(Artigo publicado no Correiro do Povo de domingo 27-02-2011)
A crise que se abate sobre os países árabes pode trazer benefícios para o Brasil. Dentre as várias conseqüências da crise está a diminuição no fornecimento do petróleo e o seu conseqüente aumento de preço. Segundo avaliação da agência de risco Goldman Sachs, se a situação piorar na Líbia e na Argélia e ocorrer uma interrupção no fornecimento do petróleo por parte destes dois países, o preço do produto no mercado internacional poderá chegar a 220 dólares o barril. Por aí se pode ter uma avaliação do que isto representará de impacto na economia mundial. É claro que isto é uma hipótese, mas os países dependentes do produto precisam pensar a longo prazo. E aí é que entra o Brasil.
Esta entrada do Brasil no mercado internacional está ligada à exploração do Pré-Sal. Porém, estaria acelerando o processo de exploração desse produto nas águas profundas, especialidade da qual a Petrobrás é top de linha na área internacional. E quem já manifestou o interesse por este potencial energético do Brasil foi o governo americano. O chanceler Antonio Patriota recebeu esta informação no encontro que teve esta semana, em Washington, com a secretária de Estado Hilary Clinton, tratando a respeito da visita que o presidente Barack Obama fará ao Brasil. A compra do petróleo brasileiro pelos EUA será um dos principais temas da agenda de Obama. A medida americana está inserida no contexto de deixar de lado fornecedores de países instáveis politicamente, para comprar de países com estabilidade democrática como o Brasil.
Curioso é que desde a descoberta do Pré-Sal o governo brasileiro parece ter deixado de lado o que até então era a galinha dos ovos de ouro do setor energético: o etanol. Combustível limpo e barato. Antes da descoberta, o Brasil vinha desenvolvendo uma intensa campanha em nível internacional, tanto no sentido de vender o etanol como a grande alternativa ao petróleo, como no sentido de buscar parcerias para a sua exploração. Propostas, inclusive, foram feitas para países latino-americanos no sentido de entrarem com a plantação da cana, enquanto que o Brasil entrava com a tecnologia da transformação em combustível. Da mesma forma, intensa campanha foi desenvolvida junto aos EUA no sentido de fazer com que o nosso produto entrasse naquele mercado. Especialmente, porque os norte-americanos produzem o etanol a partir do milho, que é alimento, é caro e recebe subsídio. Enquanto que o Brasil produz a partir da cana, num processo mais barato e de melhor aproveitamento de terras.
Conversando esta semana com o cônsul geral de Israel em São Paulo, Ilan Sztulman, que esteve em visita a Porto Alegre, ele me disse que este era o momento para o etanol brasileiro. Entrar no mercado internacional como substituto vantajoso do petróleo, tanto em termos de preços como de poluição. Ressaltou não entender porque o Brasil não aproveitava a oportunidade. Pois a resposta está na mudança de posição brasileira desde a descoberta do Pré-Sal. Mudança que ganha impulso com este encontro em Washington de Patriota e Hilary.
A propósito das demais decorrências da crise que atinge o mundo árabe, o cônsul Sztulman manifestou a imensa preocupação que há em Israel. Especialmente em relação ao que possa ocorrer no Egito. Basta lembrar que, ao longo de sua história, Israel travou quatro guerras com os árabes. Em todas elas quem esteve à frente do mundo árabe, com o maior contingente militar, foi o Egito. Desde que firmou o acordo de paz com o Egito, em 1979, Israel não teve que enfrentar mais guerras. Agora, como disse o cônsul, imagine se o Egito cai nas mãos do Irã, o que pode acontecer!