A proposta do presidente Lula, elaborada em parceria com o colombiano Gustavo Petro, para a crise da Venezuela, não tem sustentabilidade. Como é que você vai fazer nova eleição envolvendo um regime que, nitidamente, fraudou o processo desenvolvido a 28 de julho? Não houvesse fraude já teriam sido mostradas as atas eleitorais que, supostamente, estão nas mãos da Suprema Corte de Justiça. E essas novas eleições seriam coordenadas por este mesmo CNE, Conselho Nacional Eleitoral, que não se dignou a publicar as atas?
Uma nova eleição seria, como disse a opositora Maria Corina Machado, o início de uma série, com segunda, terceira, quarta, assim por diante, até aparecer a vitória de Maduro? Além disto, tampouco o ditador quer novo pleito. Ele vai continuar agarrado a esse fajuto anúncio do CNE de que ele obteve 52% dos votos.
INGERÊNCIA
Há quem diga que o Brasil não tem que cobrar a divulgação das atas, como está pedindo o presidente Lula. Argumentam que isto seria o mesmo do que no caso de uma eleição no Brasil a Venezuela vir cobrar a divulgação das atas. Porque isto é um assunto interno de um país. Acontece que o caso da Venezuela já não é mais apenas de assunto interno. Ganhou repercussão internacional porque a falcatrua se tornou evidente.
Esta evidência foi atestada pelas atas reunidas pela oposição em 80% das mesas de votação e que foram auditadas pelo Carter Center, o único organismo internacional confiável em acompanhamento eleitoral que esteve presente no pleito. Organizações como a ONU, OEA e União Europeia deram respaldo ao aval do Carter Centre. O que foi seguido por uma série de outros países. A diretora do Human Rights Watch, Juanita Goebertus, disse que “uma nova eleição é uma burla”. Assim, a eleição da Venezuela deixou de ser apenas uma questão interna do país.
PERSEGUIÇÃO
Soma-se a isto a repressão que recrudesceu no país. Já são 25 mortos, duas centenas de feridos e mais de 2200 presos. O regime volta a usar a sua tática intimidatória, a qual fez com que a população se recolhesse no que toca às suas manifestações nos últimos anos. Voltar às ruas e protestar significa ficar sujeito à ordem dada por Maduro às instituições: “Mão de ferro dos poderes contra quem protesta”.
Só que não é somente esta “mão de ferro”. Existem os chamados “coletivos armados”, milicianos armados pelo governo que atiram em quem está protestando. O último grande protesto, realizado em janeiro de 2019, resultou nas mortes de 67 pessoas, executadas, em sua maioria, por esses milicianos, ou mesmo por policiais.
A propósito, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, CIDH, e a Relatoria Especial para a Liberdade de Expressão, RELE, condenaram nesta quinta-feira as práticas de violência institucional na Venezuela, qualificadas como terrorismo de Estado, incluindo repressão violenta, detenções arbitrárias e perseguição política, no marco das eleições presidenciais de 28 de julho. “O regime no poder está espalhando o terror como ferramenta para silenciar a cidadania e se perpetuar no poder. A Venezuela deve cessar imediatamente as práticas de violação dos direitos humanos, restabelecer a ordem democrática e o Estado de direito,” disse o comunicado expedido pelas duas organizações, que são ligadas à Organização dos Estados Americanos, OEA.
DESAFIO
Apesar de toda a repressão, a líder opositora Maria Corina Machado convocou uma grande manifestação contra o regime para este sábado. Através de um vídeo difundido pelas redes sociais, Maria Corina disse: “Neste sábado, 17, vamos tomar as ruas da Venezuela e do mundo. Onde houver um venezuelano estaremos juntos. Confio que desta vez será diferente, porque nós somos diferentes. Gritaremos juntos para que o mundo apoie nossa vitória e reconheça a verdade e a soberania popular”. Ela foi acompanhada de várias figuras de expressão dos setores das artes e da intelectualidade. Cada um com sua mensagem para motivar os venezuelanos.
Assim, fica a grande expectativa sobre como resultará desta manifestação. Irá passar sem mortes? Se com relação a isto há dúvida, já quanto a permanência de Maduro no poder não há. Maduro vai continuar à frente de um regime que o presidente Lula teve a coragem de dizer que não é uma ditadura, é apenas autoritário.