(artigo publicdo na edição de domingo, 21/10 do Correio do Povo) O Mundo já enfrentou duas grandes guerras e estão muito presentes o grau de fanatismo de determinadas lideranças que levaram aos conflitos e o dano que os mesmos causaram à humanidade. Pois agora o presidente George Bush vem falar em possibilidade de uma Terceira Guerra. E dá como causador o Irã. Não! O causador não seria o Irã, mas ele, George Bush, que depois de Bin Laden é a liderança mais nefasta para o planeta que surgiu nos últimos tempos. Basta ver o número de mortos no Iraque e o que acontece para a Terra em virtude de sua decisão de não assinar o Protocolo de Kyoto, entre outras coisas.
É certo que tem que se evitar que o regime dos aiatolás venha a produzir uma bomba atômica. Mas não se pode agir como Bush, que contesta o programa nuclear iraniano, o qual Teerã diz que é para fins exclusivos de geração de energia, e firma um acordo de apoio ao programa nuclear da Índia que, é do conhecimento geral, até já testou a bomba atômica.
A questão do programa nuclear iraniano foi abordada com muita propriedade por Lee H. Hamilton, que é deputado há 34 anos e que é presidente do Woodrow Wilson International Center for Scholars, organismo sediado em Washinton. Ele também é co-presidente, junto com o ex-secretário de Estado James Baker, do Grupo de Estudos do Iraque. Ele entende que a questão Irã tem três alternativas: aquiescência, ação militar e negociação. Aquiescência não há. Não é do interesse do mundo ter mais um país do conturbado Oriente Médio com a bomba atômica. A ação militar é sempre o último recurso. Como diz o general Klausewitz, “a guerra é a extensão da política”. Então, antes de chegar à guerra é preciso desenvolver a atividade política. E a pergunta é se existe ainda tempo para essa atividade. Segundo Hamilton, o Irã precisará ainda de seis a oito anos para produzir uma bomba nuclear, havendo, portanto, tempo suficiente para a negociação.
Diplomacia, diz Hamilton, exige uma dose de flexibilidade estratégica de todas as partes à mesa. Assim como devemos evitar ações de retórica que nos tolham ou limitem nossas opções em nosso relacionamento com o Irã, não devemos encurralar Teerã. Precisamos assegurar alternativas a uma escalada para que o conflito militar não pareça inevitável.
O presidente russo Vladimir Putin deve ter lido o artigo de Hamilton e partiu para o ataque. Segundo o jornal de The New York Times, a visita de Putin a Teerã é vista por diplomatas europeus como uma tentativa de Moscou de assumir algum tipo de papel diplomático na questão nuclear. O periódico lembra ainda que, apesar da posição pró-iraniana que Putin assumiu, a Rússia está, desde o começo deste ano, atrasando os trabalhos no reator de Busher e adiando sua conclusão. Os russos alegam que o Irã não está em dia com a quitação da dívida para a construção da instalação, mas Teerã nega, afirmando que a posição da Rússia tem motivação política.
Acontece que Putin quer convencer Ahmadinejad a cooperar com a Agência Internacional de Energia Atômica. Afinal, o Irã é signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear e, como tal, tem direito a desenvolver programa nuclear com fins pacíficos. Mas essa constatação só pode ser feita pela agência fiscalizadora da ONU. Se Putin conseguir êxito nessa missão, terá dado um passo significativo no terreno da diplomacia com o Irã, onde o Ocidente patinou. E terá dado assim, um grande passo para se firmar como líder mundial.
É por isto que criticou com veemência a determinação de Bush em atacar o Irã. Essa posição absolutista de Bush, aliás, começa a encontrar contraponto em Moscou. Putin está demonstrando ao mundo que está numa cruzada para recuperar o prestígio que a Rússia perdeu com o fim da União Soviética. E, nesse sentido, passou dois recados a Bush: fixar um prazo para sair do Iraque e desistir da instalação de sistemas de antimísseis na Europa.
Como se vê, a retórica do período da Guerra Fria está voltando aos poucos. Ainda bem que Bush está em fim de mandato.