O processo eleitoral no Uruguai é de deixar envergonhados todos os demais países sul-americanos, especialmente, nós brasileiros. Basta observar a tranquilidade como transcorreram as duas rodadas, cuja etapa final foi neste domingo que passou, e que levaram à vitória o professor de História Yamandu Orsi, de 57 anos, da coligação de centro-esquerda Frente Ampla. Seu adversário era Álvaro Delgado, do Partido Nacional, ou Blanco, de centro-direita.
Dentre os demais candidatos que concorreram no primeiro turno nenhum era de extrema, seja de direita ou de esquerda. O Uruguai prima pela moderação e respeito institucional. Tanto que a alternância de poder se dá da forma mais civilizada possível, com o presidente que está saindo passando a faixa presidencial para o que está assumindo, cumprimentando-o alegremente, mesmo que seja de partido oponente.
DEBATE
A vitória de Orsi marca o retorno da Frente Ampla ao governo. A coligação havia tido três governo seguidos, com Tabaré Vasquez e José Pepe Mujica, tendo perdido o último pleito para Luís Lacalle Pou, do Partido Nacional. Chama a atenção a situação do Partido Colorado, que presidiu o país por muitos anos, com figuras marcantes como Julio Maria Sanguinetti e Jorge Battle, e que há muito não ganha eleição. Nesta eleição seu candidato foi Andrés Ojeda, de 40 anos, que integra a ala jovem que tem buscado redefinir a identidade do partido e recuperar o terreno perdido para seus rivais, especialmente após se tornar parte da coalizão governista de Lacalle Pou. Com debates que vão desde a economia até a segurança, passando por questões sociais e ambientais. Aliás, estas têm sido as questões dominantes nos debates no país.
SUÍÇA
O Uruguai tornou-se conhecido na região não só pela qualidade de sua carne e se sua lã mas, muito mais, por seu sistema financeiro, o que lhe valeu o título de A Suíça da América. Em outras palavras, o Uruguai sempre foi um paraíso fiscal. Foi, porque a situação mudou, desde o início dos anos 2000. Pois, em decorrência do que ocorreu na Argentina e no Brasil, a economia uruguaia acabou entrando num processo de rápida deterioração, que abalou o sistema financeiro do país. Depois de 70 anos, o sistema financeiro do país foi abalado, especialmente depois que a Argentina adotou o “corralito” Temerosa de que seu governo adotasse algo semelhante, a população uruguaia começou a correr aos bancos para sacar seu dinheiro. Nessa corrida, foram-se 33% dos depósitos. E foi-se também a condição de Suíça da América.
RENDA
Apesar de a lã ter pedido espaço no mercado internacional, em virtude da expansão dos sintéticos, a carne uruguaia sempre foi de ponta, competindo com Argentina e Brasil pelo primeiro lugar. Não se pode esquecer a qualidade dos derivados do leite. Mas, a pecuária, de modo geral é carro chefe da economia uruguaia.
O principal para o país, no entanto, é o dado de julho do Banco Mundial que lhe atribui o título de país latino-americano com o maior PIB per capita , com cerca de US$ 22 mil. Isto o coloca na categoria de país de alta renda. O país também tem o melhor IDH – Índice de Desenvolvimento Humano, da América Latina.
ESTABILIDADE
Em contra partida, o país tem um dos mais elevados custos de vida da América Latina. Segundo a BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC) o Uruguai é caro devido a “dois problemas centrais”: a falta de concorrência e os setores regulados pelo Estado, “onde a regulação tem sérios problemas”.
Mas, a palavra chave para o Uruguai é estabilidade. Política, financeira, social, etc. Fatores responsáveis pela manutenção da moderação na política, muito embora os partidos tenham visões diferentes, especialmente no que toca ao papel do Estado.
Cabe por fim salientar que, embora a tendência de centro da política uruguaia, lá não existe um “Centrão” como aqui, aquele aglomero de partidos que toma conta das verbas públicas sem prestar contas. E lá a Suprema Corte trata somente das questões Constitucionais, não legislando nem governando paralelamente.