(Artigo publicado no Correio do Povo de domingo, 27/06)
O presidente Barack Obama viu-se na obrigação de demitir o general americano Stanley McChrystal, que comandava as forças da Otan no Afeganistão. Tudo por causa de uma entrevista do general à revista Rolling Stone, onde ele disse que considerava Obama “despreparado e intimidado”. E mais: considerava o general Jim Jones, assessor de Segurança Nacional, “um palhaço” e o vice-presidente Joe Biden “um incômodo”. Ou seja, com todo esse desrespeito, não havia outra alternativa para Obama do que demitir o comandante.
A grande indagação que ficou é sobre o motivo que levou o general a fazer esse tipo de manifestação que, se tornava evidente, o levaria à demissão. O mais provável é que tenha provocada a demissão por não ver perspectiva de sucesso na missão no Afeganistão. O que é um fato. Quando assumiu o poder, o presidente Obama pretendia encerrar as atividades no Iraque e deslocar tropas para o Afeganistão, a fim de concluir a guerra que lá é travada desde 2001. Pretendia! Não conseguiu, porque a situação segue indefinida no Iraque. E no Afeganistão, apesar dele ter conseguido mandar para lá mais 25 mil soldados, a situação está piorando. Dá para se perceber pelo texto da Rolling Stone, destacando que, antes mesmo de acabar, junho já é o mês mais mortífero da guerra para soldados das forças internacionais, com 76 mortos, sendo 46 americanos. Possivelmente, foi desse cenário que McChrystal quis fugir.
Um cenário onde a tática que vem sendo empregada não está dando certo. O presidente Obama já declarou que, até fins de 2011, pretende retirar a maior parte das forças americanas que estão no Iraque e no Afeganistão. Para isto, no entanto, é preciso reverter a situação de domínio do Talibã no sul afegão. E foi com este objetivo que os EUA, com o apoio da Otan, lançaram em fevereiro uma grande ofensiva sobre Marjah, cidade de 80 mil habitantes. Uma operação dessa natureza tem alguns problemas básicos. O principal deles é que os rebeldes costumam se misturar aos civis e assim, na ofensiva, acabam morrendo muitos desses civis. O que gera a revolta da população contra as tropas que atacam a cidade. Assim, depois de derrotar os rebeldes, seria preciso tentar conquistar corações e mentes dos cidadãos afegãos. E também seria preciso promover logo em seguida uma ocupação territorial por parte de uma força policial do governo afegão, para que os soldados dos EUA e da Otan possam se retirar, ficando a área protegida contra o retorno dos rebeldes. Nada disso, no entanto, funcionou.
Outra dificuldade de Obama no Afeganistão é com a questão eleitoral. O Ocidente tentar mudar a cultura da região. O sistema eleitoral democrático como é praticado por aqui é desconhecido pelos afegãos, de acordo com Thomas H. Johnson, que é diretor do programa de Cultura e Conflitos da Escola de Pós-Graduação da Marinha dos EUA. Ele diz que no último milênio, a fonte de legitimidade política tradicional no Afeganistão era baseada em dinâmicas patriarcais e dinásticas. E isto sempre se deu com base nas etnias predominantes no país: pashtuns, tadjiques e hazaras. Johnson ressalta: “as eleições não fazem a democracia, a democracia é que faz as eleições”, destacando que os afegãos não entendem o sistema, o que favorece o argumento do Talibã, de que a democracia não oferece nada ao Afeganistão. Segundo Johnson, a única saída é tentar fortalecer os sistemas tradicionais baseados em conselhos locais, enfraquecidos desde a invasão soviética (1979-1989).
Enfim, depois de quase 10 anos de ocupação, os EUA ainda não compreenderam a realidade local.