– j.soares@cpovo.net –
Ficou-se sabendo esta semana que a “guerra das papeleiras” – disputa travada entre Argentina e Uruguai em torno da instalação de uma planta de celulose às margens do rio Uruguai – poderia ter-se tornado uma guerra convencional. A revelação é do ex-presidente uruguaio Tabaré Vasquez e lhe custou uma declaração de afastamento da vida pública. Tudo porque ninguém imaginava que o conflito, de razões basicamente ambientais, pudesse degenerar numa ação bélica. Muito embora os argentinos, contrários à instalação da planta, tenham bloqueado por cerca de três anos duas pontes que ligam os dois países, causando prejuízos financeiros ao Uruguai. Só que, o funcionamento da fábrica, cuja instalação foi em frente, fez a economia do Uruguai dar um salto extraordinário, com um crescimento de 11% em 2010.
Ao falar esta semana para estudantes, Tabaré revelou que chegou a ir a Washington e pedir ajuda a George Bush e Condoleezza Rice para o caso de um enfrentamento militar com a Argentina. Algo impensável hoje, com os dois países vizinhos vivendo sob regime democrático. No início dos anos 80 quase tivemos uma guerra entre Argentina e Chile por causa de três minúsculas ilhas situadas no Canal de Beagle, no extremo sul do continente. Mas, naquele tempo viviam os dois países sob ditaduras militares, que perdiam fôlego e queriam usar uma causa de união nacional para permanecer no poder. Uma mediação do rei da Espanha evitou o conflito. Assim como a “guerra das papeleiras” acabou com a decisão do Tribunal Internacional de Haia. Naquela ocasião, no entanto, os militares argentinos arrumaram um outro pretexto para ir à guerra: a questão das Malvinas. E deu no que deu: um desastre para a Argentina. Mas, como do limão se faz a limonada, a derrota militar para a Inglaterra significou o fim da ditadura na Argentina e o restabelecimento da democracia.
E é sob os princípios democráticos que se espera que os nossos governantes conduzam as relações regionais. E não apelando para a guerra, como cogitou Tabaré Vasquez. Aliás, naquela confrontação entre Argentina e Uruguai é preciso ressaltar o fracasso da diplomacia brasileira. Como membro maior do Mercosul e presidente do bloco que foi sob o governo Lula, o Brasil tinha a obrigação de mediar o conflito, mas não fez nada. Lula não soube usar o seu poder de negociação e o seu carisma neste caso.
Não houve guerra, mas seguimos tendo guerrilha na região. Embora o Sendero Luminoso tenha sido praticamente exterminado no Peru e as Farc estejam altamente debilitadas na Colômbia, desponta na vizinhança o Exército do Povo do Paraguai, o EPP. Mais um grupo ligado ao narcotráfico e com atuação nos departamentos de Concepción e San Pedro, onde o presidente Fernando Lugo decretou estado de emergência por 60 dias, para permitir a intervenção militar. Esses anacrônicos movimentos de guerrilha também não se coadunam com os tempos em que vivemos. Nas décadas de 60 e 70, predominavam as ditaduras militares na América Latina e então tínhamos a combatê-las as guerrilhas de esquerda, sustentadas então por União Soviética ou China. Hoje, a União Soviética já nem existe mais, a China aderiu à economia de mercado e, o principal, vivemos na região sob regimes democráticos. Regimes que permitiram ascender à presidência, no Brasil, um operário oriundo do sertão de Pernambuco, e na Bolívia, um aimará, nativo dos Altiplanos, entre outros. Assim, guerrilha hoje é algo tão fora do contexto como as idéias que predominavam nos anos 70.