(Artigo publicado no Correio do Povo de domingo, 24/10/10)
França e Reino Unido são as bolas da vez da crise econômica na Europa. Uma crise que já fulminou as “galinhas dos ovos de ouro” da União Européia, Espanha, Portugal e Grécia. Países que desde a década de 1990 vinham experimentando um crescimento extraordinário, mas que, de repente, foram tragados pelo dragão da recessão. Seus gastos governamentais extrapolaram em muito o limite de 3,5% do PIB, que é estabelecido pela Comunidade.
Quem também extrapolou em muito este limite é o Reino Unido, que quer reduzir, até 2015, o seu déficit, que hoje representa 10,7% do PIB, para 2%. Para isto o governo de David Cameron está colocando em prática o maior corte no orçamento da nação em 60 anos. Serão cortados 490 mil cargos públicos e os ministérios terão reduções orçamentárias que variam de 8% a 25%. O corte total soma 83 bilhões de libras, o que corresponde a 130 bilhões de reais. Nas Forças Armadas serão demitidos 17 mil militares, cerca de 10% do contingente, e mais 25 mil civis, de um total que hoje é de 85 mil funcionários. As compras de equipamentos foram proteladas. E já há a acusação de que o país ficará vulnerável para enfrentar os desafios externos. Bem, o governo diz que não serão afetadas as ações no Afeganistão, porém, uma ação como a do Iraque, que requereu um contingente de 45 mil soldados, não será mais possível, posto que o limite passa a ser 30 mil.
Como está tentando fazer a França, o governo do Reino Unido também pretende aumentar a data mínima da aposentadoria, passando dos atuais 65 anos para 66 anos, mas esta medida a partir de 2020. Porém, como na França, as medidas anunciadas já estão sendo alvo de intensos protestos. Protestos que tendem a aumentar. Mas tanto a situação da França quanto a do Reino Unido refletem uma realidade da Europa: governos, empresas e famílias estão grandemente endividados. Não é sem razão que até a família real vai ter o seu orçamento cortado.
Na França, o presidente Nicolas Sarkozy estabeleceu uma queda de braço com as organizações sindicais para mudar o sistema da Previdência. Resultado: greves, que prejudicaram os transportes aéreos e terrestres, bloqueio no fornecimento de combustível e contenção na distribuição de produtos, inclusive de medicamentos. Somando-se ainda os distúrbios, com queima de veículos, quebradeira de vitrines e saques a lojas. Vale lembrar que o atual sistema previdenciário francês, adotado em 1983, estabelece a idade mínima para aposentadoria aos 60 anos, o que é uma das menores idades de aposentadoria de toda a Europa. O projeto é passar para 62, a partir de 2018, havendo exceções para as chamadas profissões de risco. A lei também prevê aumentar de 65 para 67 anos a idade para aposentadoria integral, com 100% dos rendimentos, além de 41 anos obrigatórios de contribuição. O ministro do Trabalho da França Eric Woerth fez algumas ponderações consideráveis para justificar a mudança. Disse ele que de 1960 para cá os franceses ganharam 15 anos de vida. O que é verdade. Houve um aumento significativo da expectativa de vida. Ou seja, as pessoas podem, tranquilamente, ir mais longe trabalhando. Além disto, alerta o ministro, houve uma degradação do mercado de trabalho. O emprego está muito mais escasso. Somam-se ainda as baixas taxas de natalidade, o que deixa cada vez menos pessoas na ativa para gerar renda que ajude a pagar os aposentados. É uma relação matemática que precisa ser levada em conta.
Enfim, o que se vê na Europa são os governos apertando o cinto para conter o déficit, enquanto que nos EUA o governo segue apostando num endividamento ainda maior para gerar a recuperação do país. Resta ver qual das medidas dará certo. A certeza que se tem hoje é de que o Primeiro Mundo está em crise.