(Artigo publicado no Correio do Povo de domingo, 23/05/2010)
Se a pergunta fosse: os EUA sabem o que querem com o Irã, a resposta seria fácil. Querem, evidentemente, impedir qualquer possibilidade de o regime radical islâmico chegar até a bomba atômica. Mas, como evitar isto é que está sendo o problema. Ao seu tempo, George Bush – que arrolou o Irã, com o Iraque e a Coréia do Norte, no “eixo do mal” – cogitou de atacar as instalações nucleares iranianas. Porém, estava por demais atolado no Iraque e no Afeganistão para abrir um outra frente de combate. Israel cogitou de fazer o serviço, mas era preciso o respaldo americano, o que não obteve.
Quando assumiu o governo, Barack Obama se dispos ao diálogo com o Irã. Estendeu a mão para Teerã. Mas os truculentos aiatolás não entenderam o gesto e trataram de impor condições. Nada avançou. Obama, então, retomou as sanções dos tempos de Bush. Em outubro do ano passado, a Agência Internacional de Energia Atômica veio com a proposta no sentido de o urânio iraniano ser enriquecido fora do país. O Irã não aceitou por entender de que não possuía garantias de que receberia o seu urânio de volta. O fato serviu para os EUA voltarem a agir em busca de novas sanções e tratando de conseguir para isto o apoio de Rússia e China, que são dois aliados tradicionais de Teerã. Ou seja, o diálogo se esgotava e se passava a trilhar o caminho da intimidação.
Foi então que o presidente Lula resolveu entrar em campo. Entendia que ainda havia espaço para o diálogo e que este deveria ter por base a proposta da AIEA de meados do ano passado. Segundo está revelando a Agência Reuters, há pouco menos de três semanas Lula recebeu uma carta de Obama, em que o mandário americano lhe dava o apoio para a busca de um acordo com o Irã. Obama teria dito que “o acerto da troca de combustível nuclear com Irã criaria confiança no mundo.” E que este acerto deveria ser procedido nos termos que o Grupo de Viena havia proposto no ano passado. Pelo que consta, tudo isto foi contemplado no documento assinado segunda-feira em Teerã, por Brasil, Turquia e Irã. No entanto, no dia imediato ao da assinatura, os EUA não só manifestaram o seu ceticismo com o acordo, com ainda partiram para a busca de novas sanções. A alegação: exigiam que o Irã desse provas dos fins pacífico de seu programa nuclear e interrompesse a produção de urânio a 20%. Este último aspecto, na realidade, se constituiu no grande fator a desacreditar o acordo conseguido pelo Brasil. Pelo documento, o Irã se comprometia a enviar para outro país 1.200 quilos do seu urânio de 3,5% para ser enriquecido a 20%, servindo a Turquia com o “fiel depositário”. Porém, ao mesmo tempo em que assumia esse compromisso, anunciava também que continuaria a enriquecer o urânio a 20%. O que significa que só mandaria uma parte para fora e outra, que não se sabe que quantidade, manteria para ser enriquecida internamente. Ora, desacreditou o acordo. Assim, as preocupações da comunidade internacional persistem. Então, o que fazer? Sanções, já está provado, não resolvem. Atacar as instalações iranianas seria a solução? Bem, os EUA ainda estão atolados no Iraque e no Afeganistão. E mesmo um ataque cirúrgico, pelo que se sabe, seria difícil, porque as usinas iranianas são subterrâneas e protegidas por sistemas antimíssil. Seria então, de aceitar o acordo de Teerã, com a promessa de que o Irã iria parar de enriquecer o urânio internamente? E quem garante que o país irá cumprir? Como se observa, os EUA estão encurralados neste tema.