Só para se ter uma ideia de quão convulsionada está a situação política da Espanha, cito o fato de que para ir até a Câmara Federal ontem, os deputados tiveram que ser escoltados por 1600 policiais. Isto se dá diante de um impasse que se estabeleceu para a formação de uma coalizão que dê sustentação a um novo governo. Este impasse vem desde as eleições realizadas em julho, que puseram fim ao governo do primeiro ministro socialista Pedro Sanchez. Nas eleições para a constituição de uma nova Câmara, saiu vencedor o Partido Popular, de direita, liderado por Alberto Núñez Feijóo. Em função disto, o rei Felipe VI, em 22 de agosto, nomeou Feijóo, para formar o governo. No entanto, Feijóo não conseguiu uma aliança que lhe desse maioria no Parlamento espanhol para ser eleito primeiro-ministro. O que fez o rei indicar, a 3 de outubro, o atual primeiro ministro Pedro Sanchez, do PSOE, Partido Socialista Operário Espanhol, para formar o governo do país. Para ser eleito ao cargo de premiê novamente, Sánchez ficou no compromisso de apresentar suas propostas aos deputados espanhóis e enfrentar uma votação de confiança. Ele precisa do apoio de 176 deputados dos 350.
Para obter a maioria necessária à formação de um novo governo, Sanchez teve que negociar o apoio dos separatistas da Catalunha. Lembrando que alguns dos integrantes do partido estão presos ou com ordem de prisão devido a participação no movimento separatista da Catalunha. Eles chegaram até a realizar, em 2017, um plebiscito que foi rejeitado pela Justiça espanhola. Em decorrência aconteceram as prisões das lideranças, onde se inclui a figura do líder maior Carles Puigdemont, preso em 2021 na Itália, onde se refugiara.. Pois, para tentar alcançar o número de deputados necessário para governar, Sanchez ofereceu anistia para os deputados catalães. Era a gota que faltava para fazer o copo transbordar. A tensão se estabeleceu no país, com manifestações à direita e à esquerda. O líder do partido direitista Vox, Santiago Abascal ingressou com pedido à Suprema corte para paralisar a investidura. Algo considerado praticamente impossível. Feijóo procurou convencer a população de que a anistia aos catalães irá bloquear os investimentos estrangeiros no país. Diante deste ambiente de tensão, com múltiplas manifestações se espalhando pelo país, que os parlamentares tiveram que recorrer à proteção policial para ir ao parlamento.
Nesta quarta-feira, a polícia teve que estender barricadas em torno do prédio do Congresso para conter os manifestantes. As cercas contiveram aproximadamente 500 pessoas, a maioria delas do grupo juvenil Revuelta, do Vox, que entoavam cantos contra a imprensa, contra Pedro Sánchez e a lei de anistia. A questão chave é a legalidade da concessão de anistia para os integrantes do partido separatista Juntos pela Catalunha. A Constituição não fala em anistia, mas o Código Penal traz dois artigos que dizem apenas que, quando for aplicada, “será ordenada a soltura do réu ou réus que não estejam presos por outros motivos”. O curioso é que Sanchez se posicionou pela anistia aos separatistas catalães, mas, contra a concessão da independência para a região, que tem Barcelona como sua principal cidade. Disse ele que “há duas formas de alcançá-la: através da imposição e da tensão, ou através do diálogo e também do perdão. A anistia não será um ataque à Constituição, mas sim um sinal da sua força”. Já Feijóo invocou “o clamor das ruas como nunca se viu” para impedir a aprovação do projeto socialista. São as manobras políticas para alcançar um objetivo, o governo. A votação, para aprovação ou não da proposta de Sanchez, começou ontem no parlamento, em meio a toda a tensão e deve ser concluída ao longo desta quinta-feira. Quando então se saberá se Sanchez terá um novo mandato ou se o impasse político irá continuar.