O movimento chamado “Revolução Jasmim” começou pela Tunísia, onde Zine El Abidine Bem Ali estava há 23 anos no poder e caiu a 14 de janeiro. Seguiu como um rastro de pólvora em direção a Leste e atingiu o Egito, onde Hosni mubarak governa com mão de ferro há 30 anos, e cruzou o Mar Vermelho indo até o Iêmen, onde está chamuscando o governo de Ali Abdalah Saleh, há 32 anos no cargo. Quem está com as barbas de molho é o coronel Muhamar Kadafy, que é o decano dos ditadores da região, há 42 anos comandando a Líbia com apoio militar.
Tunísia e Egito são países que tem uma história milenar e edificações que remontam àquelas épocas, se constituindo em grandes centros turísticos. É sempre interessante recordar a célebre frase de Napoleão aos seus comandados quando chegou ao Egito: “Soldados! Do alto destas pirâmides quatro mil anos de história vos contemplam”. Preservar este patrimônio da humanidade e dar segurança aos visitantes foi um dos desafios que se impôs a Hosni Mubarak, que herdou o cargo de Anuar Sadat, o presidente que dera uma reviravolta no rumo do país. Tirou-o do atrelamento à então União Soviética, passando para a área de influência dos EUA e, em decorrência, se constituindo no primeiro país árabe a firmar um acordo de paz com Israel. Fato que levou ao incremento da indústria do turismo, mas que também levou à morte Anuar Sadat, assassinado, em 1981, por fundamentalistas islâmicos. Os mesmos que tentaram seguir perpetrando atentados em áreas turísticas, mas que acabaram sendo contidos pela ação de força do governo de Mubarak, o qual promoveu um lento mas gradual crescimento do país, até o mesmo sentir os reflexos da crise mundial de 2008.
A vizinha Tunísia tem quase 40% de seu território ocupado pelo deserto do Saara, porém, o restante é constituído de terras férteis, que foram berço da civilização cartaginesa. Ali estava Cartago, que teve seu apogeu no século III AC e que depois acabou sucumbindo ao Império Romano. Muitas das edificações daquelas épocas ainda podem ser contempladas na Tunísia. Soma-se ainda o fato de os árabes terem chegado à região no século VII e terem transformado Tunis num grande centro religioso islâmico do Norte da África. Daí ser também outro ponto de atração turística, facilitada pela proximidade com a Itália, através do Mediterrâneo. Na Segunda Guerra, o país foi ocupado pelos alemães, sendo palco de combates. Ao final do conflito, caiu sob o controle da França, da qual se independizou em 1956.
Zine El Abdine Ben Ali subiu ao poder em 1987, na esteira de um movimento que expulsara as forças líbias que haviam invadido o país. Promoveu a ligação com a Europa e, em conseqüência, o turismo, proporcionando um gradativo crescimento para o país. Vê-se, pois, que tanto Ben Ali quanto Mubarak implementaram crescimento seus respectivos países. No entanto, ambos usaram a força em demasia, deixaram de lado preceitos democráticos básicos e conviveram com a corrupção.
Já a atual República do Iêmen, localizada ao sul da Península Arábica, na entrada do Mar Vermelho, é resultado da unificação em 22 de maio de 1990, entre o Iêmen do Norte, então chamado de República Árabe do Iêmen – nação de forte tradição islâmica, com o Iêmen do Sul, que se chamava República Democrática do Iêmen, mais ocidentalizado. O país também tem uma extensão ocupada pelo deserto da Arábia, onde o petróleo, descoberto somente em 1984, se converteu na grande fonte de renda. O país tem ainda uma faixa litorânea fértil, a Oeste, onde produz frutas e verduras. Conta a lenda que foi nessas terras que o cafezinho foi inventado, embora o café tenha se originado do outro lado do Mar Vermelho, na Etiópia.
Ali Abdalah Saleh enfrenta no Iêmen os mesmos problemas de seus parceiros do Egito e da Tunísia e também uma mesma oposição, concentrada no movimento chamado Irmandade Muçulmana. Movimento que também se mobiliza na Jordânia, na Argélia e por outros países da região onde os governantes, embora com o desgaste do tempo, não querem largar o poder. É o efeito dominó da “Revolução do Jasmim”, nome poético dado ao movimento que começou na Tunísia, talvez inspirado na “Revolução dos Cravos”, que tirou Portugal do atraso da ditadura salazarista.