pacificar o país e evitar o revanchismo, Lobo concedeu anistia também para o presidente golpista Roberto Micheletti, para os militares que deportaram o presidente deposto e para todos os demais envolvidos no episódio.
Diante desses fatos, caberá ao governo brasileiro rever a sua posição de não aceitar o governo de Porfírio Lobo. Vale salientar que o Brasil teve um papel importante no processo hondurenho. Só que, esteve certo no início ao condenar o golpe e exigir a volta de Zelaya ao poder. Mas errou depois ao radicalizar sua posição, quando os fatos levaram não à volta de Zelaya, mas à eleição livre de um novo presidente. Por ora, segundo chanceler Celso Amorim, o Brasil não muda de posição, mas, com o tempo, não restará outra alternativa do que reconhecer o governante que pos fim à crise e tem demonstrado muita moderação.
É o mínimo que se espera da diplomacia brasileira que, em meio a seus descaminhos, cometeu a gafe de propugnar a volta de Cuba à OEA, esta sim, uma verdadeira ditadura. Mas a nossa diplomacia também tem calado diante do autoritarismo de Chávez. Seria bom lembrar que para um país fazer parte do Mercosul precisa preservar a democracia, onde se inclui a livre imprensa. O que não acontece na Venezuela. Tampouco houve até agora qualquer manifestação do Brasil condenando as execuções de opositores no Irã. É bem verdade que, ao ser indagado pela imprensa brasileira, o chanceler Celso Amorim disse que o governo brasileiro condena a pena de morte, ainda mais quando aplicada por motivos políticos. Isto, no entanto, é para o âmbito interno. Não houve uma manifestação de governo para governo.
É bem verdade também, que o governo brasileiro tem que ir devagar com o Irã, tendo em vista o papel que lhe foi atribuído pelos EUA de mediador na questão nuclear iraniana. A propósito, o novo embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon, ao conceder uma entrevista em Washington, disse que o seu país estava agradecido aos brasileiros por terem transmitido ao Irã as preocupações da comunidade internacional com a falta de transparência do programa nuclear de Teerã. Foi a mais positiva manifestação vinda do governo Obama, desde o encontro dos presidentes Lula e Ahmadinejad, em novembro. Coincidentemente, o chanceler iraniano Manoucher Mottaki apresentou nesta quinta-feira ao seu colega Celso Amorim o que chamou de “novas idéias” para o envio ao exterior de urânio do Irã para ser enriquecido. Este enriquecimento do urânio na França ou na Rússia, é o caminho defendido pelo Ocidente, como forma de evitar que o regime dos aiatolás elabore o produto ao ponto de produzir a bomba atômica.
Resta ver se esta é uma proposta séria ou se é apenas uma artimanha para enconbrir o absurdo fato de o Irã ter condenado à morte 11 opositores do regime e de já ter executado dois deles.