O novo primeiro-ministro britânico Gordon Brown está encarando a sua primeira crise internacional. E justamente contra a poderosa Rússia de Vladimir Putin. A crise se estabeleceu agora, mas é decorrência de fato mais antigo e de conhecimento mundial: a morte em Londres do ex-espião russo Alexander Litvinenko. Ele morreu a míngua, em 23 de novembro do ano passado, depois de ter sido envenenado com uma dose letal de isótopo radioativo polônio 210. Na ocasião, já ficara claro que Litvinenko, que estava exilado na Inglaterra, fora vítima do serviço secreto russo. Afinal, ele se tornara um crítico contundente do regime de Vladimir Putin.
Não tardou também para se saber o nome do principal suspeito do assassinato: o agente da KGB Andrei Lugovoi, que se encontrara com Litvinenko a primeiro de novembro.Ou seja, 23 dias antes de sua morte. O governo britânico pediu ao governo russo a extradição de Lugovoi para julgamento. Com a negativa de Moscou estabeleceu-se a crise. Londres, em represália, resolveu expulsar quatro diplomatas russos.
O chanceler britânico David Miliband, em pronunciamento na Câmara dos Comuns, disse que “o governo russo não conseguiu compreender a seriedade desse caso e das questões envolvidas”. No entanto, a expulsão de quatro diplomatas é considerada uma reação moderada de Londres. Afinal, há 66 diplomatas russos credenciados no Reino Unido. Assim que o número quatro é considerado, tanto em termos numéricos, como em termos políticos, como uma reação moderada.
Brown comprou esta briga, que não é isolada. Londres também tem culpa no cartório, pois tem se negado a extraditar para a Rússia o magnata biolionário Boris Berozowski e o líder checheno Akhmed Zakayev. O primeiro, é acusado de sonegação fiscal, formação de quadrilha e enriquecimento ilícito. O segundo, de comandar a revolta separatista na província da Chechênia.
Desta forma, Brown já está entrando numa fria, pois o governo britânico não tem moral para exigir uma extradição, quando não cumpre com a sua parte em idêntico processo.
O episódio retoma os tempos da Guerra Fria e, com isto, deixa apreensivos os empresários britânicos, os quais temem que o estado de tensão entre Londres e Moscou afete os seus negócios. Depois do fim da União Soviética, em 1991, o Reino Unido se tornou o destino favorito dos russos, tanto a trabalho quanto em férias. A embaixada russa em Londres estima que ao menos 250 mil russos vivam hoje na Inglaterra.
Roman Abramovih, dono do clube de futebol Chalsea, e Oleg Deripaska, acionista majoritário da companhia de alumínio Rusal, se destacam na lista dos dez bilionários russos com residência em Londres.
Com a economia russa em alta por causa do petróleo, os negócios entre os dois países vêm num crescendo. O comércio bilateral triplicou nos últimos cinco anos, atingindo 16 bilhões de dólares em 2006. Londres se tornou o maior centro financeiro offshore para os russsos. E no ano passado, o Reino Unido foi o maior investidor estrangeiro na Rússia, com cinco e meio bilhões de dólares.
Assim é que a Rússia prometeu represálias diante da deportação de seus quatro diplomatas por Londres, mas, diante desses números econômicos, não se acredita que seja algo que venha a perturbar esse crescente intercâmbio.