Brasil e Argentina se relacionam como aquele casal que vive entre tapas e beijos. Alternam momentos de euforia no seu comércio bilateral com outros de crescentes obstáculos. Atualmente, estamos vivendo este último quadro. As exportações de produtos brasileiros para a Argentina caíram em quase 30% em abril, na comparação com o mesmo período do ano passado. Decorrência das barreiras impostas pelo vizinho país. Na esteira dessa medida, vê-se dezenas de caminhões carregados de maças, vinho, farinha de trigo, queijos, batatas e outros produtos, parados na fronteira entre Santo Thomé e São Borja, aguardando pela chamada licença não automática, que pode levar até 60 dias para ser concedida. Numa espécie de “operação padrão” que a Polícia Federal às vezes faz nos aeroportos.
Oficialmente, tudo está dentro da lei. Tanto as medidas tomadas pela Argentina quanto as que o Brasil colocou em prática. Só que, se constituem num atraso para um bloco que quer se constituir num mercado comum e ter poder para competir com outros blocos regionais. O objetivo deveria ser o crescimento do intercâmbio, só que os números estão mostrando o contrário. A Argentina ainda continua sendo o destino número três de nossas exportações. Só que, em passado recente este percentual representava 12% do que vendemos e hoje está em 10%. Nossas vendas para lá caíram devido às medidas protecionistas que o governo de Cristina Kirchner adotou para incentivar a economia local e evitar a saída de dólares. E também para o governo ter o controle de tudo, pois até livros para serem importados precisam de autorização governamental. Desde o início do ano, os importadores argentinos precisam pedir uma autorização antecipada, esperar pela aprovação, e só então, se esta ocorrer, ter acesso à compra.
Mas não é só o importador argentino que está com dificuldades. O exportador também. Isto porque, para fazer caixa para seus programas assistencialistas, o governo aplicou sobretaxas às exportações. Um dos setores mais atingidos foi o da carne, porque o governo queria impedir a exportação para fornecer ao mercado interno por preço mais barato. O resultado: o mercado internacional da carne, que antes era liderado pela Argentina, hoje é ocupado pelos produtores brasileiros.
O fato é que as barreiras acabam prejudicando os dois países. Tentando romper com os obstáculos, empresários paulistas, sob a liderança da Fiesp, têm promovido reuniões com empresários argentinos. É uma tentativa de vender mais e comprar mais, para tentar igualar a balança, que hoje pende para o lado do Brasil, que vendeu no último ano pouco mais de US$ 22 bilhões para Argentina e comprou US$ 17 bilhões. O nosso próprio Ministério do Desenvolvimento Comércio e Indústria está disposto a financiar os importadores argentinos num total de US$ 5,8 bilhões, que é o valor do saldo positivo brasileiro.
O curioso é que, em meio a este retrocesso, o chanceler argentino Héctor Timerman propôs esta semana ao chanceler Antônio Patriota que o Mercosul eleve de 10% para 35% a taxa média de importações. Ou seja, quer fazer o Mercosul mergulhar no retrocesso a que está sendo levada a Argentina. De qualquer maneira, o assunto está posto para a reunião do bloco, dia 28 de junho.