A preocupação com sua segurança que despontou em Israel quando da deposição de Hosni Mubarak no Egito, cada vez se acentua mais. E se torna justificada a partir dos acontecimentos desta quinta-feira no sul do país, quando uma série de atentados deixou oito israelenses mortos e cerca de 40 feridos. Os ataques expuseram alguns fatores importantes: a vulnerabilidade da fronteira de Israel com o Egito, decorrência da falta de cuidado (forçada ou voluntária?) do atual governo egípcio com a Península do Sinai; a extensão para a região da ação terrorista da Al Qaeda, a partir de sua base no Iêmen; e a comprovação de que existem grupos mais radicais do que o Hamas. Tanto que o Hamas afirmou que não estava por trás do atentado, embora o tivesse apoiado, por ter sido desfechado contra militares.
Desde a assinatura do tradado de paz com o Egito, em 1979, Israel desfrutou de segurança na sua fronteira com aquele país. Pelo lado egípcio o tratado fora assinado por Anuar Sadat, que pagou com sua vida, dois anos depois, assassinado por fundamentalistas islâmicos. Seguramente, da mesma linhagem dos que estão agindo agora. Hosni Mubarak, que sucedeu Sadat, honrou o acordo durante os 30 anos em que esteve no poder. Aliás, pelo acordo Israel devolveu ao Egito a Península do Sinai, que havia tomado por ocasião da Guerra dos Seis Dias de 1967, assim como tomou também as áreas palestinas da Cisjordânia, da Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental, além das Colinas de Golan, tomadas à Síria. A propósito, além da fronteira com o Egito, todas essas áreas tomadas são motivo de preocupação hoje para Israel.
A Síria, por algum tempo, reivindicou a devolução das Colinas de Golan. Israel não só negou, como conseguiu deixar o assunto em banho Maria. O temor vem agora, com a possível desestabilidade do governo de Bashar al Assad. Se ele cair, pode assumir um governo fundamentalista islâmico, ao estilo do Irã. Isto não só traria à tona novamente a questão de Golan, como provocaria um desequilíbrio geopolítico na região, aumentando as preocupações de Israel com sua segurança. Nos últimos meses, vários incidentes com mortes foram registrados na fronteira sírio-israelense.
A Faixa de Gaza Israel resolveu deixar unilateralmente, cinco anos atrás. A pequena área, onde vivem 1,5 milhão de palestinos, passou para o controle absoluto da facção radical Hamas, depois que esta expulsou dali o grupo moderado Fatah. Este está concentrado na Cisjordânia, área sob ocupação de Israel, mas onde os palestinos têm autonomia para muitas coisas, como administração, polícia, saúde, educação, etc. Os árabes palestinos são maioria também em Jerusalém Oriental, ou seja, a parte antiga da cidade. Ali eles querem estabelecer a capital do Estado da Palestina. Israel já declarou que Jerusalém é sua capital indivisível. Esta é, sem dúvida, a questão mais complexa a ser resolvida nesse processo que busca a constituição de dois estados, de Israel e da Palestina, convivendo com fronteiras determinadas. Questão que passa pelo cumprimento ou não do preceito que estabelece o retorno de Israel às fronteiras de 1967. Nesse aspecto, há também a questão dos assentamentos israelenses nos territórios palestinos. Tanto em Jerusalém como em outras partes da Cisjordânia.
A propósito, no início deste mês os EUA criticaram a decisão de Israel de construir mais 900 casas na Cisjordânia. Vale lembrar que a Cisjordânia é a área de predominância palestina e que está prevista para fazer parte do futuro Estado Palestino. Ao construir casas nessa área, Israel está indo contra os que defendem um acordo de paz entre israelenses e palestinos, onde se incluem aí EUA, União Européia e Liga Árabe. Aliás todos que condenaram a ação israelense. O fato é que Israel deveria é estar desativando os assentamentos judaicos estabelecidos em territórios palestinos, para facilitar o encaminhamento de um acordo. No entanto, está fazendo o contrário. Com isto, acaba dando força para a mobilização que os palestinos pretendem fazer em setembro na ONU, quando irão reivindicar a constituição do seu Estado. Algo que, seguramente, irá receber aprovação da maioria. Israel tem se mobilizado para tentar evitar essa aprovação. Tem mandado emissários pelo mundo, inclusive para o Brasil. Porém, o Itamaraty já deixou claro que o Brasil vai votar pela aprovação do Estado palestino. Para participar da Assembléia da ONU, Israel já decidiu mandar o presidente Shimon Peres que, ao contrário do primeiro-ministro Benyamin Netanyahu, goza de prestígio internacional. No entanto, mesmo que tenha o veto dos EUA, o Estado palestino será arrancado a fórceps, assim como o foi Kosovo, extraído da Sérvia. E desta forma, mesmo que Israel não queira, estará diante de uma nova realidade. E por essa nova realidade, qualquer ação que fizer em território palestino será interpretada, de acordo com o Tratado de Roma, como uma interferência em terras alheias. Assim, hoje o governo israelense está tendo que administrar as questões de segurança em suas fronteiras, enfrentar uma complexa situação política com os palestinos na ONU e tendo ainda que acalmar a própria população israelense, que tem saído às ruas para protestar contra a alta do custo de vida e, em especial, das residências.