O ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, fez um pronunciamento nesta segunda-feira, 23, perante a Assembleia Popular Suprema, que deixa o que pensar quando países mais poderosos tentam convencer os menos potentes a trocar a possibilidade de ter o mais poderoso e temido artefato bélico do mundo em troca de uma suposta ajuda para sua subsistência. Esta é a proposta que os Estados Unidos têm oferecido ao norte-coreano. Este, no entanto, fez uma alegação e uma lembrança que deixam o que pensar.
A alegação que ele fez é de que a bomba se constitui num poderoso fator de dissuasão. Tendo sua posse, ninguém vai se atrever a ataca-lo. E disse que, ao abrir mão do programa nuclear, você se torna vulnerável. Ele não citou, mas, o exemplo que vem à mente é contundente, a Ucrânia.
ENTREGA
Vale lembrar que a Ucrânia, quando conquistou sua independência, em 1991, entregou para a Rússia todo o arsenal nuclear que tinha em seu território, desde os tempos da União Soviética. E o fez em troca de seu reconhecimento como nação soberana por parte de Moscou e do suporte para o seu fortalecimento como um novo país. Todo mundo sabe o que se deu a 24 de fevereiro de 2022, quando, sob a denominação de “exercícios militares especiais”, tanques russos entraram em território ucraniano, onde estão ainda hoje.
Daí justificar-se o pronunciamento do ditador norte-coreano: “Continuaremos a consolidar firmemente nosso status como um Estado com armas nucleares como um caminho irreversível, ao mesmo tempo em que intensificamos agressivamente nossa luta contra forças hostis”, disse ele, segundo a agência estatal KCNA. Vejam que, segundo informação da agência AFP, apesar de sanções e isolamento diplomático, a Coreia do Norte é considerada hoje uma potência nuclear consolidada, com dezenas de ogivas e capacidade de produzir muitas outras. O regime também tem investido em sistemas de lançamento mais avançados, como mísseis balísticos intercontinentais de combustível sólido, que podem ser acionados rapidamente.
REALIDADE
No seu mesmo pronunciamento perante a Assembleia Popular, Kim disse o seguinte: “A realidade mundial atual, onde a dignidade e os direitos de Estados soberanos são impiedosamente violados por força e violência unilaterais, ensina claramente qual é a verdadeira garantia da existência e da paz de um estado”. Um sutil referência ao Irã.
Diante desta realidade é de se perguntar se o Irã, que está sendo bombardeado, irá concordar em abrir mão de seu programa nuclear e de seus mísseis balísticos em troca do fim da guerra. Conforme escreveu Vitória Damasceno na Folha de S. Paulo, a “questão maior é que o ataque (ao Irã) deixou para os norte-coreanos a clara mensagem de que a posse de armas nucleares é precisamente o trunfo do país para impedir que tenham o mesmo destino de outros rivais dos EUA. Sem querer, Trump mandou a mensagem para Kim — e ele a recebeu”.
UCRÂNIA
No entanto, incontestavelmente, a Ucrânia é hoje o exemplo mais acabado de um país que foi iludido por uma potência maior. A Ucrânia herdou o terceiro maior arsenal nuclear do mundo, devolvendo todas as armas à Rússia até 1996. A transferência foi formalizada pelo Memorando de Budapeste, de 1994, e se dava em troca de garantias de segurança e ajuda econômica.
De acordo com o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, IISS, na sigla em inglês, sediado em Londres, a Ucrânia entregou os seguintes armamentos.
Ogivas Nucleares Estratégicas: Cerca de 1.900 ogivas projetadas para mísseis de longo alcance.
Armas Nucleares Táticas: Estima-se que entre 2.650 e 4.200 armas nucleares de curto alcance (táticas) foram enviadas para a Rússia para desmantelamento.
Mísseis Balísticos Intercontinentais (ICBMs): Cerca de 176 mísseis, incluindo 130 unidades do UR-100N (SS-19) e 46 do RT-23 Molodets (SS-24).
Bombardeiros Estratégicos: Aproximadamente 44 bombardeiros pesados (incluindo modelos Tu-95 e Tu-160), capazes de lançar mísseis de cruzeiro com capacidade nuclear.
Infraestrutura: Os silos de mísseis foram destruídos, com o último sendo desativado em 2001
Estivesse esse armamento ainda em seu território ucraniano, a Rússia se atreveria a fazer o que fez? Esta é a terrível conclusão a que se chega.