– j.soares@cpovo.net –
O advogado francês Marcel Ceccaldi, que tem prestado serviços para a família de Muamar Khadafi, anunciou que familiares do ex-ditador, que conseguiram fugir da Líbia, pretendem levar a Otan, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, ao Tribunal Penal Internacional. Segundo Ceccaldi, a organização teria cometido “crime de guerra” no ataque a Khadafi que, come se pode ver pelas imagens da televisão, foi trucidado pelos integrantes do dito Conselho Nacional de Transição. Pois nada mais justo do que isto. A ação da Otan vem se somar à outra, praticada por George Bush, que resolveu atacar o Iraque em nome de uma mentira, as tais armas de destruição em massa, que nunca existiram. Ambos, portanto, deveriam responder por crime de guerra.
A Otan recebeu um mandato na ONU para usar seus aviões no sentido de dar proteção à população civil líbia. Isto foi estabelecido depois que o CNT iniciou sua rebelião a partir de Benghazi. Ocorre que Khadafi já estava pronto para sufocar o movimento rebelde quando a Otan entrou em ação. Em vez de evitar uma confrontação entre os dois lados, passou a agir em apoio aos rebeldes. Bombardeou aviões da força aérea líbia no ar e em terra. Destruiu os tanques do exército líbio e foi abrindo caminho para os rebeldes. Caminho que chegou até Trípoli, com bombardeios ao palácio de Khadafi, ocasião em que morreu um dos filhos do ditador. Consumada a tomada da capital, a ação da Aliança Atlântica continuou em direção a Sirtre, a cidadã natal de Khadafi e onde ele estava refugiado. Aí, através de comunicado de imprensa, veio uma das mentiras: Khadafi fora encontrado, fora ferido, mas resistira e, em tiroteio com opositores, teria morrido. Mentira de perna curta, porque hoje qualquer um filma com um celular, e logo vieram as imagens contundentes do massacre. Em depoimento ao jornal “Guardian”, o motorista de Khadafi, que foi preso pelos rebeldes, disse que o ditador tentou escapar de Sirtre, mas o seu comboio foi atingido ao sair da cidade e ele foi capturado e executado.
O próprio presidente Barack Obama admitiu que “faltou decoro” no tratamento dado a Khadafi. Ora, pois mais cruel que ele tenha sido, não se justifica o que fizeram. Embora fazendo essa crítica, Obama também tem culpa em cartório. Ele é o presidente dos EUA, o principal membro da Otan. Ta certo que ele, após um primeiro ataque, mandou os seus aviões se retirar e deixou a tarefa, basicamente, por conta de Inglaterra e França. Aliás, os dois países que, juntamente com a Itália, estão repartindo o botim petrolífero da guerra. Aliás, não seria outro o motivo da guerra que não fosse o petróleo, a venda de armas, para rearmar o novo exército do país, e a reconstrução. Afinal, quase tudo foi destruído e é preciso reconstruir. Para isto estarão logo ali as empresas dos países que deram suporte para os vencedores. Nada diferente do que aconteceu no Iraque. A não ser com relação ao governo americano, que pilotou a ação iraquiana e se retraiu no caso líbio.
Mas, tudo isto que ocorre é dito em nome da “Primavera Árabe”, o movimento que começou na Tunísia, passou como um furacão pelo Egito e pelo Iêmen, está agitando a Síria, mas esbarrou nas ditaduras, aliadas do Ocidente, da Arábia Saudita e do Bahrein. Movimento que visa levar a democracia de estilo ocidental para o mundo árabe. Doce ilusão. Com esta mesma desculpa os EUA invadiram o Afeganistão e o Iraque. E é só ver o que se dá lá hoje. O arremedo de democracia que implantaram vai se esvair assim que as forças americanas saírem. E quanto à Líbia? Bem, a primeira manifestação de um dos integrantes do Conselho Nacional de Transição, foi no sentido de implantar a Sharia, ou seja, a “suave” lei muçulmana.
Para fechar, cabe ressaltar que, pela acusação de “crime de guerra” imputada à Otan, deveriam responder os chefes de governo de cada um dos países membros da organização, ou seja, EUA, Canadá e europeus. Eu disse deveriam, porque, na prática, assim como no caso do Iraque, a mídia desses países fará parecer que eles prestaram um grande serviço à população líbia.