Chega hoje ao Brasil e reúne-se amanhã com o presidente Lula o chanceler de Israel Avigdor Liberman, conhecido por sua linha dura contra os árabes israelenses e por não querer um acordo com os palestinos. Consequentemente, deveremos ter por aqui protestos, no mínimo, das comunidades árabes e palestinas. A chegada de Liberman foi antecedida de manifestação do embaixador do Irã no Brasil, Mohsen Shaterzadeh, o qual reagiu à notícia de que o governo iraniano deve ser o principal assunto do encontro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o representante do governo israelense.
Irã e Israel hoje batem de frente um com outro. E, se dependesse unicamente do governo israelense, as forças de Israel já teriam bombardeado as instalações nucleares do Irã. Não o fizeram porque não obtiveram o aval dos EUA. E não obtiveram no tempo do radical Bush. Muito menos conseguirão agora com Obama no poder, o qual está trabalhando num processo de distensão com o Irã.
No que toca ao Brasil e à América Latina de um modo geral, Israel quer aproveitar a desistência da vinda à região do presidente Mahmoud Ahmadinejad para tentar ocupar o espaço que o líder iraniando vinha conseguindo na região.
O Brasil quer manter uma posição equidistante do problema entre Israel e Irã. A intenção do Planalto é estabelecer com Teerã relações político-comerciais pragmáticas, livres de conotações ideológicas. Em 2007, o Irã foi o principal comprador de produtos brasileiros no Oriente Medio, chegando a 1,8 bilhão de dólares. Em 2008 este valor caiu 40%. O objetivo do governo brasileiro é recuperar o terreno perdido e superar o índice de 2007. Para isto, não está avaliando as questões ideológicas, mas os negócios que pode fazer.
Com Israel não é diferente. O comércio bilateral alcançou 1,5 bilhão de dólares no ano passado. O Brasil quer negócios, independentemente dos problemas de Israel com com o Irã, com os árabes e com os palestinos. Negócio é a palavra chave.
Embora negócio seja a palavra chave que o Brasil quer manter nas relações tanto com Israel como com o o Irã, as questões políticas também estão muito presentes. Tudo porque o Irã resolveu expandir suas ações para a América Latina, mantendo um boa base com a Venezuela de Hugo Chávez e buscando ampliar com o Brasil. O presidente Mahomoud Ahmadinejad já tinha até programado uma visita ao Brasil, a qual foi transferida devido ao processo eleitoral no Irã. Porém, depois de reeleito, Ahmadinejad já avisou que sua primeira visita ao exterior será ao Brasil. Israel procurou aproveitar este interstício e mandar para cá o seu chanceler Avigdor Liberman. O próprio embaixador de Israel em Brasília, Giora Becher, declarou que a visita é marcada por dois grandes objetivos: “ O primeiro é reforçar as relações bilaterais entre Israel e Brasil em todas as áreas possíveis. O segundo é o diálogo sobre as atuais questões internacionais”.
O fato é que o Brasil, além de estar se tornando um ator importante nos negócios do comércio mundial, se torna também um importante agente político. O próprio presidente americano Barack Obama, que está interessado em estabelecer um diálogo com o Irã, já manifestou-se a favor de uma interferência do Brasil visando facilitar essa aproximação. E, no que toca ao Irã, há inclusive uma diferença de enfoque entre EUA e Israel. O governo americano, como disse, quer dialogar para dissuadir o Irã de seu programa nuclear. Israel entende que este problema só pode ser resolvido pela força. Nesse ponto, já se deduz que o Brasil ficará com a posição dos EUA. Também no que toca às relações de Israel com os palestinos há também diferenças com os EUA.
Mas, de qualquer forma, há muito que avançar nas relações do Brasil com Israel e, por isto, é importante o presidente Lula ouvir o chanceler Liberman.