(artigo publicado no Correio do Povo de domingo, 25/04/10)
A defesa do Irã segue sendo um tema perseguido pela diplomacia brasileira. Nesta semana, mais duas manifestações fortes. Uma foi do presidente Lula que, ao receber o presidente do Líbano Michel Suleiman no Itamaraty, disse que a paz no Oriente Médio passa pela questão nuclear do Irã. O que não deixa de ser verdade. Antes disto, no entanto, o chanceler Celso Amorim deu um grande escorregão, chamando de covardes e inapetentes os países envolvidos em negociar a aplicação de sanções ao Irã. Lula tem a pretensão de querer ser um negociador da paz para o Oriente Médio, o que envolve a questão entre israelenses e palestinos. Doce ilusão. Nem os EUA, que tem poder de persuasão sobre Israel, nem a Rússia e nem a Europa conseguiram alguma coisa até agora e não será Lula que irá mudar esse quadro.
Quanto ao pronunciamento de Amorim, surpreende que não tenha tido consequências negativas para o Brasil, pois ele arrolou como covardes os líderes de países como EUA, Alemanha, Rússia e Japão, entre outros, que estão negociando a aplicação de sanções ao Irã. Amorim diz não querer ver repetir-se uma tragédia como a guerra do Iraque. É certo. Foi uma guerra injustificável. Mas o que precisa fazer então é convencer os iranianos a abrirem o seu programa nuclear à inspeção da Agência Internacional de Energia Atômica, que é órgão da ONU para o assunto. Dando-se esta abertura, não haverá invasão, nem tampouco sanções. O problema, no entanto, é convencer Ahmadinejad a aceitar a proposta. E é isto que Amorim e Lula precisam fazer, se quiserem continuar defendendo o país dos aiatolás.
Pelo que se observa, ambos vão perseguir este objetivo. Lula deve visitar o Irã a 15 de maio, mas já mandou para a região o chanceler Celso Amorim para “amadurecer toda essa discussão”. Antes de Teerã, Amorim passa por Ancara e por Moscou para buscar apoio para a proposta que é considerada intermediária entre as pretensões do Irã e as dos EUA e demais parceiros. Segundo esta proposta, o Irã enviaria através da Turquia o seu urânio pouco enriquecido, a 3%, para ser elevado a 20% na Rússia. Com isto seria atendida a sua necessidade de uso para fins fins medicinais e de geração de energia, sem o perigo de o urânio ser enriquecido a mais de 90%, que é o necessário para fins bélicos. Lula já discutiu esta proposta no início do mês, em Washington, durante encontro com o primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan. Em função disto, parece estar agora jogando todas as cartas para fazer com que a proposta seja aceita pelas partes litigantes. Se conseguir, será um feito.
Mas o estranho é que Lula age no Oriente Médio e deixa de lado os parceiros do Mercosul. A “guerra das papeleiras” entre Argentina e Uruguai teve que ser decidida pelo Tribunal Internacional de Haia. A propósito, doce ilusão dos moradores de Gualeguaychú acreditarem que o Tribunal iria mandar fechar a fábrica de celulose, um investimento de 1,6 bilhão de dólares, o maior da história do Uruguai e que, nesses pouco mais de dois anos de funcionamento, alicerceu o crescimento do PIB do país em 11% ao ano. A decisão foi lógica: um leve puxão de orelha no Uruguai por não ter comunicado a Argentina sobre a planta, conforme prevê tratado de 1975, e o estabelecimento do controle conjunto, por parte dos dois países, sobre o funcionamento da fábrica.