De todos os candidatos que se manifestaram no encerramento da campanha com vistas às eleições deste domingo, talvez o ex-presidente Eduardo Duhalde tenha sido aquele que expressou a maior realidade. Ele disse que o governo “dança alegremente sobre o Titanic” e que “já não se tolera o discurso oficial que nos pinta como um país maravilhoso”. De fato, o governo de Cristina Fernandes de Kirchner tem maquilado muitos dados da economia, especialmente, os da inflação. Esta, segundo o governo, é de 8%. Mas, segundo organismos independentes de pesquisa, é de 25%. É notório o caso de Graciela Bevacqua, que comandava o Indec, o IBGE argentino, e que, por se negar a maquiar a inflação, acabou sendo forçada a pedir demissão. Foi então trabalhar com os dados inflacionários na Universidade de Buenos Aires e, pelo atrevimento, recebeu uma multa equivalente a 500 mil reais.
Dois fatores têm contribuído para o aumento da inflação: o aumento da carga tributária e a emissão de dinheiro. Ações decorrentes do aumento dos gastos do governo com programas semelhantes a outros implantados no Brasil e na Venezuela. Do Brasil, vem a cópia do Bolsa Família e da Venezuela de Hugo Chávez vem os “Mercados Concentrados”, onde carne e peixe são vendidos por um terço do valor de mercado. Ainda são cumputados nas contas do governo os subsídios concedidos nas contas de luz e de água e nas passagens de ônibus e de metrô. Hoje, um em cada quatro argentinos recebe ajuda governamental. Este fato, somado ao passionalismo argentino, que adora reverenciar mortos, como também um tango-tragédia, o fato de Cristina se tornar viúva se constituiu em mais um fator a impulsionar sua candidatura.
A Argentina está nas pegadas do Brasil em termos de arrecadação tributária. Segundo o jornal La Nación, a taxa paga pelos argentinos, que era o equivalente a 22,4% do PIB no ano 2000, chegou em 2010 a 33,6% do PIB. Isto significa que os hermanos têm que trabalhar 83 por ano para pagar os seus impostos. E o país passou do 15º posto entre os arrecadadores para o 10º. Os dados foram levantados pelo Instituto Argentino de Análise Fiscal em colaboração com a OCDE, Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico e a Cepal, Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe. Os fatores que contribuíram para essa maior arrecadação do governo são a constantemente elevada taxação sobre as exportações, o gravame sobre o cheque, que é uma espécie da nossa CPMF, e o IVA, Imposto sobre Valor Agregado, que é o imposto único pago pelos argentinos, mas que também vem subindo continuamente.
O que tem ajudado o governo, é preço alto das commodities no mercado internacional. Aliás, um dos fatores da fazer o governo bater de frente com o setor do agronegócio, pela crescente taxa passou a impor às exportações. Bater com o agronegócio e com a imprensa que o defende, como tem sido feito com os jornais Clarín e La Nación. A propósito, tempos atrás, um batalhão de 200 agentes da Receita Federal invadiu de surpresa a sede do jornal Clarin, que vem noticiando irregularidades no governo e defendendo os produtores rurais na batalha que estão travando contra a Casa Rosada. O Clarin havia denunciado uma operação irregular de 2,5 milhões de dólares na Oncca, órgão de controle agropecuário ligado à receita federal. A fraude teria sido feita para favorecer um empresário próximo ao governo.
Outra denúncia feita no fechamento da campanha, e que também ilustra o quadro atual, partiu do candidato da Frente Ampla Progressista, Hermes Binner, o qual disse que hoje na Argentina governo, estado e partido se confundem em suas ações. Considerando que, além da vitória presidencial, Cristina deverá conseguir maioria na Câmara e no Senado, pode-se imaginar com que absolulismo irá governar.