O fantasma do golpe de Estado está de volta à América Latina. Este nefasto tipo de atitude, que se julgava estivesse banido do continente, voltou em Honduras. Mostra a fragilidade de nossas instituições, que se tornam mais débeis quando tem à frente do governo figura como o presidente de Honduras Manuel Zelaya. Trata-se de mais um neoesquerdista, da linha de Hugo Chávez e Evo Morales que, como eles, queria mudar a Constituição para seguir no poder.
Contraponde-se à diversas instituições, Zelaya queria realizar neste domingo uma consulta popular para abrir caminho a uma futura Assembleia Constituinte. Para seus críticos, o presidente, cujo mandato termina em janeiro, buscaria aprovar a reeleição, vetada pela Carta vigente. A consulta foi considerada ilegal pelo Ministério Público e pelas autoridades eleitorais. Mesmo assim, Zelaya seguiu com sua determinação de realizar a consulta. O general Romeo Vásquez, comandante do Estado Maior das Forças Armadas, se recusou a prestar apoio logístico a dita consulta. Zelaya seguiu em frente com sua determinação e demitiu Vásquez pela insubordinação. O problema é que a demissão foi revertida pela Corte Suprema. O presidente, primeiro, prometeu manter a destituição, mas, aparentemente, viu-se sem controle sobre as Forças do país, e reverteu a decisão, dizendo que Vásquez continuava no posto. Mas já era tarde. Ele é que não continuava mais no posto. Segundo as informações procedentes de Tegucigalpa, Zelaya foi sequestrado e expulso para a Costa Rica, de onde teria seguido para a Nicarágua.
Quem assumiu a presidência da República foi o presidente do Congresso Roberto Micheletti, o qual defendeu a legalidade da transição. Disse que o ato foi democrático e que o Exército apenas cumpriu o que determinou a Corte de Justiça. Ele deve ocupar a presidência até 27 de janeiro de 2010, data prevista para o término do mandato de Zelaya. Ou seja, na visão dos que colocar Micheletti no poder, não houve golpe.
AÇÕES CONSAGRAM DITADURA
Se havia alguma dúvida com relação ao golpe de Estado em Honduras esta se dissipou com a decisão do novo governo de fechar as emissoras de rádio e de TV que lhe fazem oposição. Como nas ditaduras, só funciona a imprensa que é favorável ao novo regime. Até mesmo emissoras estrangeiras como a CNN em espanhol e a venezuelana Telesur tiveram o seu sinal cortado. Emissoras de rádio que insistiram em condenar o golpe foram invadidas por tropas militares, segundo os informes das agências noticiosas.
O Comitê para a Proteção dos Jornalistas e Sociedade Interamericana de Imprensa já formalizaram seus protestos ao governo do presidente Roberto Micheletti. A propósito, Micheletti, que era presidente do Congresso teve a coragem de dizer que a sua posse foi um ato democrático.
É certo que o deposto presidente Manuel Zelaya pisou na bola ao insistir com a consulta popular que queria realizar neste domingo que passou. Ele já havia tido a recusa do Supremo Tribunal Eleitoral e do Ministério Público, e mesmo assim quis ir adiante com a consulta. Sua falta de noção da realidade chegou ao extremo quando perdeu o apoio do comandante do Estado Maior das Forças Armadas e, mesmo assim, quis seguir com o plebiscito. Quis bater contra todos e nãose deu conta de que estava ficando sozinho.
Nada disto, no entanto, justifica o ato de tirá-lo à força do poder. Pode-se não concordar com nada do que ele fez, assim como se pode contestar suas idéias esquerdistas ao estilo de Chávez. Mas não se pode negar que ele foi eleito pelo voto popular e só um processo de impeachment poderia derrubá-lo do poder.
Assim, só resta aos países da região isolar o novo governo hondurenho, até que a democracia seja reestabelecida no país.