Osama Bin Laden foi morto por forças americanas a 1º de maio último. Seis semanas depois surge o nome do seu sucessor na liderança da Al Qaeda, o egípcio Ayman al Zawahiri. Um médico de 59 anos. Algo chocante, um médico estar à frente de uma organização terrorista. O profissional que é preparado para salvar vidas vai se dedicar a eliminá-las. E dentro dos nefastos preceitos do terror, que pode atacar a qualquer hora e em qualquer momento, matando, quase sempre, pessoas inocentes, como foi no 11 de setembro de 2011 nos EUA, como também o foi, posteriormente, nos atentados aos metrôs de Londres e de Madri.
Mas, se é surpresa ver-se a figura de um médico liderando a Al Qaeda, não surpreende que seja a pessoa de Zawahiri. Ele foi o fundador da organização junto com Bin Laden, em 1988, em Peshawar, no Paquistão, cidade situada muito próxima à fronteira com o Afeganistão, na zona em que predomina a atuação da organização. Desde então ele foi o braço direito de Bin Laden e ajudou a espalhar os tentáculos da Al Qaeda. Primeiro, para o Leste da África, em 1988, aproveitando a desestruturação de países como Somália, Sudão e Quênia. E foi também a desestruturação do Iraque, a partir da invasão dos EUA, que a organização conseguiu também entrar naquele país, em 2004, sendo responsável pelos ataques suicidas que até hoje vêm sendo praticados. A organização também chegou ao Magreb, em 2006, tendo fundado na Argélia o “Magreb Islâmico”, que atua em diversos países da região. O mais recente tentáculo foi estabelecido em 2009 no Iêmen.
Logicamente que o anúncio da ascensão de Ayman al Zawahiri deixa o mundo em alerta, pela possibilidade de um atentado para marcar sua presença à frente da organização. Mas, onde está esta figura, que passa a ser tão procurada como seu antecessor no posto? Em lugar incerto e não sabido, mas com uma recompensa de US$ 25 milhões por parte do FBI, por sua captura. Vale lembrar que demorou quase 10 anos para os EUA colocarem a mão sobre Bin Laden. Só que, decorreu todo esse tempo porque o então presidente americano George Bush mudou o foco da ação. Ao invés de continuar caçando Bin Laden e seus terroristas da Al Qaeda no Afeganistão, onde eles se encontravam, Bush usou a desculpa do terror para fazer uma guerra que interessava às corporações que lhe deram sustentação: do petróleo, das armas, da construção. Mentiu que o então ditador iraquiano Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa e atacou aquele país. Deixava de lado o foco do terror – Bin Laden, Al Qaeda e Talibã – para se dedicar à ocupação do Iraque.
Oficialmente, a guerra dos Estados Unidos no Iraque terminou a 1º de setembro do ano passado, quando o presidente Barack Obama, em pronunciamento à nação, anunciou o fim conflito. Disse que retiraria 100 mil soldados do Iraque, deixando lá um contingente de 50 mil para ajudar os iraquianos a estabelecer a sua própria segurança. Disse ele que o Iraque é uma página virada. Obama estava cumprindo sua promessa de campanha. Mas Obama disse também que antes de fazer seu pronunciamento conversou com o ex-presidente George Bush. Pois parece que se deixou influenciar pelos posicionamentos de seu antecessor. Pra começar, disse que terminou a operação “liberdade para o Iraque”, que foi o nome dado por Bush. E mais: Obama disse estar maravilhado com o sacrifício de “homens e mulheres americanos em uniforme”, que lutaram em “um lugar distante, por pessoas que nunca conheceram”. Ora lutaram por pessoas que nunca conheceram? Vai querer convencer, como tentou fazer Bush, que os EUA foram lá lutar única e exclusivamente para implantar a democracia no Iraque! Então porque não fazem o mesmo na Arábia Saudita, no Kuwait e em tantas outras monarquias absolutistas da região, que praticam mais atrocidades do que os aiatolás do Irã. Obama, que teve a visão de que a guerra contra o terror não é no Iraque, mas no Afeganistão, poderia ter-se poupado desses detalhes relacionados a Bush.
A propósito de Iraque, acaba de ser lançado nos EUA o livro de uma ex-fuzileira americana, Jessica Goodell, de 28 anos, que atuou na guerra no Iraque. O livro, ainda inédito no Brasil, se chama “Shade it Black – Death and After in Iraq”. Ela relata a terrível tarefa que cumpria junto com seu grupo, que era de recolher os pedaços de corpos de soldados americanos e tentar recompor o cadáver. Ao longo de oito meses ela cumpriu esse trabalho, tentando identificar o corpo, para depois juntar pertences pessoais e mandá-los para os familiares nos EUA. “Eu estava constantemente trabalhando com restos humanos. Isso me fazia pensar no porquê de aquelas pessoas estarem perdendo suas vidas.” Deveria perguntar para George Bush.